1.4.09

pouca energia é bobagem

É preciso começar abordando o mais óbvio: eu não sou contra medidas conscientes individuais. Evidente, é melhor que as pessoas tomem banho de 15 minutos e não de 2 horas, que não deixem as luzes acesas à toa e usem papel reciclado. Mas eu não me iludo quanto ao alcance dessas ações. Na melhor das hipóteses, elas fazem com que você economize na conta de luz. O efeito delas na economia dos recursos energéticos ou mesmo, vá lá, na preservação da natureza é quase nulo. Assim, a hora do planeta e a "desejável" conscientização em massa é uma falácia dos que bolaram a campanha e uma ingenuidade dos que a defendem.
Pra começar, porque esse é um dos movimentos que procuram atingir a malha urbana de consumo de eletricidade, sem considerar que ela - a malha urbana - é composta em 30 a 40% por residências. A maior parte são edifícios administrativos. Que, por sua vez, mantém as luzes acesas durante o dia. Ou seja: as luzes acesas em casa (e portanto, majoritariamente à noite) representam menos da metade do consumo urbano. Mas na hora de fazer a conta e determinar que o consumo de energia deve diminuir, certos ambientalistas consideram apenas sua casa e do vizinho como foco de desperdício, mas não os prédios do congresso ou a sede da aracruz. Em 20 anos de Procel (programa de economia de energia que ficou popular na época do apagão do FHC), as casas, responsáveis por menos de 40% do consumo de energia no país, conseguiram economizar o correspondente ao consumo de energia da cidade de Porto Alegre em 1 ano. Vejamos: a malha residencial do país inteiro poupou, a cada ano, apenas 5% do gasto anual de Porto Alegre. Eu sei que tecnologias melhores surgiram ao longo dos últimos 20 anos, como as lâmpadas frias. O que eu quero sublinhar é a dimensão. Se todas as casas não consumissem nada, absolutamente nada de energia, ainda assim a economia não passaria dos 40%, que é insuficiente para preservar - que dirá reverter - os danos ao meio ambiente.
Por isso não há campanha ou conscientização que baste. Nossas noções de consumo, economia e preservação do planeta são completamente divergentes. O que mais se cobra do Lula, por exemplo, é o crescimento econômico e geração de empregos. A indústria precisa, portanto, produzir mais, funcionar mais. Ainda que a produção de um carro gaste menos energia do que há 10 anos, as empresas usam essa energia abudante para produzir outros 5. A possibilidade de economia, em escala industrial, não se reverte em contenção, mas em impulso. Novas tecnologias vão permitindo que se produza mais por menos dinheiro. Não há, hoje, sequer um projeto de lei ou plano a respeito da questão energética que não preveja a expansão do potencial de produção. E fica nisso. O Minc dizendo que devemos diminuir a emissão anual de gazes causadores do efeito estufa ao mesmo tempo que nosso ministro Lobão de Minas e Energia prevê a inauguração de 82 usinas termoelétricas (e 71 hidrelétricas) até 2017, além das 77 térmicas já existentes. Pra quem não sabe, as termoelétricas são as maiores emissoras de gases-estufa no mundo. No Brasil, só perdem o título de potencial destrutivo pro desmatamento (te dedico, Mato Grosso).
Não é o caso, evidente, de ignorar os avanços de nossos antepassados e morar em cavernas. Medidas drásticas não costumam funcionar nem melhorar a vida de ninguém. Eu não sou economista, embora entenda que diminuição na produção e consumo podem estagnar a economia e gerar desemprego e aumentar a pobreza. Eu sei que funciona em ciclo. Mas então a solução para o planeta, se solução existe, é algo diferente do que se tem feito nas últimas décadas. Nada a ver com apagar a lâmpada. Talvez repensar a estrutura das cidades. Implementar meios de transporte alternativos e limpos, incluindo aí uma malha ferroviária inexistente, que aliviaria a quantidade de carros e caminhões. Redução absoluta - e não relativa - do consumo de energia em escala industrial. Mas não me venham colocar a responsabilidade nas costas da população, tratando dela como se fosse uma massa descompromissada e impensante, como se seu way-of-life fosse prejudicial ao planeta por uma questão de escolha individual. Porque nunca é.

adendo: eu fico brava mesmo com esse papo de contribuição individual pros problemas do mundo porque até eu já concordei que o clichê do engajamento político é cafona. Já acreditei muito nisso, mas uma hora a gente passa a fase. Só que de repente esbarra de novo. Com a necessidade de cobrar soluções aos políticos eleitos, aos empresários que lucram milhões. Já que é um sistema de representatividade. Encho o saco do "se todos fizessem sua parte". Essa grande abstração que é o se. Se, minha gente, se minha avó tivesse rodas não seria minha avó. Seria uma kombi.

15 pessoas pararam por aqui:

Victor disse...

É. E agora tem programa na GNT incentivando geral a colocar painéis fotoelétricos (se o nome for esse mesmo) onde tiver espaço. Um dos episódios inclusive disse que é mais negócio perder a área de meio campo de futebol em vegetação para meio campo de futebol em painéis. A diferença que isso faz? Você não gasta nada de luz. Mas uma casa a menos no mundo, que eu saiba, não vai reduzir os danos ecológicos.

Aline, na falta de expressão melhor em português, vou dizer: you nailed it. Posso passar horas lendo esse post aí. Muito bom, mesmo. E o comentário da Kombi no final? Ri alto.

lu disse...

(passando mal de rir com o final do post)

Daniela disse...

brilhante!
o foco dessas campanhas está totalmente equivocado. se por má fé ou ingenuidade...

marjorierodrigues disse...

Genial o post, Aline.

Na Pais e filhos, a gente tinha várias seções deste tipo. Que diziam: "separe seu lixo, não use sacolinhas, feche a torneira", tudo com aquela sensibilização tosca: "se você tem filho, precisa deixar um bom planeta pra ele".

E depois, na outra página, estimulava-se as mães a comprar um monte de coisas. (Porque é, revista segmentada nada mais é do que isso: é um monte de publicidade velada. A segmentação das revistas é de acordo com os grupos publicitários, não grupos sociais propriamente ditos). Mas enfim. A gente estimulava os leitores a comprar um monte de coisas, que por sua vez precisam de caralhadas de energia para serem produzidas. E a gente mesmo, trabalhava o dia inteiro com a luz ligada. Não bate. É tão hipócrita que não desce.

Outra coisa que me irrita profundamente são os "produtos verdes". Como o detergente Ypê. Ou o posto BR te dar um cartão que, segundo eles, pega parte do que você pagou na gasolina e usa para plantar árvores em algum lugar que ninguém sabe. Essa coisa do "verde" tem sido usada para fazer as pessoas consumirem MAIS. Quando a questão é consumir menos.

...Cada vez mais eu fico abismada com a maneira como a publicidade consegue se assentar no nonsense, no completo parafoxo, e ninguém percebe.

marjorierodrigues disse...

Ah, sim. E o final da vó com rodas: gargalhei sozinha aqui!

Edi disse...

Já criei o hábito de chegar de manhã aqui no Conviver e, antes de tudo, abrir meu mail, por que sei que sempre tem alguma postagem sua pra ler. Me faz falta. E não é a toa, o de hoje é perfeito (não que os outros não o sejam), mas ele é absolutamente claro, simples. E acho que se partíssemos de pensamentos assim simples, chegaríamos a soluções melhores e eficazes. Te amo princesa. Tenha um bom dia. bjs.

Anonymous disse...

"Se, minha gente, se minha avó tivesse rodas não seria minha avó. Seria uma kombi"

Ahahahahahahahahahah, passei mal!

Sobre o post, perfeito, na mosca.

Leah

Victor disse...

No fundo, é isso mesmo. Dar um conceito verde a um produto tira qualquer culpa do consumo que o consumidor médio poderia ter. Marjorie Rodrigues falou certo lá em cima. Te faz consumir MAIS -- por causa da idéia disseminada de que, se é ecologicamente "correto" (não sabia se colocava as aspas em ecologicamente, em correto ou na expressão inteira), então tudo bem bjs --, quando a questão toda é consumir menos. De novo, numa escala individual. Que não vai fazer diferença substancial.

aline disse...

Oi todo mundo.

Então, Victor e Marjorie. Tbm acho que o selo verde é um estímulo a comprar mais. Mas acho que essa é a segunda intenção só. Pq o selo verde funciona muito bem como desdobramento da responsabilidade social. Pega bem pra uma empresa ser vista comonão agressiva ao meio ambiente, mesmo que agora vc não compre nada dela. A imagem positiva perante a sociedade civil vale tanto ou mais do que uma fatia maior dos consumidores. Por isso esse tanto de selos verdes, incentivo às ongs e bla. Além disso - mas eu tenho q confirmar com o Paulo - o selo verde gera redução de impostos. Coisa assim. Preciso confirmar mesmo.

bjos

aline disse...

(precisava chamar de "princesa", mãe? tá todo mundo olhando... :P)

Jurandir Paulo disse...

Aline, seu post está perfeito. Lembrei de uma reportagem, acho que na revista do Globo, sobre um casal que reciclava todo o consumo da casa. Do lixo da cozinha ao esgoto, passando pelas fraudas descartáveis do bebê. Contaram felizes sua experiência, com relatos das técnicas, as horas infinitas gastas para separar o plástico das fraudas do cocô. Eu e minha mulher ficamos em pânico ao ler, temendo por ser uma tendência. Caramba, fazer compras no supermercado já é um desafio, manter arrumados nossos babilaques outro... Morro de medo deste mundo verde.

Jurandir Paulo disse...

Fralda, fralda!!! Ando lendo muito sobre as fraudes tucanas, deve ser o que explica o meu erro grosseiro. :-)

aline disse...

Oi Jurandir. Nossa. Nem imagino reciclar fraldas. Eu acho um desequilíbrio mesmo. Pq superestima a ação dos indivíduos e esconde as instituições atrás da sombra. É picaretagem. E o mundo vai afundando mais. Eu realmente queria que a preservação ambiental estivesse na ordem do dia. Até está, aliás.

:*

Daniele disse...

SERIA UM JIPE ><'

aline disse...

dani, nesse caso, dá na mesma.
só que kombi tem uma sonoridade muito mais legal.

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