24.4.09

da risada do gilmar



Nem era feriado quando eu comecei a rascunhar esse post. Não costumo ficar com textos engasgados, pois logo eles me acenam, eu escrevo, publico e pronto. Costuma durar horas, quero dizer. No máximo um dia, ou dois. Este aqui existe há uma semana. Eu fico mesmo reticente em escrever sobre política. Sinto-me sempre irresponsável e tola. Falta demais o embasamento teórico, e mesmo as informações mais objetivas e recentes. Eu me mantenho a meia distância, sabe. Da política. Sei mais ou menos o que acontece, quem é quem. Vou seguindo a blogosfera, só. Sem grandes jornais, editoriais, jornalistas especializados. Nem é o que eu prefiro, mas é o que eu quero e consigo agora. Já fui bem mais interessada e tal.
Só que às vezes a política bate à porta. Arromba a porta, aliás. Na quarta-feira, por exemplo. É muito difícil pra mim não sentir nada. Porque eu ouço a risada do Gilmar Mendes e isso me dá calafrios de ânsia e raiva. Todo mundo sabe que ele é um canalha. Que é um juiz e que isso lhe dá oportunidades de enriquecer e exercer influência e conseguir coisas. Claro que eu gostei de ouvir alguém falando o diabo na cara dele, mas pensando bem, não sei se foi uma coisa boa. Porque há também um grupo de pessoas que gostaria de transformá-lo em mártir, ou perseguido. E justificar assim a mão dura dele. E em torna-lo polêmico, controverso, ousado - mas não um canalha cara de pau. E, no final das contas, dizer que ele desmoraliza o judiciário brasileiro é só meia-verdade. O Gilmar Mendes só jogou mais umas pás de cal. Na moral estrupiada que o judiciário já tinha com a gente. Aliás, o que eu acho que ele fez é dar mais visibilidade pro STF e pro alcance do poder de um juiz aqui, nestas terras. Porque vamos combinar que os três poderes parecem mais uma massaroca de cargos com altos salários e benefícios inacreditáveis. Então graças a ele a gente sabe melhor, tem um exemplo recente mesmo, do quanto um juiz pode mandar.

Minha mãe se formou em jornalismo em 79, exerceu até 86. Ela me contou que a morte do Wladimir Herzog foi *o* assunto do curso dela. Que alguns veteranos eram completamente engajados e que o clima de envolvimento e crítica ao governo era geral. E que era fácil tomar partido naquela época. Saber quem eram os good guys e quem eram os bad guys. Eu tenho essa impressão hoje. De que a ditadura fez polarizar a política e, mesmo quando ela (a ditadura) acabou, foi num clima meio conciliador. Tipos agora que os milicos foram embora, é fácil fazer a coisa certa, não vamos olhar pra trás. Tanto, que até hoje é um assunto não resolvido. Nacionalmente, quero dizer (e rende episódios lamentáveis tipo a ditabranda). Durante toda a década de 80 meus pais votaram no PSDB. Embora meu avô e todos os meus tios-avós e primos tenham trabalhado em metalúrgica e conhecido o Lula e tal. A família da minha mãe é toda da região do ABC, todos os homens trabalharam na indústria. E mesmo assim meus pais acreditaram no discurso mais intelectualizado do PSDB. Tipo o FHC, quer era mesmo um paradigma positivo de político pra eles. Daí que em 84 eles pensaram que haveria mais prosperidade, de que a política seria finalmente um exercício de racionalidade e não de força. Na virada da década de 90 eles estavam mais desconfiados, mas ainda achavam que daria. Em 2002, depois de dois mandatos do FHC, meu pai faliu. Ele era microempresário. E completamente desgostoso com a política.

A primeira vez que eu votei na vida, foi na eleição presidencial de 2002. E eu sei que os motivos que me levaram a votar no Lula eram completamente diferentes dos motivos dos meus pais e dos meus avós. Mesmo assim, as três gerações votaram juntas. Mas enfim. O que eu fiquei pensando em escrever era isso. Que hoje, com a idade que minha mãe tinha quando acabou a ditadura, minha relação com a política nacional é totalmente diferente da dela, 25 anos atrás. Sou de uma geração que cresceu ouvindo a decepção na frase "político é tudo igual". Uma parte das pessoas da geração dos meus pais acharam que havia uma última chance com o Lula. Eu nunca levei muito a sério a possibilidade de uma mudança completa. Nem de uma mobilização popular considerável. A famosa apatia. Que eu acho que vem do descolamento da vida cotidiana das instâncias políticas no geral. Porque quando eu leio que o Instituto de que o Mendes faz parte arrecadou trocentos milhões em contratos sem licitação, eu percebo que eles enriquecem, percebo que esse dinheiro nos foi tirado de alguma forma. Mas quase sempre para por aí, creio. Minha percepção do quanto essas pessoas atingem minha vida. Porque corrupção é o tipo da coisa que cansa até a gente não querer pensar ou saber mais nada. Até a gente achar que não faz mais diferença, um caso de corrupção, ou cem. E de vez em quando eu penso que, se era ilusória e nociva a sensação de discernimento entre os bons e os maus políticos, 25 anos atrás, a inabilidade em reconhecer uns e outros, agora, também é. Ilusória e nociva. Acho que uma das grandes sacadas da classe política é fazer a gente acreditar que eles não fazem nada por nós ou para nós.
O post, afinal, é sobre esse meu impasse. Em assistir à discussão e constatar que a risada do Gilmar foi o que mais mexeu comigo. Não as questões técnicas, nem o jogo de interesses, nem a rede de poder, nem desforra verbal do ministro Joaquim Barbosa. Foi antes o deboche aberto e sonoro, enquanto Barbosa falava sobre a desmoralidzação do judiciário. Eu não sei qual dos dois atos discursivos (a risada ou a bronca) é mais representativa do sentimento do povo, se povo existe. Essa risada ficou ecoando em mim como uma espécie de suspeita de que reconhecer os bons e os maus, hoje, é o de menos.


Eu não sei se marco este post com a label politique ou pessoal e intransferível. Vai nas duas, pois.

11 pessoas pararam por aqui:

Emily Laurentino disse...

Ando tão ocupada que só hoje fiquei sabendo desse episódio e acabei de ver o vídeo no youtube.
Saí doida pelos blogs q eu visito usualmente pra ver se achava algum comentário que me acalentasse do efeito que me causou essa risada.

Mesmo me preocupando com os efeitos da fala de Joaquim, não consigo deixar de me sentir representada pelo que ele disse e, por isso, mais feliz que ele tenha dito do que preocupada com a repercussão.

De resto esse comentário vale mais como um suspiro aliviado em saber que a risada não passou batida.

Até.

Anonymous disse...

Oi Aline,
...´as três gerações votaram juntas´, é a imagem mais bonita deste seu belo post. E fico pensando, dos políticos ai, que estão, e que até ontem eram engajados de alguma forma contra a ditadura!
´Uma parte das pessoas da geração dos seus pais achavam que havia uma última chance com o Lula. E o que a geração dos nossos filhos poderão esperar...?!
As ´portas´foram escancaradas. E hoje, não sabemos quem é quem!
arigatô
bjs
madoka

Paulo Vilmar disse...

Aline!
É obvio que seus pais pensavam que só quem poderia mudar alguma coisa, era quem tinha estudado e sido reconhecido por isso! Tem pessoas em minha família, que até hoje não duvidam do que leem na grande imprensa, pois acreditam na palavra impressa como verdade absoluta, mais importante que essa verdade, só se for desmentida pelo Jornal Nacional! Fomos criados assim, passamos a vida interia ouvindo que a única herança possível para nós era o estudo, etc...
Com base neste pensamento médio, os letrados fizeram(fazem) e aconteceram(acontecem), subjugando, tripudiando e sobretudo rindo dos iletrados e, entenda como iletrados todos os que não confiam cegamente na palavra impressa ou no JN!
Com Lula no poder, chegamos ao governo daquele que não é o "Salvador da Pátria", mas que honestamente erra e acerta, o governante que é humano, que chora, que ri, que se emociona, que equivoca-se, que bebe e que não tem verdades prontas...
O medo que tenho do sorriso do Gilmar é que ele é de escárnio, de desdém, ameaçador! Como se dissesse vocÊs não perdem por esperar.
Beijos!

aline disse...

Emily, suspiramos juntas, então. A risada foi repugnante. Beijos.

Madoka, eu fiquei muito emocionada, na época, em ir votar com meus pais e avós no Lula. Todo mundo assistiu a posse dele em casa, juntos tbm. Foi algo, sabe?! Eu acho que o Brasil do Lula é o melhor Brasil até agora, aliás. Sayonara, querida.

Paulo, eu tbm entendo essa crença deles na intelectualidade. Até hoje, essa ideia persiste e reforça o preconceito contra o Lula e tal. Nem recrimino isso neles, especificamente. Eu acho sintomático, aliás. Que o país tenha escolhido esse caminho, e não radicalizado e eleito o Lula, já naquela época. Vejo nisso um complexo que nós temos, do estigma de ignorantes. Machado e Guimarães escreveram demais sobre essa confiança cega no letrado.

Eu nem tenho medo da risada dele. Tenho nojo mesmo. E muita raiva.

Beijos, Paulo.

Kelly disse...

Aline, engraçado. Eu também tinha ficado bem incomodada com aquela risadinha de deboche. Também para mim ela se sobrepôs a todo o resto da celeuma. Como se não bastassem os problemas, ainda há o descaso e o cinismo.

Eric disse...

Bah, tu escreve de um jeito tão bonito. É tão sincero, sei lá. Fiquei até chocado de conseguir me impressionar com isso, que coisa.

Vim pelo link do Idelber, e vou ser obrigado a acompanhar o teu blog a partir de agora.

Paulo Cunha disse...

Vim por um comentário seu sobre Susan Boyle no blogue do Sergio Leo e topei com esse maravilhoso post.

É verdade, não temos mais Arena e MDB para rotularmos rapidamente um e outro. Temos que contar com esses momentos em que a verdade escapa em uma risada. E sempre, sempre contar com o que se faz, não com o que se diz.

Não sei se estamos piores que antes. Certamente temos de ser menos inocentes.

aline disse...

Kelly, eu tenha certeza que a risada causou espécie em muita gente. Porque escancara demais quem é quem naquela discussão. É um ato discursivo em si. Me marcou demais mesmo.

Eric, puxa, obrigada. Seja bem-vindo, fique a vontade etc :)

Paulo, vc tbm, seja bem vindo. Vc mencionou duas coisas que passaram pela minha cabeça mas eu não escrevi: da divergência entre discurso e ato. A política é o campo discursivo quase que por excelência. E embora a maioria se aproxime de clichês, e use os mesmos jargões nas campanhas e declarações mídia afora, é nisso que a gente se prende. Com atenção, dá pra notar as nuances, quando há.
E também acho que a inocência existe, em certa medida. Mas eu receio usar essa palavra porque ela pode levar àquele pensamento conformista de "é o povo que escolhe errado", sabe? Pq eu acho que não é por aí.

Maurício Caleiro disse...

Post maravilhoso em todos os sentidos: político, pessoal e... coletivo (já que tanto a morte de Herzog quanto a malfadada presidência de Mendes no STF pertence à história de todos nós). Além de a qualidade do texto ser excelente. Mas o que atraiu ao post foi saber que alguém notou o detalhe (porém nada insignificante) da risada - cheia de desprezo, desafiante, "não-tô-nem-aí" - do tal. Em tudo o que li e no pouco que escrevi, nenhuma linha sobre o gesto. Parabéns. Afinal, o tempo não para e quem ri por último ri melhor.

josue mendonca disse...

adorei o post
é aquele sensação de se realizar através do post dos outros..
aquela risada realmente é típica de nossa elite cínica
gostei da nova cara do blog..
tudo aqui tá muito bom mesmo!

aline disse...

Mauricio e Josue.. muito gradecida! :)

Como eu disse, acho que um monte de gente se sentiu constrangido ou irritado com a risada dele. A essas alturas, gostaria muito que ele nao fosse transformado em ilustre figura nacional. Se depender do pessoal da blogosfera, não acontece (ufa, mil vezes ufa!)

Abs.

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