16.4.09

de cada coisa que a gente tem que ouvir nessa vida, viu?!

Tem essa de eu não prestar atenção sempre às caixas de comentários alheias. É um desperdício, fiquem sabendo. Em uma porção de blogs, é na caixa de comentários que estão as discussões mais interessantes, ou as frases mais notáveis.
O causo da vez aconteceu com a Camila, quando lamentou no RRE seu I-Pod perdido e falou sobre as músicas que nele estavam. Eis que surge um rapaz, bem-intencionado é verdade, mas um tanto equivocado na arte da lisonja. E comenta. E fecha seu comentário assim, como mostram as letras em negrito [grifo meu]:
Oi, Camila. Espero que não precise perder um ipod novamente para nos distribuir tantas e tão simpáticas dicas. O meu ipod foi um companheiro de viagem maravilhoso, durante uma travessia da Itália e dos Bálcãs que fiz anos atrás. 50% do prazer da viagem esteve nas imagens, tomadas das janelas dos trens e das caminhadas, fundidas a sons tão especiais para mim quanto esses para os seus. Desejo que tenha ainda muitas paisagens sonoras nessa vida. E nunca vi uma mulher escrever sobre música assim como você. Beijos.

Não se apressem em criticar o machismo que escapole. Eu mesma estou com bastante preguiça. De discorrer sobre o velho "pra uma mulher você até que X muito bem", sendo x qualquer coisa que julguem difícil, interessante ou simplesmente fora do universo feminino casa-corpo-sentimentalidades. Mas Camila é fina, respondeu a contento. Pontuando didaticamente o preconceito do rapaz:

Bom, eu não podia deixar passar a última parte do seu comentário. Eu adoraria dar uma respostinha espirituosa (lu? aline? mary w? alguém?), mas infelizmente me falta a verve. Então só vou dizer que esqueceram de me avisar que o sexo da pessoa tinha alguma coisa a ver com a sua capacidade de falar, ouvir, tocar, pensar música. De resto, fico feliz que tenha gostado das dicas. Um abraço.

Bem. Não que eu goste desse tipo de coisa, Camila, mas posso sugerir, sei lá, umas duas ou quinze respostinhas espirituosas pra esse gentilhomme. Vejamos. Retomando o comentário do fim, temos que:

E nunca vi uma mulher escrever sobre música assim como você. Beijos.

Para o que seguem as possíveis soluções:


a. Pois é, fui alfabetizada super cedo. Beijos.

b. Pois é, eu troquei o curso de corte e costura por um de teoria musical. Beijos.

c. Na verdade eu sou inspirada por uma musa. Aliás, um muso. Beeeeeijo.

d. Você devia conhecer as meninas da SASMAEM: Sociedade Anônima e Secreta das Mulheres que Amam e Escrevem sobre Música. Ah, oh, não, você não pode. É secreta e anônima. Beijo.

e. Oh puxa. É fácil. Na verdade eu copio tudo de uns blogs que encontro por aí. :***

f. Oh puxa. É fácil. Eu sei de tudo isso desde os 9 anos. Sou gênio musical internacionalmente reconhecida. Vai dizer que nunca ouviu falar do meu nome, também? Oh!Pffff

g. Disseram a mesma coisa do Jimi Hendrix antes dele mudar de sexo... beijinho!

h. E você ainda não me viu falar de mecânica quântica, baby. Beijomeliga ;)

i. Eu treino todo dia, escrevendo sobre música na frente do espelho há anos. Um beijo.

j. Noel Rosa disse a mesma coisa quando de sua primeira aula dele comigo. Beijos, garoto.

k. É que eu tomei biotônico fontoura na infância. Bjão.

l. Nem me fale. Fui discriminada a vida inteirinha pelas minhas amigas. Elas queriam brincar de boneca e eu insistia em montar uma banda. :,(

m. Obrigada por esta observação gentil. Eu passei pelo tratamento Ludovico durante a adolescência, ocasião em que fui submetida à apreciação de todo tipo de música. É uma experiência que transforma a gente. Cordialmente me despeço, droog.

n. Então... sou um corpo feminino com alma masculina, meu chapa. Falou aí.

o. Então... não sou mulher, sou andróide. Mas shhhhhiiiu. Saudações.


As possibilidades são infinitas, veja você. A caixa de comments aqui tá aberta, aliás, ávida por mais.

8 pessoas pararam por aqui:

lu disse...

hahaha, eu na aula pensava que você devia muito fazer um post, e chego e eis que aqui está! é genial demais pra ficar só entre emails, seria uma pena privar o povo dessa.
"Eu treino todo dia, escrevendo sobre música na frente do espelho há anos" - essa me distraiu e quase me fez ter um ataque de riso bem no meio da aula, hahahaha. tá uma melhor que a outra!

aline disse...

Oi Helion

Eu li sua resposta duas vezes, com o cuidado que você parece ter tido ao escreve-la. E, apenas por conta dessa minha impressão, também eu vou me estender um pouco para comentar, ainda que a conversa se dê mais diretamente entre você e a Camila. Isso porque minhas últimas tentativas de debate acerca de machismo e preconceito, aqui, foram desastrosas e desgastantes demais. Mas eu to achando que vc veio com outro espírito mesmo, então ok, vamos lá.

O principal, pra mim, é demarcar que não, não creio absolutamente que as mulheres no geral tenham algum tipo de sensibilidade diferente (nem melhor, nem pior, como você disse) do que os homens. Não existe essa unidade feminina. Em relação a nada, nem quanto à recepção de uma obra de arte, quanto à produção, quanto à decisões objetivas na vida real: nada. E no entanto é algo bastante disseminado, essa ideia de que nós somos mais inclinadas a pensar e sentir o mundo de uma maneira específica. Essa especificidade, aliás, costuma compor a gama de características que formam um padrão de comportamento, e mesmo um modelo de subjetividade que abarca mais ou menos todas as mulheres, por mais diferentes que nós sejamos uma da outra (porque, claro, somos). E não existe nada parecido com a alma masculina. Essa delimitação.

Acho que a pergunta da Camila vai nesse sentido. Não é uma preocupação com o juizo qualitativo da escrita dela a respeito de algo - como se uma mulher só pudesse escrever pior do que um homem sobre música ou o que quer que seja. O problema é ler o que a Camila escreve e dizer que o jeito dela escrever é raro ***em uma mulher***. Ou ver Marta jogar futebol e dizer que ela joga como homem. Percebe? É a pressuposição de que a escrita feminina, assim como a sensibilidade ou a maneira de raciocinar ou movimentar o corpo estivesse bastante atrelada a um padrão intrinsecamente. Que há um padrão determinado pelo fator "gênero". E isso é muito redutor.

E, desse modo, sim, sua frase é um desdobramento do "até que pra uma mulher vc X muito bem". Porque o estilo masculino de falar de música, jogar futebol, escrever poesia, compor melodias costuma ser a norma, o standart. E não "arte masculina", "sensibilidade masculina" (essa expressão, aliás, soa contraditória na nossa cultura). Enquanto a produção feminina vem com essa etiquetinha antipática. Eu sei que essa frase que eu escrevi não está no seu texto explicitamente. E acredito que não estivesse num subtexto intencionalmente. Mas foi isso mesmo que eu li. E, citando o Alex Castro, quem sabe da ofensa é o ofendido. A pressuposição de uma alma feminina me agride.

Da última vez que eu disse algo parecido pra alguém, aqui, foi um furdunço. Acredite, não é minha intenção ofender você, mas colocar às claras a ironia do meu post: achei o comentário machista. Infeliz mesmo. Merecedor de respostinha espirituosa que provoque o estranhamento. Que escancare o amontoado de pressupostos necessários pra gente naturalizar um comentário feito assim, de passagem. E que no entanto saltou aos olhos.

Eu acho meio chato linkar um texto meu pra dizer uma coisa que eu já estou tentando dizer aqui, in loco. Mas desconfio da minha capacidade de articulação a esta hora e com o sono que eu tô. E sei que eu fui mais cuidadosa na hora de escrever os posts que quero indicar, caso você esteja interessado em saber porque seu comentário é ofensivo. Pra mim, claro. São, na verdade, dois. Complementares um e outro.

1 - http://ateaquitudobem.blogspot.com/2008/11/escrita-feminina-o-caramba.html

2 - http://ateaquitudobem.blogspot.com/2008/11/escrita-feminina-ainda-e-alm.html

Um abraço, Helion. E boa noite.

helion disse...

Aline, li os dois posts anteriores que me recomendou. E o debate que geraram. Percebo que entrei, sem me dar conta, num debate acadêmico consolidado e marcado por posições bem demarcadas. Eu não teria a capacidade, nem a vontade, de travar esse debate com a mínima competência.

Observe por favor que a minha fala não foi, e não é, a de um especialista a respeito. Nem a de um blogueiro que faz uso desse espaço para marcar e defender suas posições num debate. Eu apenas leio blogs e, muito de vez em quando, solto algum comentário despretensioso. É aí que entra a frase, dentro do meu comentário no blog da Camila.

Há um dizer que não classifica, que não julga, nem profere juízos definitivos, e esse dizer é o de quem não pretende que suas impressões pessoais sejam a régua, ou regra, para medir o mundo. Elas são um guia para mim mesmo, para os meus próprios percursos. Porque a minha impressão pessoal - “mulheres e homens não parecem sentir, praticar e escrever a música da mesma forma” – não quer pautar ninguém e nem concluir quanto ao lugar que homens e mulheres DEVEM ocupar na sociedade e na cultura. É uma fala que não se quer normatizadora, e que se permite ser impressionista, relaxada, condizente com o que (pensava eu) seria o espaço de comentários de um blog com um tom informal, de conversa.

Você diz, com muita clareza, “não crer absolutamente que as mulheres no geral tenham algum tipo de sensibilidade diferente”. E que a simples percepção dessa diferença, por alguém, lhe soa “ofensiva”. Certamente você está alicerçada em convicções bastante sólidas. Não creio que eu poderia, nem deveria, levantar algum tipo de objeção, ou relativizar segundo a minha experiência particular.

Um abraço para você, Aline. E agradeço a resposta atenciosa.

aline disse...

Helion

Você se engana se acha que esse é um debate acadêmico. Está num blog simples como este aqui. Então é também material de conversa informal.

Está claro que sua intenção não foi ofender a Cami em particular muito menos as mulheres no geral. Mas não são (apenas) as opiniões fortemente embasadas e apresentadas que dimensionam o machismo no mundo, também as frases mais banais e cotidianas, os comentários fortuitos e distraídos apontam pra uma série de preconceitos. Que estão tão enraizados que a maioria nem percebe. Momento, aliás, em que eles se tornam mais nocivos, porque de tão sutis, tornam-se difíceis de identificar e descontruir.

A questão não é fazer da sua perspectiva uma régua para o mundo. Acho que ninguém pretende isso.

Abraço, Helion

Sabina disse...

rsrsrsrsrs

eu tambem adorei as respostinhas espirituosas!!! principalmente a b, g, i.... pena que nao consegui pensar em nenhuma.

o pior é que alem de falar uma coisa muito machista, o cara ainda vem com uma de "mal entendido". que pentelhação heim.


bjos e parabens pelo blog!!

aline disse...

obrigada sabina!

tbm nao curto a escapada pelo mal entendido. mas enfim, cada um com o seu cada um!! :)

se tiver mais respostinhas, vamos lá, diz aí. eu coleciono ironias em portinhos aqui em casa. hhahaha

bjos

Flávia disse...

hahahhahahhahhha -
ótemo!!

gostei das respostinhas!!!

aline disse...

\o/

(que legal vc por aqui :)

Postar um comentário

Diga lá.