15.4.09

do monstro

É uma das coisas nas quais eu gosto muito de pensar e gastar tempo. Essas nossas mitologias. Que passam batido como cultura pop bem debaixo do nariz de um monte de gente. Ópera é total haute culture, mas um vendedor de celular no Idol cantando ópera é super pop. Mas então. Eu quase escrevi no outro post que a trajetória do Potts e da Boyle segue um modelo de narrativa heróica. Porém é uma bobagem. Eles certamente são prodigiosos, mas não são heróis. O herói já nasce herói e absoluto, ele tem é que proteger todas as outras pessoas do mal, seja lá o que mal signifique em cada estória. O herói desempenha uma função conservadora da sociedade, na medida em que ele tem que manter a tranquilidade do universo. Mesmo que o universo seja uma cidade, uma vila, uma rua. Ele está lá pra que nada abale as pessoas. A contrapartida do herói é o vilão. A sacada do Coringa no último filme éssa aliás, que o vilão não existe sem o herói e vice-versa.
Eu fiquei tentando achar uma imagem boa o bastante pra descrever que tipo de personagem é essa que esses dois desempenham. O corcunda de Notre Dame é o maior e melhor exemplo. Mas também ele é apenas uma versão. Do que eu vou chamar de monstro aqui. Não quero que com essa palavra venham todos os possíveis significados, do senso comum à filosofia moderna. Estou pensado em uma definição específica do Michel Tournier, que ele usa em uma personagem sua: o monstro é aquele que se mostra, para quem os dedos apontam e exigem evidência. O monstro é fisicamente estranho, incômodo, engraçado, feio e, por isso, alvo de escárnio, de rejeição e finalmente, de desprezo. Como eu disse, o Corcunda de Notre Dame ilustra bem a situação. A moralidade, o caráter, os sentimentos e habilidaes dessa figura grotesca não entram na ocasião de sua definição. Só é monstro porque as pessoas fazem dele o que elas veem, e se o que veem é desagradável, a definição fica como está. A superficialidade é necessária pra que a estória dele aconteça.
A trajetória do monstro existe apenas na medida que ele consegue superar a própria condição. Que não se dá no eixo Bem x Mal. Esse é o campo do heroismo. Diferente do herói, o monstro tem que proteger a si mesmo. E o faz de duas maneiras: fugindo do escárnio e mantendo-se recluso. E assim, não há narrativa. Ou expondo a si mesmo e sua qualidade prodigiosa, alcançando desta maneira a consagração. É essa passagem de criatura risível a admirável que emociona tanto. E que dimensiona a ironia da situação. O monstro se baliza numa gangorra de expectativas. Vai do nada ao tudo. Fica fácil perceber o esquema nos desenhos animados e notar a mensagem que se sobreescreve: acreditar em si mesmo, não desistir, não acreditar nas aparências. Ainda assim, a cada vez que um monstro acena, imediatamente a gente se coloca na multidão.
Entendo que é mais ou menos por aí que um Paul Potts ou uma Susan Boyle caminham pra fazer a gente se emocionar assim, no meio de uma tarde ordinária. Porque a trajetória deles é arrebatadora. Não estou falando das pessoas que eles são, porque isso não nos é dado conhecer. Estou falando daquilo que eles encenam quando vão num programa de calouros desse porte. Eles expõe uma figura que causa estranhamento, que coloca as expectativas lá em baixo, ainda que todas as pessoas saibam que a capacidade de cantar não tem nada a ver com a beleza física, então o julgamento não deveria vir atrelado. E contudo, vem. Depois de tantos filmes, tantas cantigas e provérbios, a gente ainda deixa a expectativa cair no pé quando um desajeitado entra no palco e timidamente diz que vai cantar uma música grandiosa. Não cabe sequer uma crítica pessoal ao sistema ou aos padrões de beleza que sufocam as pessoas e blá. Se a simples aparição do Paul ou da Susan não mexem em nada com suas expectativas é porque você não se interessa pela trajetória que eles prometem. Provavelmente, nem aperta o play. Não é interessante e ponto. Fica quem aceita a função. De multidão. E aí você estranha , aponta e ri junto da platéia. Mas se espanta, se emociona e se converte com ela. E se torna um narrador da passagem do monstro: ninguém dava nada por ela, mas ela mostrou que tem uma voz incrível e todos ficaram chocados. É assim, com o monstro. Do nada ao tudo. Do desprezo à consagração. Por isso é tão dramático. E tão irresistível. É uma mitologia nossa, essa. A gente simplesmente ama esse tipo de estória.

Agora, o que não pode é confundir. Um palco com uma calçada. Acaso um deles cantasse miseravelmente, mereceria tantas risadas quanto qualquer beldade desafinada. O importante é lembrar que esse monstro de que eu to falando é uma figura, um elemento narrativo. É algo que esses dois, por exemplo, se tornaram no momento em que pisaram no palco. Eles entraram lá sabendo que se consagrariam. E, se cantassem mal e ainda assim se submetessem voluntariamente à apreciação e julgamento do público e dos jurados, estariam encenando uma comédia. Que é um gênero que também existe, funciona, lava a alma. Mas não causa, nem de longe, a comoção necessária para provocar mais de 2 milhões de acessos em dois dias, internet adentro, mundo afora.

13 pessoas pararam por aqui:

lu disse...

ficou perfeito, tá claríssimo o post. que alívio que você falou isso tudo, porque eu morro de preguiça dessa confusão que vitimiza as pessoas mas não tenho a menor capacidade de explicar tudo tão claramente. só não entende quem não quer!
;) beijo!

aline disse...

Ah, brigada!
Foi bom eu ter conversado contigo pq nem tinha me ocorrido essa dimensão "protetora dos feinhos, coitados". E ia parecer mesmo, que pra mim o feio é um monstro e merece ser apontado pra ver se ele se esconde ou pelo menos mostra alguma coisa de bom. E não é o caso. Um programa de calouros deve ser visto e entendido com um conjunto de ferramentas cognitivas. Um jornal, com outras ferramentas. Uma campanha publicitária, com outras. Uma conversa de bar, com outras. Um linchamento, com outras.
É complicado porque a piadinha tem uma semente ridicularizante. Mas não necessariamente vitimizadora. Se a gente achar que todo riso tem uma única fonte, motivação e alcance, ferrou a capacidade de fazer humor nesse mundo. E aí eu vou querer descer na hora.

bjo

Luís Mendes disse...

ótimos os textos sobre a questão da aparência e toda a sorte de surpresas que ela pode desencadear, ou não. Então é melhor que se espere nada de ninguém ou tudo de qualquer um? Bem, pergunta complicada, melhor não esperar nada dela. A questão é que os textos empurraram-nos para dentro de nós próprios e nos fazem caminhar à procura de identificações com essas figuras que vivem no meio da multidão; tentar descobrir se todos nascem para serem sempre ou hérois ou monstros...a verdade é que o fenômeno da multidão mutila a riqueza de cada um diante do outro, e um olhar acurado sobre cada um nunca foi tão necessário em tempos de pessoas que aparecem aos potes e de maneira tão efêmera.
Ah, foi uma honra ver o link para meu blog em sua lista "e tem aquele..."

até mais ver

aline disse...

oi Luis. A honra é minha. Gosto bastante do seu blog. :)

Eu acho que a expectativa é uma merda. Ruim pra quem sente, que acaba se decepcionando mais fácil, ruim pra quem é alvo, que acaba sendo cobrado. Mas não significa que eu não seja interessada, por exemplo, no que as pessoas são capazes de fazer - sobretudo comigo. Adoro qdo alguém me emociona, me desafia, me cativa, etc.
Agora, o monstro, o herói, o vilão são construções. POr isso a gente não é nenhum deles. Ou todos. E por isso a multidão tem que ser tão maciça e simples: porque diante das individualidades, o monstro desaparece também. E aí a narrativa dissolve. Quando digo narrativa é no sentido puro mesmo: é um modelo de estória que a gente adora, conta em várias versões, com temas e cenários diferentes, mas no fundo é a mesma coisa. E a gente, como gosta e conta, só pode ser multidão, porque só a multidão pode contar essa história. O monstro não pode.

Um abraço!

Sarai disse...

Sabe do que eu lembrei enquanto lia seu coment?De algo que Clarice Lispector falou em sua última entrevista e que realmente me FASCINA nela.Ela falava de um intelectual que não tinha
entendido NADA do paixão segundo HG e que uma adolescente que a visitou sem nenhuma bagagem
intelectual se identificou de tal forma com aquele livro que fez uma interpretação bastante pessoal fantástica,estava feliz pq se
identificava e por ter visto o retrato de si mesmo naquelas palavras.O que aquele intelectual não entendia é que ele não tinha
que interpretar o que Clarice queria dizer qdo escrevia, porque tinha total liberdade de
interpretar como quisesse.(mas todo o conhecimento que ele tinha ao invés de liberta-lo,o aprisionou)Ela me fez entender
que não importa o que o autor quer dizer num romance pq na relação escritor-leitor há uma liberdade de interpretação que é pessoal
segundo as experiências de cada um.
Pra mim,essa percepção da leitura tanto de um livro como de qualquer outra arte foi libertadora.
*
Realmente,há uma gama de sentidos subliminares naquele meu post,a começar pelo título que remete a uma música muito calma c/ uma letra muito doce que estava no meu orkut.Aliás,em um post só eu despejei as frustrações pessoais sobre 5 pessoas do meu convívio dos quais,de fato,já tinha estabelecido alguma confiança. Talvez,se alguma dessas 5 pessoas tivessem lido é possível que em algum momento se identificassem, mas nenhum deles é,de fato, você.Desculpa te decepcionar.
Mas é pq eu estou trabalhando em um projeto de vida onde tenho sonhos,ou melhor,metas a realizar e ficar batendo boca por coisas
pequenas não faz parte dos meus planos.
*
Eu deixei de comentar aqui justamente pra evitar essas coisas.Quando 1 não quer, 2 não
brigam(ou em outra versão -quando 1 não quer,o outro enche o saco).Acontece que mesmo calada
vc replica qualquer coisa pra provocar uma resposta.O que me faz pensar que vc está projetando em mim,aquilo que vc mesma está
fazendo.Na psicologia isso se chama reflexo - projetar nos outros o pior de si mesmo.
*
Se é essa a sua preocupação,eu li a replica ao último coment que deixei aqui,não respondi de
propósito.Não se preocupe em ser
conciliadora,pq eu mesma sou conhecida por essa característica, não preciso que ninguém faça por
mim.Em nenhum momento te considerei uma ameaça ao meu equilíbrio.Derrubar de que?ameaça de que?Nos meus planos?na minha vida pessoal?Se vc achou que o meu desabafo foi uma tentativa de ofensa,não passou nem perto
do meu conceito de ferir alguém.Acredite,sei fazer como ninguém,e qdo faço costumo ser bem direta.Acontece que na maioria das vezes eu PREFIRO não fazer.Até te apresentaria alguém que já experimentou uma ofensa vindo de mim,uma testemunha de cmo fiz ela se sentir.
*
Não sei pq vc se incomoda tanto,nem quero saber.mas eu vou deixar lá a pataquada que vc
escreveu no meu blog,só pra lembrar algum dia que alguém implicava comigo pra provocar uma
discussão mas só conseguiu(e por incrível que pareça por méritos próprios)a minha indiferença.
*
No mais,como vc quis dividir comigo sua interpretação do que escrevi,só quis retribuir mesmo.
*
A todos os seus leitores e ao Paulo,as minhas desculpas. Isso,realmente seria desnecessário se as pessoas não implorarem tanto por uma resposta.

aline disse...

Acho lamentável esse seu tom de ameaça e a infantilidade. Sob o pretexto de apenas responder. Serio, Sara. E acho engraçado vc usar "psicologia" pra me, han, "interpretar" sem lembrar que essa é uma via de mão dupla.
É muito, muito, muito nítida a trajetória dessa discussão. Como começou, e porque. Quem se decepcionou com quem. Quem se sentiu ofendida e saiu chutando a porta. Você não tem, nem nunca teve, como me decepcionar, me machucar, me tocar. Absolutamente.


No que toca o Paulo, as desculpas estão recusadas. Por tudo, cada palavra ofensiva, preconceituosa e moralista que você despejou aqui. E foram muitas. Não está desculpada de jeito nenhum.

Agora, tchau.

Erika disse...

Nossa, adorei o post!

Vc jogou luz sobre uma coisa que eu nunca tinha parado pra pensar. Essa coisa do Monstro. Isso de jogar as expectativas lá embaixo e depois se ver surpreendido, ficar de boca aberta e tal. Muito bom mesmo esse post, adorei!

Beijo!

aline disse...

Que legal q vc gostou. :)
Adoro prestar atenção nessas coisas. Porque a gente se envolve com o modelo de estória, mais até do que com os personagens delas. Essa dimensão de fábula na vida real me fascina demais.

Beijo.

Thanatos disse...

muito boa percepção!

nunca tinha ouvido falar neste arquétipo de monstro, mas faz bastante sentido. Faz parte do ser humano então, ter essa identidade de multidão frente àquele que joga as expectativas de um extremo a outro.

e mesmo sem a expectativa jogada lá em baixo, ela ainda canta pacas

aline disse...

"Faz parte do ser humano então, ter essa identidade de multidão frente àquele que joga as expectativas de um extremo a outro."

Bem, sim, faz parte do ser humano na medida que é uma reação humana, ou seja, tudo o que nós fazemos e sentimos faz parte de nós.

Agora, não sei se é uma coisa, digamos, inata nossa (foi isso que vc quis dizer? algo como próprio da nossa "natureza"?) Porque as mitologias são todas transmitidas. Então essa nossa emotividade, nossa reação e nossa participação nesse jogo de expectativas é algo que nós aprendemos a sentir e fazer. Entende? Há uma gama de estórias fundamentais, de estruturas narrativas e arquétipos que nos comovem, que tem algo a nos ensinar. Isso é mitologia. E é construído e ensinado. Então, nesse sentido, a reação das pessoas é algo que faz parte da nossa cultura e só aí, com a intermédiação, é que se torna algo que nós somos.
Ficou meio confuso, né?
hahahahhahhahahahhahaha

Bjo

aline disse...

Ah. E, sim, ela canta bem independente de qualquer coisa. Adorei a música que ela escolheu, ficou linda e etc.

Mas esse talento indiscutível é só a matéria prima da estória. Precisa de toda essa estrutura narrativa pra dar a esse talento a dimensão necessária. Aliás, tanto ela quanto o Paul Potts escolheram músicas cujas letras falam de consagração, de suspensão do ordinário, de passagem entre o escuro, ou a vida infernal à glória. Não escolheram músicas que falam de amor porque essa fala não lhes representa, não diz nada sobre eles. E com certeza absoluta isso mexe ainda mais com a gente e reforça ainda mais a trajetória que eles querem traçar no programa.

Paulo Cunha disse...

Oi Aline,

Desculpe a demora para vir ler seu post. Engraçado, quando descobri seu blog passei batido pela imagem do corcunda da Disney e fui parar lá embaixo no muro em volta dos morros do Rio...

Deve ser porque eu não conhecia essa noção do monstro do Michel Tournier, nem do Michel Tournier. Mas eu estava olhando o caso da Susan Boyle com um olhar parecido com o seu. Lembrou-me as estruturas do conto clássico, à lá Vladimir Propp. O herói que realiza o feito heróico e é recompensado. Quem fez a edição da apresentação dela que está no YouTube certamente leu Patinho Feio :)

Enfim, a discussão aqui também foi legal, e eu gostei particularmente a sua reincidente martelada na construção do mito. É sempre bom lembrarmos que essas coisas tão profundas e 'universais' não são nada naturais.

aline disse...

Não por isso, ele tá aqui e por aqui vai ficar, uai.

Agora que deram uma 'repaginada' na Susan, eu tbm achei que de monstro ela passou a patinho feio que já virou cisne. Eu não tendo a defender nem criticar uma trajetória ou outra, porque enfim, não é minha praia fazer isso. São estruturas narrativas, bem como vc mencionou o Propp. Eu gosto é de notar essas estruturas em acontecimentos recentíssimos, acontecendo no mundo mesmo - e não só nos livros.
Eu não vejo na Susan Boyle uma resistência à chamada ditadura dos padrões de beleza e etc... Acho que a beleza ociedental e a história da Susan Boyle só se esbarram, mas uma não causa muito impacto sobre a outra.

Um abraço!!!

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