9.3.09

obrigado por não questionar

Blogosfera adentro, seguindo alguns links, a gente encontra posts e comentários que rebatem os protestos contra a igreja católica no caso da menina que abortou os gêmeos. Eu me interesso em ler todos eles, porque quero ver como se constrói a defesa do indefensável. Na verdade, a fórmula é clássica. Primeiro, redução de danos. Transbordam linhas no sentido de "a excomunhão não é tão grave assim, não afeta a vida de ninguém". Eu já disse aqui na caixa de comentários, que o bispo não poderia nem quereria lidar com a vida concreta ou cotidiana das pessoas envolvidas (e não envolvidas). Seu universo é o simbólico, o metafísico, o moral. Excomunhão, tá no nome, é a exclusão na comunhão, apartamento da comunidade e dos sacramentos. Veja bem. Para um católico, não poder batizar seus filhos ou tomar a hóstia não é uma sanção como não poder comer ou ser privado da liberdade. É uma advertência espiritual. E eu gostaria de entender como católicos são capazes de minimizar o efeito de uma excomunhão na vida de um fiel. Já que esta também é uma religião que defende a supremacia do espírito sobre a carne. Se não faz diferença ser pagão ou ser cristão, alguém por favor me explica em nome do quê queimaram tantas pessoas (sobretudo mulheres, mas deve ser coincidência) na Idade Média.
Por outro lado, se os médicos, a família e a menina não são católicos, a excomunhão de fato não significará muito. Mas aí a gente tem que notar a proporção que as coisas tomam. Porque existe um rebanho de 155 milhões de católicos declarados no país. Em regiões mais pobres, as pessoas ouvem mais um padre do que um médico, um político ou um professor. E fica claro. Que a Igreja Católica Apostólica Romana não admite e nunca admitirá um aborto. Em hipótese alguma. Se não aceitou esse, não há como aceitar outros. Acho incrível ver um bispo pronunciar-se tão ferozmente com os envolvidos e o rebanho todo se levantar pra dizer "deixem disso". Não é curioso que, mesmo com uma certa quantidade de católicos não-praticantes, independentes e até críticos, haja um uníssono tão forte nesse sentido de amenizar a situação e evitar que se formasse uma opinião pública contrária à igreja? Acho que essa excomunhão acabaria sendo um tiro no pé. Porque recoloca em pauta o aborto e o fundamento dos votos contra. Ou então os 155 milhões de pessoas aceitam de vez que não devem fazer ou auxiliar um aborto, mesmo se a gravidez for concebida sob as piores e mais cruéis condições. Mesmo se isso causar a morte da mãe vítima. A igreja católica é uma das que mais carrega nas cores do inferno. E vai radicalizando, vai condenando. Indo contra qualquer movimento civil mais arejado do que ela. E dizendo que as questões que ela aborda não são da alçada do mundo secular.
O segundo passo na defesa do indefensável é a exaltação das qualidades da igreja. Lembrar que ela prega o amor, o perdão e a humildade. Que sua mitologia nos mostra histórias de sacrifício a altruísmo, exemplos a serem seguidos. Que é isso o que importa. Adoro o recorte. Porque eu estudo mitologias. E estudei a vida inteira em colégios católicos. Eu sei do que esse povo tá falando. Posso até ver a beleza de suas narrativas, como vejo nas narrativas do olimpo, dos orixás, das entidades indígenas. Mas as narrativas e símbolos católicos ficam mais restritos aos fiéis. O mundo secular tem de lidar com suas instâncias políticas, mesmo. E encarar o Ratzinger, e não São Francisco de Assis. E ouvir ameaças e resmungos, do tipo "o divórcio é uma chaga", ou "o homossexualismo(sic) é imoral". Essa é a parte feia, e as consequências e desserviços que ela causa, as pessoas todas tem que aguentar (quer tenham escolhido o catolicismo ou não), e coletivamente.
Eu já disse aqui. Fico satisfeita que ela exclua seus fiéis desse jeito. Quero que esvazie muito rápido e que nenhum padre cantor/modelo/ dançarino seja capaz de reverter os efeitos dessa dinâmica da imutabilidade.

6 pessoas pararam por aqui:

carol disse...

Nossa. Adorei os dois textos.

Parabéns!

lu disse...

eu saí agorinha mesmo do rafael galvão dizendo q a igreja católica "no brasil"..., e falando de como ela por dois mil anos pregou o amor e... aiaiai.
eu fico querendo passar o link do seu blog pra todas as pessoas do mundo.

aline disse...

Carol, obrigada.

Lu. O Rafael tem uns posts incríveis de relevantes. Eu sempre acho que ele vai no ponto.
Vc pode passar o link pra quem quiser, pq só vem gente interessante, inteligente e querida das tuas bandas. Quem sai ganhando sou sempre eu =)

bjos

dani disse...

oi aline,

gostei muito dos seus posts.
tomei a liberdade e linkei vc na caixa de comentários do biscoito fino, tá?

bjos

Marcus disse...

Faltou você explicar melhor o que é esse indefensável que está sendo defendido. De minha parte, eu não "exaltei as qualidades da Igreja", pelo contrário, a chamei de "criminosa", "atroz" e "autista".

A única coisa que eu defendi foi que os católicos que não concordam ou não se sentem representados pela Igreja enquanto instituição têm o direito de continuar exercendo sua fé sem ser acusados de coisas feias, como se a decisão de se manter ligado à essa tradição que você mesma considera bonita, algo que é de foro íntimo, estivesse sob escrutínio público.

Talvez isso seja indefensável pra você. Mas lembre-se que esse debate começou depois que eu ELOGIEI o seu artigo de crítica à Igreja, e apenas fiz a ressalva de que muitos católicos não concordam com ela.

aline disse...

Dani, agradeço. bjos

Marcus. Indefensável é a igreja, ué. Que foi defendida, em certa medida, em seu texto e em outros.
Preciso deixar duas coisas claras se a gente quer continuar a troca de idéias (e não pedras). Catolicismo e Igreja católica são lados da mesma moeda. Um é a abstração, outro é a insituição, mas em muita coisa se confundem. Isso, eu sei, não é consenso entre nós. Eu entendi seu texto. E, em resumo, acho sim essa posição irresponsável. É como um escravocrata criticar a escravidão, mas continuar praticando-a. Ou dizer que trata bem seus escravos. Os católicos são parte necessária e imprescíndível de uma insituição. Reproduzem seus valores. Não acho que um católico possa escolher quais aspectos da igreja ele aceita e quais ele ignora e condena. Só no brasil mesmo, em que o catolicismo não praticante é institucionalizado (a gente é muito contraditório). Qdo vc diz que a tradição do catolicismo é mais bonita e relevante que uma simples, pequena e individual excomunhão, eu digo que um não existe sem o outro. A tradição se baseia em todos esses "pequenos atos singulares". As histórias dos santos se baseiam nisso. Joana D'Arc só é uma santa porque a igreja resolveu que era bruxa e foi queimada viva em nome da tradição. E de repente ela é incorporada à tradição e vira mito. No mito, a violência desaparece ou sublima-se. Bonito, mas perigoso.
Outra coisa muito importante, eu não estou cerceando o direito de alguém de falar o que quer que seja, ou de sentir fé. Questiono outra coisa. Como vc continua adepto a uma instituição que vc mesmo é capaz de perceber que é criminosa, autista, atroz. Bem entendido, não é uma implicância com vc, Marcus Pessoa, mas com os católicos moderados em geral, porque é um grupo enorme de pessoas que, apesar de notar as contradições da igreja, mantém-se a ela. Vcs tbm agem politicamente, mesmo sem querer ou saber.

Qto ao direito de sentir fé "sem ser acusado", Marcus, que coisa. Tenho direito à liberdade de expressão. Esse blog é meu. A menos que eu ofenda alguém pessoalmente, acho que tenho o direito de criticar os grupos que atuam social e publicamente. Se vc quiser, eu tiro o link da sua página. A intenção nunca foi ofender ou magoar. O texto, como os católicos, continua igual.

Só uma última coisa. É sincero quando eu digo que acho bom eles terem sido excomungados. Concordo muito com a Mary W no sentido de "igreja a gente não reforma, explode". O que me deixa puta é vir a público pra criticar e acuar as pessoas que decidiram pelo aborto. E absolver o estuprador, pq o crime dele é menor. Isso sim, é foda. E ultrapassou o limite da igreja, perceba. Foi a igreja que jogou isso na esfera pública.

Postar um comentário

Diga lá.