28.4.09

do que não se explica

A pasmaceira deste mundo é culpa das mentes científicas. Não estou falando apenas ou necessariamente dos cientistas, mas daquelas pessoas que, com ou sem formação acadêmica, empenham-se em convencer todos os outros de que o mundo é de fato o tédio que nós tememos. Não é preciso ser religioso para acreditar no sobrenatural, basta ser um pouco imaginativo. Se fantasmas não existem então a gente pode temer os vultos e ruídos sorrateiros da madrugada, mesmo. Indagando se o inexistente de fato inexiste. Se você quer sentir-se pelo menos uma vez irremediavelmente desprotegido nesta vida, ou se entrega a estas breves irracionalidades ou assiste ao próximo jogo do Corinthians no meio da Fiel, com a camisa do Santos.
Eu já confessei, tenho medo de um monte de coisa. E detesto quando alguém se presta a explicar que meu medo não tem fundamento:

- Olha, o Chucky não existe...
- Você não sabe.
- Mesmo se existir, você já é grande, pode dar um chute nele que ele voa longe...

Um chute no Chucky, gente? Tá doido? Ele é o Brinquedo Assassino! Ele volta! Sempre volta! Pra matar! Socorro!

Quero dizer, deixa meu medo quieto, uai. Até porque eu não sou uma maluca que sai na rua numa vibe parano olhando pra todos os lados com medo de um boneco serial killer. O medo dura só enquanto durar o filme. No caso do Chucky, claro. Porque há filmes que assombram mais e melhor. Tipo a maldita Sadako, sobre quem eu não falo mais porque eu tenho duas tvs em casa e isso significa duas vezes mais chances de receber a maldita visita e morrer deformada com o coração paralisado. Porque, né, eu vi o maldito video caseiro por tabela quando vi o filme. São sete dias pra morrer, mas vai saber em que sistema de calendário essa maldita assombração está contando!
Eu morava com uma menina que cursava física. Adorável. Menos nas horas de assistir filmes de terror. Uma vez, a gente tava vendo um filme B: a cena de uma mulher tomando café sozinha, numa sala escura. Começa a musiquinha de suspense. Ela olha aterrorizada pra alguma coisa que a gente não sabe o que é. A musiquinha se intensifica. E eu naquela gastura, escondida atrás da almofada. Alguém me abraça (/polly). Aparece a bússola dela. Com o ponteiro girando descontrolado. Musiquinha. Olhos arregalados. E eu, socorro. E minha amiga: é a caneca de metal dela que deve ter desmagnetizado....... Putaqueopariu, né? Isso é coisa que se diga? Eu lá quero saber das explicações físicas da bagaça? A única razão pra existir um filme de terror dessa qualidade é justamente que a gente guarde a razão num potinho pra usar mais tarde. Não é pra explicar. Mas minha sina é estar cercada de gente que nunca se impressiona. E eu me impressiono por todas elas.
Por isso eu digo: eis os malvados deste mundo, que não consegue mais sequer ter mistérios assombrosos em paz. Esse tipo de gente é perigosíssima. Eles jogam fora anos e anos de cultura e sabedoria popular. Tudo conspira pra gente recear os mortos, os mortos-vivos, os fantasmas, os monstros, as bruxas, os extraterrestres, os psicopatas, os objetos inanimados que se animam por efeito de magia negra, o boi da cara preta, a cuca, o bicho papão, o boitatá, os dementadores, o cavaleiro sem cabeça, os vampiros, as múmias, os computadores e robôs com vontade própria, os demônios, os anjos, o demonho lui-même, as criancinhas no meio do milharal, os vermes gigantes e até uma massa branca que sei lá, dissolve pessoas. É muita coisa, eu digo. E é tão engenhosa, a dinâmica do medo ao sobrenatural, que o pior não é acontecer o pior e você de repente se deparar com uma loira fantasmosa no seu banheiro. O pior - mas mooointo pior - é o vazio de quem nunca olhou pro espelho do banheiro meio assustado. Quem nunca deu as três descargas e saiu rapidinho do recinto.
Eu posso lembrar de várias coisas dessa natureza que rechearam minha infância. O quadro "Parece mentira, mas não é", do saudoso Viva a Noite do Gugu. Alguns desenhos antigos da Disney, sobretudo o incrível caso do professor Ichabod Crane, que foi perseguido pelo cavaleiro sem cabeça no cemitério. Eu apavorava com esse desenho, mas assistia repetidamente. E minha minha coleção de livros Folclore Brasileiro (não sei se alguém conhece essa coleção, com o palhaço Arrelia e um grupo de crianças viajando pelo Brasil e ouvindo todo tipo de conto, são cinco volumes, um pra cada região do país). O folclore é cheio dessas coisas. São estórias terríveis, com maldições, tristezas e sustos abundantes. O que eu gosto nelas é que misturam nosso medo com a nossa curiosidade. O medo do mistério é uma espécie de fascínio também, porque ele não se desdobra exatamente em medo de prováveis consequências - morrer, desaparecer, ser levado pro fundo do mar pela sereia - antes, se concentra mais na figura temida. É medo principalmente do confronto. Então a gente contempla enquanto está paralisado, assistindo, lendo, ouvindo uma estória de terror. Ou suspeitando uma assombração do outro lado de um corredor escuro.
E tudo isso existe com um propósito. Gerações e tradições que nos legaram esses contos e figuras escabrosas pra fazer a gente sentir um medo puro e inconfessável - o resquício do medo que a gente sente quando é criança. E não pra desenvolver o senso crítico e a confiança no mundo material e previsível. Quem se propõe a explicar - ou pior, desacreditar do sobrenatural dessas magníficas estórias de ode ao assombro, não merece viver. Merece ter, sei lá, um emprego no arquivo de algum escritório administrativo. Emprego, aliás, que eu duvido que alguém tenha de verdade. Mas duvido mesmo.

Ilustração veio daqui.

19 pessoas pararam por aqui:

Eriquinha disse...

Toda a vez que volto para casa de meus pais sofro desse medo. A tv deles faz um barulho ao desligar (ela faz um barulho da igual o das espadas de Guerra nas estrelas), além de demorar a desligar! Fica uma tela meio branca e com aquele chiadinho... Toda vez eu começo a me apavorar... pensando que a Samara vai saltar e me matar... seca!!! Pra piorar a situação, meus pais vão dormir muito cedo (interior né?!) e eu fico até tarde acompanhada de todos os barulhos, de bichos e ventos tentando entrar em casa... vai explicar isso pro meu coraçãozinho medroso e mente que se impressiona com tudo. A Pa já foi no cine comigo pra assistir isso... riu o filme todo enquanto eu tentava me esconder...
Muito bom o post!!!

Tina Lopes disse...

Puxa, vesti a carapuça. Sou a chata que não tem medo de nada a não ser o ladrão. A não ser que seja em filme. Daí, ai, as crianças no milharal. Aliás, milharal, hein? Que medo.

aline disse...

Eriqunha, vc veio do olho do furação né? hahahahhaha

Tina, se vc tem medo durante o filme então tudo bem.\o/
Milharal, oh, sim, é uma coisa. D=
:*****

Mariê disse...

Aline,

quando eu era pequena meu avô nos reunia todas as noites para contar histórias, algumas bem arrepiantes.
O legal é que ele (criado na roça, sem instrução) fazia igual a Sherazade e sempre deixava uma pela metade para terminar no outro dia (isso garantia o público).
Esse seu post me lembrou um pouco isso, da época em que eu realmente tinha medo.
Depois de adulta, para ser bem sincera, teve um livro do Stephen King que me deixou aterrorizada por um bom tempo, chama-se Jogo Perigoso.
Posso dizer que fiquei (na minha lembrança, meses) com medo da presença macabra que ele descreve no livro. Entrava no carro e me arrepiava toda e olhava rapidamente para a parte de trás, com medo da presença estar ali comigo. Inaceitável seria olhar pelo retrovisor,né, um dos maiores clichês do cinema.
Hoje, digo que não me amedronto com coisas de outro mundo, por que já tenho o suficiente neste mesmo.
Abraço

Filipe disse...

hauhauhauhahua
eu acho q quase todos os filmes de terror atingem seus objetivos comigo...
sempre fico com medo!
bjos!!!!

lu disse...

ai aline, que delícia que deve ser ser aluna sua! você traça os raciocínios mais deliciosamente construídos com uma criatividade e facilidade que só você!
eu adoro filme de terror, inclusive os trash mesmo, e me borro toda... tomo todos os sustos, até os mais previsíveis. gente, o tanto de medo da loira do banheiro que eu já tive... até hoje me borro com história de fantasma. e rio da minha paspalhice, que sei que é bobagem, e mesmo assim continuo me borrando! hahhahaa afinal, um chute no chucky, tá doido!?...

aline disse...

Mariê, é que medo de ladrão, desemprego, acidente, etc, é diferente eu acho. Não te deixa curiosa, não é uma história ou um personagem que brinca com a sua racionalidade, são coisas muito reais que ameaçam mesmo. Disso aliás, eut bm tenho medo. (Nossa, me senti a Regina Duarte agora: eu tenho MEEEEDO) hahahaha

Fi, vc é meu companheiro de covardia, né? Se bem que de uns anos pra cá ce tá com mania de fingir que não tem medo de nada não. :P

Lu, uma vez meus alunos pediram pra eu contar minha pior história de terror. Eu contei e eles racharam de rir. É um causo em que eu passei muito, muito medo com essa coisa de assombração. Eu adoro essa zona nebulosa entre o humor e o medo de fantasma, sabe? Tenho mil histórias disso pra contar (é o sangue mineiro de meu avô pulsando em mim :)


:**** a todos

cris disse...

ai, eu sou como a tina. uma chata de galocha que [diz qu] não tem medo de nada, só de perder o filho. e eu nunca, nunca vejo filme de terror. porque acho chato, olha que pessoa horrível eu sou, rs. mas, sobre essa questão do medo, eu tava outro dia lendo um texto do contardo calligaris. eu não gosto dele, mas nesse texto, que fala sobre o 'demônio do meio dia' ela faz uma relação interessante sobre a perda do medo do sobrenatural eo crescimento da depressão na vida moderna. achei que fazia sentido, sabe. se achar o link coloco aqui pra vc. [ah, e sobre aquela questão de política linguística: eu nem sabia desse livro da prof. samia. depois a tonta aqui lembrou que a raquel ramalhete era professora de francês da UFRJ. lá na UFF, se não me engano, quem está a frente do ensino de port. para estrangeiros é a professora norimar judice. e se eu bem me lembro, eles adotam um método chamado 'bem vindo' da SBS, que eu já ouvi falar que é bom. mas eu concordo com vc em relação ao descaso. muito mesmo]. bjs [quer marcar um café qualquer dia desses?]

cris disse...

achei ó: http://contardocalligaris.blogspot.com/2008/12/zo-e-o-demnio-do-meio-dia.html

bjs

Haline disse...

nossa, meu primeiro maior medo foi a cuca. ela nao precisava nem aparecer, pq a musica já anunciava!!

jayme disse...

Medo vem quase sempre do som. Chucky sem barulho não é de nada.

aline disse...

Fran-ca-men-te Cris. Que pessoa hor-rí-vel vc é!!! :D
Engraçado que eu leio o Contardo muito pouco, mas esse texto dele teve gostinho de déjà-vu, sabe? Como eu leio muitos antropólogos e mitólogos, essa perda do encantamento é uma fala bem sedimentada. E eu concordo, em certa medida (mais não sou 100% adepta não) e sobretudo acho que é poético. Eu tenho muito disso, de brincar com algumas coisas e dizer mesmo que não sejam convicções fortes minhas, mas que são bonitas de serem ditas. Meu lado fábula que se apresenta, sabe? Adoro :)
[Eu adoro discutir ensino de lingua estrangeira]
[Café? Claro!!!! Ce sabe que eu tbm sou moradora de Nikity né?!]

Haline, eu tive uma professora de literatura no colegial que achava um horror a gente cantar essa música pras crianças. E uma amiga minha que foi babá na França, cantava nossas cantigas e as crianças adoravam. Aí um dia a mãe deles pediu pra minha amiga traduzir... A mãe proibiu ela de cantar cantigas de terror de novo. Eu acho isso a maior bobagem!! Ainda mais que os francesinhos nem entendiam... :)

Jayme, não sei. A musiquinha de suspensa de fato faz muito pelo susto. Mas tenho que pensar nisso. Se eu teria medo da Sadako mesmo sem nenhum barulho.

...

...

...

...


É, teria.

:D


:*****

Brasil Empreende disse...

Ola visitei seu blog e gostei muito e gostaria de convidar para acessar o meu também e conferir a postagem desta semana: Sim ao futebol-arte!
Sua visita será um grande prazer para nós.
Acesse: www.brasilempreende.blogspot.com
Atenciosamente,
Sebastião Santos.

Paulo Cunha disse...

Comecei a ler e imediatamente lembrei de Vicent, do Tim Burton. Ele não é medroso, mas nem de perto é racionalista. Eu era uma criança assim, eu e meu mundo. Hoje, para meu terror, ela jaz "tristonha sombra no chão há mais e mais,/Libertar-se-á...nunca mais!"

Eis Vincent no YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=fxQcBKUPm8o.

aline disse...

Paulo, eu nem conhecia esse video do Tim Burton (aliás eu gosto muito dele). Tem todo o jeito que eu vou gostar, mas preciso do meu automaticmaridotranslator aqui pra ajudar a entender... he he he... :(
Mas obrigada, de antemão.

:**

Paulo Cunha disse...

Eu tinha visto com legenda, mas na versão sem legenda a imagem está melhor.

Não sei da qualidade da legenda, mas não tem nada de mais, fora a referência aos dois últimos versos do poema o Corvo do Poe no final que eu usei a tradução do Fernando Pessoa.

Com legenda: http://www.youtube.com/watch?v=QUB_-PpmEP0

Mas, pensando melhor, melhor ver com maridotrasnlator mesmo, a companhia ajuda :)

josue mendonca disse...

seu post meu lembrou um post meu, quando disse que precisamos nesse mundo, não de uma atitude crítica, mas de uma atitude poética. concordo com vc que realmente é gostoso esse medo e essa chance de viver um mistério. pra que explicar se o sentido é imaginar?
gostava muito também quando criança de ouvir estórias.
quando a ciência ou qualquer pessoa se proprõe a tudo explicar, recionalizar, realmente a vida fica mais chata..queremos muitas vezes acreditar na ilusão, se deixar envolver pelo mito, e isso é muito gostoso.
abração

aline disse...

Eu tbm gosto, sabe, dessa possibilidade de experimentar coisas fantásticas, irreais, lúdicas até.

Eu acho que li esse post seu (minha memória é muito ruim), pq "atitude poética" é uma expressão q me soa conhecida. Bem legal essa ideia, aliás. :)

Abraço, Josue.

aline disse...

Paulo, eu adorei Vincent. Nossa. De um tanto q nem sei te explicar. Vou postar aqui mais cedo ou mais tarde. Adorei, adorei.

Obrigadíssima!

beijos

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