26.4.09

do muro



Falemos sobre o muro. Sim, aquela estrutura de tijolos e cimento - os mais antigos eram feitos de pedra e barro - alinhados de maneira engenhosa e que ordinariamente serviam para demarcar e proteger territórios. Como a bela Paris em seus primórdios, cercada por muros e portões. Ou a China, com um exemplar pouco mais imponente, construído com a ajuda quase voluntária de 250 mil homens com o objetivo de evitar invasões. Acontece que nas severas ditaduras de esquerda (o adjetivo vai junto para enfatizar que foram de fato severas, essas ditaduras de esquerda) el paredón era a última coisa que alguns homens e mulheres especialmente insurrectos viam antes de receber o balaço na nuca ou nas costas (quando eram alvejados de frente, aí não, o que viam por último era seu carrasco, ou a faixa preta a cobrir-lhes os olhos). Na Alemanha dividida da metade do XX, havia um muro que não era lá muito bem quisto, posto que o regime que o havia construído não primava exatamente pela tolerância, diversidade ou união. Odiamos tanto aquele muro que sua queda e destruição tornaram-se marco da nossa história recente, ao lado de episódios como a conquista espacial e o advento da máquina de lavar. Revoluções dessa nossa era. É tão perturbador, o muro, que ele ocupa o privilegiado lugar de título numa obra de Sartre. E ilustra a capa e a música de um famoso álbum do Pink Floyd. Obras com algum teor crítico e capacidade de inspiração. O muro é importante. Foi-se o tempo, contudo, em que o muro era símbolo de horror, perseguição, aniquilação, poder, hegemonia, segregação. O muro saiu do arredor das cidades e foi cercar as casas. Por uma questão de segurança, é preciso sublinhar. Está em toda parte, o muro, tanto que a gente quase nem o percebe porque ele ganhou canteiros, trepadeiras, cores e o nome bonito de fachada. Felizmente, esses são dias de calmaria pro muro. Num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. Natureza, aliás, que está correndo risco de desaparecer por causa do crescimento desenfreado de comunidades carentes. A belíssima vista do Cristo Redentor, uma das sete maravilhas modernas, pertence à humanidade. É pa-tri-mô-nio. Imagine se toda a região for desmatada. Você, suponho, já ouviu falar no muro do Rio de Janeiro......?

2 pessoas pararam por aqui:

gaf disse...

agora imagine a paisagem da Baía de Guanabara sem povo...

o povo do Rio de Janeiro não mora em Ipanema ou no Leblon

aline disse...

Eu não sei bem em qual definição de povo vc está pensando, gaf, mas eu acho que de maneira geral povo é todo mundo e não só gente de classes econômicas baixas. De todo jeito, pensar nessa transposição de milhares de pessoas de uma área pra outra é algo que consterna.

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