3.4.09

in nomini primo


Agora que a gente decidiu casar de papel passado, aparecem uns detalhes engraçadinhos pra serem decididos. Tipo, que fazer com o nome. Eu não tenho necessariamente apego aos meus sobrenomes e acho os do Paulo legais. Mas tenho preguiça de mudar. Aí eu falei pra ele que coloco o sobrenome dele se ele colocar o meu. Mas eu sei que não é uma boa ideia porque nossos sobrenomes, juntos, criam cacofonia. Nada pior no mundo do que nome cacofônico. Neste caso, repete muito a sílaba li. Que, miseravelmente, também consta no meu nome. Então a gente ficou um tempão tentando coordenar os quatro sobrenomes e os dois nomes. E eu com raiva de meus parentes terem deixado pra trás o Maraviglia, o Rivolta e o D'Angelo. São nomes muito bacanas. Eu podia ter qualquer um deles, agora mesmo. Mas, não. Povo foi abrindo mão e deixando prevalecer o Lima, o Silva. Italianada sem visão. Com um desses, eu nem consideraria pegar os do Paulo: se ele quisesse, que alugasse um dos meus. A gente repetiu tanto os nomes que começou a ficar estranho e depois engraçado. Eu nunca tinha rido do meu nome, porque nome é sina, você nasce com ele. Agora que eu posso escolher, tirar um colocar outro, inverter, melhor aproveitar.
Meu pai tem um primo que sempre falou da grandiosidade do nosso sobrenome. Ele é o único humano vivo que eu conheço e que defende a monarquia e fala em nobreza como se fosse uma coisa ordinária (ficou contraditório, sei, mas vamos em frente). Ele diz que nossa família in-tei-ra foi injustiçada, porque há séculos atrás nossos antepassados eram de um ramo da família real espanhola que foi traído e deserdado. Conhecendo minhas tias-avós, aposto que foi meique merecido. Mas então, ele conta essa história desde que eu tenho capacidade pra entender mais ou menos do que se trata. Agora, aos 25 anos, percebo que ele acredita nisso de verdade. Se ressente muito dos portugueses, inclusive. Ainda assim, sabendo das injustiças e contratempos inerentes ao meio, ele acredita na monarquia como sistema político. O primo sabe a árvore genealógica de cor, de agora até umas 10 gerações pra trás. Lutou esgrima profissionalmente, acabou virando professor de matemática. É um perfeito gentleman, com uma postura e português impecáveis. Minha mãe me dizia que esse primo é um lorde. Eu achava demais, quando criança. O jeitão posudo dele. Velho, ficou quixotesco. Acho muito gozado eu ser parente dele. Eu, que tenho silva no nome e nenhuma aspiração à nobreza. Silva não é nobre nem se você for um druída. Selva e talz, nada a ver com aristocracia.
Ele tem um filho, que tem a idade do Filipe. Eu tive pouco contato com o priminho porque minha família mudou de cidade e perdemo-nos uns dos outros. Por coincidência, ele e meu irmão se reencontraram na mesma sala de aula, na faculdade, há uns dois anos. Eu tava curiosa pra saber como é ser filho de um altivo aristocrata monarquista muquiado na burguesia paulistana. Na primeira visita recente que fizemos à casa deles, priminho me chamou pra ver uma mansão do outro lado da rua. Fechada, quadradona, fachada de tijolinhos e canteiros de espinhos e maria-sem-vergonha vermelhas. Ele todo mistério: "Que você acha que é essa casa?" Pela idade do moleque e o tom com que ele falou, pensei que só podia ser sacanagem: "Rolam umas surubas aí?". Ele me olhou surpreso e disse que "Não, mas é engraçado você dizer isso". E eu: " Por que? A casa é o que então?". Ele tacou na minha cara: "Sede da Opus Dei".


É, acho que eu vou trocar meu sobrenome, sim.

11 pessoas pararam por aqui:

Erika disse...

Aproveita pq a hora é agora!

beijo!

Erika disse...

Ah, Aline, é possível o acréscimo de sobrenomes de família. Eu vou olhar isso com minha professora de Direito de Família e depois te conto, caso lhe interesse.

beijão!

Ashen Lady disse...

Quando casei, eu até pensei em mudar o sobrenome, sabe, me livrar do famigerado dos Santos, mas com preguiça do trabalhão que ia dar tirar documentos novos mantive. Até porque com um sobrenome japa (do meu marido) ninguém iria ligar o nome à minha pessoa.

lu disse...

agora Silva é o nome do presidente - e não qualquer presidente, é O CARA, citando obama... silva ficou chique!
meu, não é um saco casar no papel e as providências no entorno disso? ou é só comigo mesmo? eu tou sofrendo por antecipação com isso...

Paula Reis disse...

Aline,

Não lembro como cheguei ao seu blog, mas é fato que eu gostei muito. Lí alguns posts mais antigos e dos últimos, o que me chamou a atenção foi sobre a moça da sua faculdade, que é trans, por conta do gato e achei muito interessante sua opinião sobre o assunto. Você sonhece o blog: Escreva Lola escreva? É muito bom e entre outras coisas, trata muito sobre preconceitos com quaisquer minorias, feminismo, cinema e outros, todos muito interessantes. Gostaria de saber se você autoriza que eu indique para o blog dela o seu post, acima citado. Se puder me responder em PVT, agradeço. Meu e-mail: paularobertareis@terra.com.br
Abraços e parabéns por sua escrita.
Paula, de Sorocaba, interiorrrrr de SP. Ah, esqueci de dizer que, como uma comentsrista disse acima, é possível, sim, adicionar sobrenomes de família. Sou advogada e tenho alguns casos desse tipo, com êxito. Se bem fundamentados, é tranquilo, embora um pouso demorado, como todo processo judicial. Consulte um advogado, se for, realmente de seu interesse. Parabéns pelo casório!

Sarai disse...

ah,é isso?não se preocupe,eu sei que você entendeu.na verdade eu entendi que vc interpretou muito bem o que disse mas se prendeu a argumentar sobre pontos que não justificavam seu ponto de vista.
E acredite,eu entendi perfeitamente o que vc quis dizer.
entendi que vc é contra o aborto baseado em coisas das quais questiono. entendi que vc é contra o sistema e contra qualquer coisa que tenha a aparência de ser contra o sistema mais não é.eu entendi que vc considera a igreja e a religião como meios de dominação das massas (o que eu não discordo,nem por isso acredito que caráter corrupto do ser humano
anule a existência de um Deus)
eu entendi que vc tem uma visão muito unilateral de preconceito (isso pq eu fiquei pensando aqui se vc faria com uma católica e seus santos de A à Z,uma evangélica que se cobre até os pés ou uma testemunha de jeová o mesmo que fez com a trans ou se não riria deles)e também que vc trata a religião como uma espécie de 'contra-cultura'ao invés de cultura e que todo argumento contra o que vc acredita é de cunho moralista, conservador, irracional e burro.Eu entendi que fanatismos ideológicos se manifestam tanto em religiosos quanto em ateístas.Eu entendi que alguns dos seus argumentos como aqueles em que vc se inspira são bem coerentes,da mesma forma que achei maquiavel e nietzsche brilhantes quando os li mas nem por isso concordo ou acredito que seja a melhor corrente de pensamento que leve no mínimo a uma melhor qualidade de vida.E ainda que pensa que suas ideologias são menos passíveis de sofismas, preconceitos e questionamento que as minhas ou a de qualquer outra.Eu entendi que vc não sabe que são os meus questionamentos e críticas a respeito das minhas próprias crenças que me fazem ter mais certeza daquilo que acredito e que essa é a melhor forma de não manter uma postura arrogante em ser o que se é.Eu entendi que vc acha que devo sustentar a minha opinião aderindo a responsabilidades de sofismas ideológicos que VC julga(com todo aquele sentido de pré-julgamento) existir em mim e isso nunca vai acontecer.Enfim,eu entendi muito mais do que imagina.
;)

aline disse...

Erika. Quero saber sim. Mas mais por curiosidade mesmo. (ou quem sabe... ohohoho)

Lu, eu não desgosto do Silva. Só não é chique - sobretudo se sua referencia for o Lula, pq aí vc pode dizer que é o sobrenome mais popular do mundo, mas chique, não é não :P

Ashen,é a preguiça de mudar o nome vem dai. Nem ligo tanto. Era mais pra fazer graça mesmo.

Paula, obrigada, obrigada e obrigada. :*


Sara. Ai, Sara. Doce Sara. Te acalma. Ce ta numa fase eloquente e intensa, to percebendo.
Mas, ó. Eu sei que vc se esforça pra não ver o pior em mim. Vc acha que eu riria de uma mulher religiosa que tivesse o gato atirado. E olha que vc poderia ter deduzido que eu mesma atiraria o gato caso fosse a dona uma religiosa. Brigada por um voto de confiança desses. :**

Lila disse...

Só um desabafo: estou em dilema desses. Tenho nome composto e gosto dos meus sobrenomes.
Gostaria de acrescentar um sobrenome do noivo, mas aí ficaria com 5 nomes (nome composto + 3 sobrenomes). Ainda não me decidi se vou acrescentar e qual dos meus sobrenomes tirar.
Conheci seu blog pelo Marjorie e Mary W e estou gostando muito.

aline disse...

Ih, Lila. Boa sorte...
Eu to quase me enfezando e deixando o meu. É uma coisa que me deixa meio travada, seu eu pensar na coisa do pertencimento da mulher ao homem, e do nome dele se perpetuar em detrimento do dela ser machismo.... Ao mesmo tempo é uma decisão que eu tomaria por um motivo simples: gostar da palavra que é o sobrenome dele. Acho que vou fazer que nem a Rachel do Friends. Deixar o meu e se tivermos filhos, colocar meu nome por último. Sei lá. Vai longe isso aqui. :)
Seja bem vinda.

Lila disse...

Então, o que me deixa enrolada com isso é tb a questão do machismo, de deter o nome do marido. Essa coisa de Sra. Fulano de Tal q me dá nós na cabeça. Boa sorte pra nós duas :)

aline disse...

oh, yep. :D

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