10.4.09

da amiga de nome egípcio

Aconteceu de eu ter crescido numa cidade pequena e de lá ter saído pra fazer faculdade. Essa trajetória não é muito comum, lá de onde eu venho. A maioria das meninas com quem eu brinquei de boneca cresceram naqueles arredores, pararam o estudo depois do colegial, casaram, tiveram filhos. Algumas fizeram faculdade, o que não mudou muito o resto: casamento, filhos, casa. Dentre essas meninas, uma sempre foi a mais querida: grande amiga da infância, da adolescência. A Isis é e sempre foi linda. Com pouquíssima paciência e disposição pra estudar, e uma generosidade e senso de humor incríveis. A gente sempre teve muito pouco em comum, mas a afinidade veio mesmo assim.
Aconteceu de ela conhecer um cara. Engravidou a primeira vez, e a segunda. Ele é motorista, ela trabalha com telemarketing, mas acha que vai ser mandada embora. A vida deles é bem dura. O apartamento é pequeno, dormem os quatro no mesmo quarto. A mãe dela meio que abriu mão. A Isis teve a oportunidade de morar e estudar fora há uns anos atrás. Antes do namoro ficar firme, antes de virem as crianças. Não tem como não sentir frustração, lembrando da vida que poderia ter sido. Liguei pra ela ontem. Descobri recentemente que ele não aceita usar preservativo. E também não a ajuda muito, não. Com as crianças, com a casa. Ela não teve coragem de fazer laqueadura. Mas morre de medo de engravidar de novo. E me perguntou, tímida, se é normal ficar um tempo sem ter vontade de transar. Eu disse que sim. E ela perguntou se o Paulo não força, quando acontece de eu não querer. Eu disse que não. E ela: que sorte a sua.

Não importa o que eu diga pra essa minha amiga linda com nome de deusa egípcia. Ela sempre ouve o que eu tenho a dizer e responde, melancólica: você que tem sorte, aline.

16 pessoas pararam por aqui:

Thanatos disse...

bem, sorte também se faz né.
sempre há uma escolha. Problema é que a gente sempre continua insistindo na errada pra não admitir o quanto perdeu. :/

ela ainda deve ser jovem, sempre há tempo. Conheço uma pessoa que entrou nessa depois que as coisas desandaram, está assim até hoje, uns 30 anos depois, e sempre se parece um zumbi, vivendo atrelado ao passado...

aline disse...

Eu nem acho, Thanatos, que o fato de um namorado não forçar a transa seja uma questão de sorte. É o mínimo, né? É esse o ponto, exatamente. A distância, a minha impotência, a impotência dela. Por mais que eu saiba e veja várias possibilidades pra ela, ela não vê. A violência que ela sofre, eu acho, é grande. Mas ela nem vê como violência, acha que é obrigação dela como esposa. Estamos em 2009, ela estudou no mesmo colégio que eu, recebeu uma educaçã super parecida com a minha. Claro que a gente se constroi. E escolhe quais pessoas vao determinar elementos de nossa vida. Mas é mais fácil falar abstratamente.

Me deixa triste demais essa história.

lu disse...

incrível você ser amiga dela. sei que devia dizer que eu acho incrível existir isso ela tendo a nossa idade e sendo tão próxima, mas que existe eu sabia. mas não conheço nenhuma menina nessa situação, pessoalmente, pelo menos não o suficiente pra saber disso.
eu definitivamente não ia conseguir ser amiga. me dá nos nervos, esse tipo de coisa, desperta minhas paixões; só de ler o post já me entristeci demais. eu me alterno entre uma vontade tremenda de pegar no colo e de dar uns tapas.
a gente tem sorte mesmo, aline.

eu tive uma grande amiga que tinha crenças totalmente diferentes das minhas. ia casar virgem e tudo, achava lindo. mas ela era feliz com isso, era coerente, consciente. eu a respeitava muito por isso.
agora, essa situação da isis, nossa, até difícil imaginar algo pior. não é uma escolha dela, por isso ela tem razão quando diz que é sorte - por mais que a gente saiba que é uma sorte que a gente constrói.

mas quando a gente escapa e resiste à episteme em que vive, é fácil ver nossa responsabilidade em gerir a própria vida. mas senão, não. não tem responsabilidade, tem azar.

tenho visto uns anúncios antigos, publicitários, e umas revistas. olha esse, por exemplo.
é impressionante como as mulheres são retratadas como quem PRECISA do marido, como se não houvesse vida pra nós independente deles. então tem que agradar, porque tem que manter - e o contrário também vale; eles são os reis. se você tá nessa, não tem como. fodeu.

Simone disse...

eu já estive em uma situação muito parecida (filho, marido, sem dinheiro, opressão...etc). o problema não é só tomar uma decisão. é que o motivo que a fez entrar foi acreditar muito (no amor pelo namorado, na idealização de ter um filho com ele, por exemplo). É um luto muito forte. quase como perder a si mesmo. porque afinal, ela abriu mão de si mesma. teria que se reinventar. acho um pouco desumano dizer que não seria amiga de uma pessoa assim... assim como, cara pálida? com problemas mais sérios e que correu um risco fudido tentando ser feliz?
ela vai ter sorte se conseguir sair. afinal, quem se importa?
a mãe dela? não deve ser a toa que ela está neste tipo de situação.
eu acho... que ela primeiro precisa ver outra possibilidade, ter outra chance da vida, para então admitir que quer sair dessa situação. entre isso e nada, ela ainda prefere um sonho quebrado. viajei?

Thanatos disse...

sim, é fácil falar abstratamente.
Tem várias coisas que também não percebemos como escolhas.
Ao estar na primeira pessoa sempre é mais difícil perceber os outros pontos de vista.
Mas essa coisa de dizer, sorte é dos outros, também é uma defesa, porque por algum motivo ela escolheu a vida que tem.

cris disse...

a minha irmã já esteve numa situação bem parecida. engravidou muito jovem, não 'precisou' casar, aí uns dois anos depois deu bobeira, engravidou de novo de outro cara [ninguém cogitou um aborto, o que, na minha opinião, teria sido a melhor escolha. enfim]. aí, minha mãe foi categórica: 'agora eu não cuido mais de neto'. bem, ela casou. e foi um inferno, bem pior do que esse da isis. no total, ele teve 3 filhos. uma roubada, com certeza. o fato é que, quando ela começou a dar sinais de que não aguentava mais aquela vida, ninguém da família se apresentou pra ajudar. mas a gente começou a trocar cartas [é, na época não tinha email, gente...]. resumo da ópera: eu a incentivei a se inscrever escondido no vestibular na uff. ela passou num dos primeiros lugares, abandonou a casa onde morava e veio só com as crianças e a roupa do corpo. pq por mais carrasca que fosse, a minha mãe não iria colocar 3 crianças na rua. e assim foi. ela passou 5 anos morando com meus pais, se formou, passou em concurso, hj é independente. eu achava - e acho - muito cruel essa lógica do 'você escolheu errado, agora foda-se'. afinal, quem disse que a gente não pode se arrepender das escolhas que faz? o grande problema é que pra sair do atoleiro é preciso que alguém ajude de maneira concreta. sozinha essa moça não vai conseguir nada. nem ela nem ninguém. não se trata de sorte, nem destino, nem nada. somos responsáveis por aquilo que escolhemos, é verdade. porém, é perverso deixar alguém entregue à própria sorte. talvez a isis nem tenha coragem de pedir ajuda, quem sabe. mas se ela quiser mesmo ter outra chance, não vai conseguir isso sozinha.

cris disse...

humm. contradição à vista. eu disse: 'é perverso deixar alguém entregue à própria sorte'. melhor dizer que é perverso não ajudar alguém a refazer as suas escolhas. ou enxergar outras. bj

Esdrúxula disse...

difícil sua situação. se isso acontecesse com uma amiga minha eu iria fazer de tudo pra tirar ela dessa vida e um dia talvez ela me dissesse: "mas eu era tão feliz lá". e tudo seria em vão.

amigo da onça disse...

Tua amiga tá sabendo que vc falou de coisas tão íntimas assim num blog? :X

aline disse...

Eu não sei se ficou claro o que eu "quis dizer" - até porque eu praticamente não formulei muita "opinião" no post. Talvez seja por conta do tom lamentoso que o texto ficou, e tal. Risquei a frase até. To fazendo um mea culpa mesmo.
É que eu não acho que no centro da "discussão" está a condição de mulher casada, de dona de casa ou mesmo de mãe em situação financeira difícil. Isso não é necessarimante limitador, não é intrínseca ou necessariamente nada. Porque define pouco da "situação dela" (ou de qualquer outra mulher), pelo menos em vista da naturalidade com que a submissão sexual e reprodutiva(?) acontece. E isso me choca à medida em que crescemos juntas e eu *sei* que essa naturalidade não foi,han, "ensinada" ou incentivada em casa. Nem to analisando. Só não esperava ouvir que eu tenho *sorte* porque meu namorado não força a barra (= estabelece uma obrigação) a transar. Isso me incomoda muito. Me entristece muito. Essa violência muda e "discreta". Que, repito, nem sempre é percebida como violência ou abuso mesmo por quem a sofre. Tão perto de mim. Mas absolutamente fora do meu alcance. E eu não quereria poder interferir ou mudar nada. Depende dela e ao mesmo tempo, não depende mais. Nem depende exclusivamente dela.
Quanto a mim, o que eu posso fazer é falar com ela, pra ela, sobre ela. O que aliás já é bem difícil pra mim. Acho que dá pra perceber.


E sim, a amiga tá sabendo o que eu escrevi aqui mas não liga muito pra blog. Ninguém da cidade sequer sabe que o jusqu'ici existe, e os poucos que me conhecem e sabem do blog não a conhecem. O nome de deusa egípcia dela nem é Ísis. Esse é o pseudônimo. Na verdade ela se chama Hator ;)

dani disse...

Oi Li

Você riscou aquela frase por causa da máxima "se minha vó tivesse rodas..." ?

hehehehe

aline disse...

Pior que foi mesmo, Dani. Há :)
Nem fazia muito sentido dizer isso.

lu disse...

concordo totalmente com o comentário da simone. não é escolha, questionar certas coisas é questionar a nós mesmos. ninguém escolhe estar num casamento abusivo.
só não concordo que é "desumano" não ser amiga de qualquer pessoa que seja, porque humanos não são amigos de todos - o "assim" que eu digo é nessa situação desse casamento, claro. eu não seria amiga porque passo mal demais, mas também nunca tive uma amiga que um dia se viu nessa.
eu admiro qualidades específicas que vejo de um jeito ou de outro em todas as minhas amigas, que são mulheres fortes, impositivas, questionadoras e independentes.

é isso, depende dela, mas ao mesmo tempo não. o lance da obrigação de transar, que mulher não precisa gostar da transa e deve satisfazer o marido, está num pacote maior na situação de ela ser uma dona de casa e ter privilegiado a vida de mãe e esposa, acho. que tem certas prescrições: uma boa mãe, uma boa esposa, tem todo um script a seguir. a gente como mulher, não só na nossa educação pelos nossos pais mas o tempo todo na sociedade toda, é muito cobrada quanto a isso. é isso que eu falo quando falei em vida atrelada lá no bloguinho.

(e a frase que você riscou. eu entendi você riscar, claro, mas dava pra entender que era você falando ali. não é uma situação necessariamente ruim; outra mulher no mesmíssimo casamento podia estar confortável, ou mais confortável. mas ela não está. de algum modo, se ela acha que você tem sorte, ela também não está totalmente mergulhada nisso, entende? mas não o suficiente pra sair agora desse casamento - não digo apenas com o divórcio, mas de colocar um outro casamento, tbm)

cris disse...

acho que entendi o que você falou. e concordo [ainda nessa linha 'esclarecimentos': a historinha da minha irmã não teve a intenção de ser didática. até porque eu acho um saco essas narrativas de 'superação das dificuldades', 'oh, vejam, ele/ela é um vencedor/a'. bem piegas mesmo. foi só uma lembrança. no fundo eu acho que ela também teve sorte]. bj

aline disse...

:**

Simone disse...

Se ela estiver pintando um drama maior do que na verdade está vivendo, pode ser que quando sair diga que nem era tão ruim. pode ser que volte pra ele. acho que o problema dela é muito maior do que a situação fatídica. do que a frustração. o problema começa pelo motivo que a fez entrar nessa situação. acho que seria um 'sintoma' de um determinado lugar que ela se coloca diante da vida. seja em qual situação a gente esteja, os amigos são imprescindíveis, para nos lembrar de que somos múltiplos, nossas possibilidades vão além daquilo que está dado. só acho que não é justo deixar de ser amigo de alguém porque essa pessoa passa por uma dificuldade. um amigo pode ver esse potencial, pode acreditar na gente. bom, não foi minha mãe quem me ajudou. foi um novo amor. acho que foi sorte... amar e ser amada...

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