9.4.09

do Condomínio Rocinha

A secretária estadual do Ambiente do Rio, Marilene Ramos, afirma que o plano de cercar 11 favelas na capital a fim de, oficialmente, proteger a mata deixará os moradores desses locais nas mesmas condições daqueles que vivem num condomínio. (...) Os muros são para a redução da área das favelas, não são só para impedir que cresçam. Além do muro de concreto, vamos fazer um "virtual": um sistema de monitoramento com imagens de satélite para fiscalizar áreas muradas ou não. (Veio daqui. Grifos meus)

Quando o Kassab resolveu tirar os outdoors das ruas paulistanas, a maiora das pessoas que eu conheço comemoraram o feito como se fosse a vitória derradeira do público sobre o privado. Ganharam os cidadãos, que teriam seus olhos livres do assédio das grandes marcas e empresas de publicidade. Kassab também empreendeu a higienização do centro da cidade, expulsando moradores de rua - crianças, inclusive - a cacetetes e pontapés. Kassab, nós bem sabemos, foi (re)eleito ano passado. Sinto que o Cidade Limpa (o projeto dos outdoors, mas os nomes desses programas criam todo um conceito de política, tipo o "saudoso" Tolerância Zero) tem grande participação nisso. Simbolizou a força do prefeito e dos interesses públicos, que por sua vez simula uma força coletiva, popular. Porque, sim, nessas horas os paulistanos gostam de ser povo. No entanto, o que determinará nossa identidade, décadas adiante, é antes aquela higienização muda que Gilberto cometeu. Suponho.
Mesma coisa com esse projeto carioca de por muro em volta das favelas sob pretexto de preservar o meio ambiente. Já é discriminatório o bastante. Tem um monte de sociólogo, ambientalista criticando. O escracho fica por conta da comparação da secretária responsável pelo projeto. Joga o bacalhau. Faz favor, minha senhora. Não compara favela murada com condomínio, não. Porque, olha só, ambas são indissociadas do que a gente considera espaço público. Mas acaba aí a, digamos, semelhança. Construir condomínio é um jeito de disfarçar o apartheid na necessidade de privacidade e segurança. O condomínio proíbe a entrada da cidade. Não deixa a diversidade racial, econômica, cultural entrar. É um espaço puro e pré-higienizado. Favela murada é o contrário. É um jeito de fazer a favela não tocar na cidade de jeito nenhum. Pra não enfeiar, não ameaçar. Estagná-la sem, com isso, resolver a questã da moradia urbana ou da violência ou da desigualdade econômica. Imagino os livros de história daqui a um tempo. A trajetória das cidades. Século XIX. Ex-escravos aglomerando-se na periferia. Século XX. As periferias aumentam, violência urbana, blá. Século XXI. Tecnologias e biopolíticas aplicadas na contenção da periferia. Acho que daqui um tempo vai estar nítido como aconteceu. Essa derivação imprópria no conceito de periferia. De espaço de moradia de gente pobre a pobreza elle-même. E sendo cercada, monitorada, reduzida, sufocada. Por causa de uma metonímia.

E a preocupação ambiental, que não havia de nos faltar. Mais relativizada, impossível. Vários condomínios são construídos dentro de reservas graças a lobbys de imobiliárias e construtoras. E a especulação imobiliária tenta a todo custo emplacar obras pras classes altas antes que o espaço favelize. Me acabo de rir com a ironia. Em morro e mato, você só mora se for muito rico ou muito pobre. Ousadia é fingir que praticamente dá na mesma.

7 pessoas pararam por aqui:

Erika disse...

Primeiro constroem-se os muros, colocam camêras (algumas vilas e favelas em bh já possuem), cães de guarda nas entradas, depois vão fazer o que mais? Etiquetar as pessoas, tatuar números nas mãos, fazer com que usem símbolos que os identifiquem como pobres? isso tanto me lembra varsóvia, campos de concentração, apartheid, será que os livros de história só servem de enfeite?

Erika disse...

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na Segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Eduardo Alves da Costad

aline disse...

Pois é. Mas faz parte do cenário urbano. E são coisas que a gente não vê, a gente fica sabendo que acontece. Relatos e testemunhos que não conseguem engendrar uma resistência. Acho que isso é um xeque-mate.

Victor disse...

Eu acho engraçado como a Secretária tenta racionalizar a coisa toda, no sentido psicanalítico, mesmo. O motivo que leva ao cercamento das favelas é o que você explicitou no texto: disfarçar "a pobreza" -- que na verdade, você falou, são os pobres, pessoas, sujeitos (até a que ponto é de se discutir), e não uma abstração de o que é a falta de dinheiro, desigualdade e má distribuição de renda; e como se o problema da pobreza, longe dos olhos dos que não são pobres, fosse resolvido --, controlar a favela para que ela não ameace, tirá-la da frente de nossos olhos para que não enfeie. Mas a Secretária é um prato cheio para qualquer psicanalista quando ignora todas as obviedades do projeto que ela tenta emplacar e tenta racionalizar o negócio: é para proteger a mata (!); aumentar a qualidade de vida dos moradores (!! de que forma, cara pálida?); proteger os que já moram lá. E ainda diz que o muro "sinaliza à comunidade que o limite é ali". Limite que, na explicação rasa dela, é apenas limite geográfico, mas que todo mundo reconhece ser um limite demográfico, da sociedade que eles próprios representam. Só faltou dizer "é o fim de vocês, pobretada". Que foi o que ela quis dizer durante toda a entrevista.

Estou indignado, de verdade. Nem sabia do projeto. Consigo até acreditar que algum infeliz tenha tido essa ideia, mas não consigo aceitar que tenha passado pelo aval de tantas pessoas para passar à realização.

aline disse...

Ou ela é muito cara de pau ou muito sem noção. A justificativa é rasa, como sempre são as justificativas pra atos assim. Não há como ser mais profundo porque a gente sabe qual é o motivador. Que é o contentamento de outra classe.
Na entrevista o repóter perguntou na lata: porqeu 3 metros de muro? E ela disse que o muro sempre tem 3 metros e é natural. Natural, meodeos, natural.

Paulo Cunha disse...

Uau. Excelente análise.

aline disse...

\o/

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