1.5.09

da desgraça do pau verde

Esse foi um exercício de interpretação de texto aplicado numa turma de 6ª série, em 2005.

Os versos e provérbios populares costumam conter uma mensagem a ser transmitida e memorizada rapidamente, como um conselho que os mais velhos dão aos mais novos. Leia esta estofre e responda: qual o conselho que ela pretende transmitir?
A desgraça do pau verde

é ter o seco encostado

vem o fogo pega o seco
lá vai o pau verde queimado
Eu não lembro exatamente de todas as alternativas, mas a que nos interessa dizia mais ou menos o seguinte: não devemos queimar nossas florestas. Mais da metade da turma escolheu essa alternativa (e havia outras quatro alternativas, inclusive a correta "devemos tomar cuidado com as nossas companhias"). Entre todas as matérias, acredito que Lingua Portuguesa seja uma das que mais se beneficiam com (bons) exercícios de múltipla escolha, porque a resposta errada não vem de um erro de cálculo e nem sempre de um chute, mas de alguma afinidade que o aluno sente com aquela sentença. A interpretação de textos, em turmas jovens, é sempre um exercício de enriquecimento, de abertura de possibilidades. E oferece ao professor, de bandeja, uma espécie de mapa do discurso subjacente à leitura de seus alunos.
Foi com esse exercício que eu percebi a força do ecologicamente correto. Ele está de tal maneira disseminado e absorvido, que automatizou alunos de 12 anos de idade. Não é de se espantar pois que diversas pessoas tendam a sustentar relativamente fácil a defesa do meio ambiente quase a qualquer custo, porque essa urgência já fincou as raízes na nossa visão de mundo. O que é estranho, porque o impulso de preservação domina e praticamente se basta em atos discursivos. Não conheço ninguém que não defenda o meio ambiente; não conheço ninguém que escape da sina de ser um agente poluidor e destrutivo, direta e indiretamente (enfim, não é apenas nem principalmente uma questão de escolha individual, etc).

***

Essa volta toda que estou dando é por causa do muro. Embora o debate sobre ele tenha já tenha arrefecido um pouco, o projeto permanece. E eu ainda penso nele, então permanece aqui também. Na caixa de comentários da Marjorie o papo rendeu bastante, e eu pedi a Suzana** que me deixasse reproduzir algumas coisas que ela disse lá e que eu achei interessantes. O que segue são excertos do texto dela, que é maior, tem mais dados e é mais articulado; os grifos são meus:

O muro é como “Esperando Godot”: nada se resolve antes de Godot chegar. Vamos começar a fazer alguma coisa DEPOIS que as favelas pararem de crescer. As pessoas que debatem seriamente o problema querem acabar com as favelas, sim - favela = amontoado de casas sem infra-estrutura ou poder público.

Mas um estudo da Uerj já comprovou que, invariavelmente, moradores removidos das favelas voltam - os da favela do Vidigal que ganharam casas na Zona Norte (com infra-estrutura, escola e condução) voltaram para a favela. A justificativa: a vista para o mar num ponto nobre da cidade. A praia. Os bares. Ipanema.

(...) Não votei em Eduardo Paes, mas quando ele era subprefeito da Barra levou três anos - três anos - para retirar meia dúzia de casas das margens da Lagoa de Marapendi. Os moradores ganharam casas compradas no centro de Jacarepaguá - mas ninguém queria sair dali. Exemplos que a questão não envolve apenas números: são pessoas com desejos que refletem aquilo que chamamos sociedade - pobres e ricos.

O muro, a meu ver - certo ou errado - é uma tentativa desesperada de o governo deter o avanço das casas. “Esperando Godot”. Se você for checar nas faculdades - arquitetura, educação, medicina, filosofia, letras, jornalismo - há zilhares de estudos sobre as favelas. Já foram tentadas inúmeras políticas pelos governos - de remoções e melhorias, elevando as favelas a bairros, nenhuma foi eficaz. Não se pode ser eficaz em quatro anos. E as favelas vão continuar a ser problema, com o esgoto a céu aberto, o lixo descendo pela encosta, o tráfico, sem creches nem escolas - porque há os que as defendam, esquecendo que elas são uma ilegalidade - e os que as atacam, sem se lembrar que política de habitação, transporte, educação e cidadania são ingredientes raríssimos no Rio há quase um século.

E favela provoca, sim, um violento impacto ambiental - como toda comunidade sem infra-estrutura. Menos pela derrubada das árvores (que acaba provocando deslizamentos de terra principalmente nos bairros de Copacabana e Tijuca, onde o solo favorece que isso aconteça) e mais pela quantidade absurda de lixo e esgoto não tratado que, todos os dias, é lançado nos rios (...) e no mar.
Gosto bastante dos dois termos em que ela situa o muro: a menção ao Godot e à medida desesperada. O Godot, pra quem não sabe, é uma personagem de uma peça de Beckett. Dois caras passam a peça toda esperando Godot. Falando dele. E Godot nunca chega. Não é que se atrasa. Godot não vem, simplesmente. Ele é expectativa e ausência. E sem que ele venha, a trama não acontece; e porém, ela acontece na sua ausência. Nesse avesso de protagonismo e ação. Enfim. Soou muito bizarro pra mim, desde a primeira vez que eu soube desse muro. Pois somado ao teor discriminatório e tosco, há a graça da simplicidade. Um muro a interditar um processo social fortíssimo como o crescimento das periferias. O estranhamento nos acena de um jeito ou de outro. E então a noção de que o muro é um ato de desespero. Algo que surge naquele tom de "só se..." depois que todas as alternativas falharam.
eu fiquei
achando que o muro é isso mesmo, um jeito de acabar com a expectativa pelo fim do crescimento da periferia, determinando in loco que ela deve parar. Na verdade, uma hora a cidade vai ter que parar de crescer mesmo. E a favela entra nisso porque, a princípio, é ela que não para, que consegue não parar de crescer porque não prescinde e nem dispõe das condições que as moradias regulares das classes médias e altas dispõem.

***

O que torna a favela um problema sócio-ambiental tão urgente*, contudo, é também um olhar hipócrita em certa medida. Porque as comunidades pobres não são as únicas a poluir ou crescer desenfreada e desorganizadamente, na cidade do Rio de Janeiro. Vejamos o exemplo da Barra da Tijuca, com o atual boom imobiliário que faz vários corretores babar de felicidade. A diferença é que a infra-estrutura corre atrás do crescimento dos bairros de classe média-alta, ela é concedida no encalço do ritmo imediato e frenético das construtoras. Nas periferias, a infra-estrutura não chegou a tempo e não virá nunca respaldar o crescimento. Além disso, nem todos os bairros regulares da cidade contam, por exemplo, com esgoto, coleta de lixo, acesso abundante a transporte e serviços, ou seja, falta de infra-estrutura não é uma questão de regularidade mas de poder econômico.
Uma espécie de Godot, afinal.
No que concerne a questão ecológica, o muro é uma medida deveras superficial porque, ainda que ele consiga impedir o crescimento das favelas, não impedirá o crescimento urbano de modo geral. Essas pessoas que não podem morar nas favelas da zona sul ainda hão de morar em algum lugar, enquanto existirem. E, em comunidades regulares ou não, ricas ou pobres, o crescimento desordenado é danoso ao meio ambiente porque não há um plano diretor de expansão. A cidade infla, dá cada vez menos conta do lixo, da poluição, da demanda de serviços, cresce pros lados, pra cima e desgasta as reservas da região inteira. Pra que a Barra (pois é, tudo ela) existisse, foi necessário soterrar uma área considerável de restinga, que é um tipo de ecossistema frágil e importantíssimo na manutenção e estabilidade da costa. Fato é que toda a faixa litorânea contém florestas e ecossistemas que deveriam nos ser igualmente caros, e caros o bastante para que as pessoas todas abdicassem de morar na região. Não vejo, entretanto, muros nos bairros de classes econômicas mais altas, nem impeditivos (te dedico, mary w) pra que novos apareçam.
De onde eu acho que o muro, como toda medida desesperada, escancara uma inabilidade muito particular nossa para enxergar e lidar com as causas dos problemas. E então a gente morre tentando estancar as consequências. Se o governo fizesse o que é necessário ser feito para que o muro seja útil, ele acabaria se tornando desnecessário. Eu to pensando nessa coisa de deslocar várias famílias das favelas para bairros com mais infra-estrutura. Eu imagino que estes bairros devam, ou deveriam, proporcionar aos moradores condições muito melhores de moradia. Ultrapassando, inclusive, o mínimo: espaço e qualidade nas residências, esgoto, coleta de lixo, transporte, educação, saúde. É preciso lembrar que isso é o mínimo, não pode ser oferecido como vantagem. E tem mais. Num mundo em que se gera poucos atrativos urbanísticos, o que sobra é a faixa litorânea, que é inerentemente bonita e interessante. Eu acho que a beleza da vista e dos espaços públicos não é um detalhe. As pessoas com poder aquisitivo alto selecionam suas casas baseadas nisso, na beleza do lugar em que querem morar. Não acho justo furtar aos pobres essa mesma inclinação em gostar de um lugar e preferi-lo, ainda que esse ponto de fuga para o olhar custe melhores condições práticas de moradia.

O que eu queria dizer com os versinhos do pau seco e do pau verde, afinal, é que o discurso ecologicamente correto e consciente acaba funcionando como um trator que atropela diversos outros problemas igualmente importantes. E, na maioria das vezes, é elaborado, transmitido e repetido de maneira muito superficial. Eu não vejo necessariamente má-fé das pessoas que defendem e levantam essa bandeira da preservação ambiental porque sei que o que chega de interessante e questionador até nós é muito pouco. Mas eu vejo com maus olhos um governo que use essa noção rasa de preservação pra justificar suas prioridades. O discurso ecologicamente correto, aliás, é só um dos discursos que se voltam às questões ambientais, não é o único. Existem vários jeitos de resolver um problema ambiental. Alguns conduzirão também uma melhoria social, outros só farão piorar. O muro é uma solução do segundo tipo.


*há, claro, a questão da violência, que eu não contemplo aqui. Mas se esse é o fator mais determinante pra murar uma favela, então que se escancare que é por medo e proteção ao patrimônio.

** Muito obrigada, Suzana. Você me fez pensar muito.

11 pessoas pararam por aqui:

cris disse...

mas é claro que é por medo e preservação do patrimônio. aliás, será que alguém, em algum momento, pensou que seria por algo diferente disso?

aline disse...

sim, cris, justamente. o governo diz que é pra preservar a mata, que é uma questão ambiental.

josue mendonca disse...

Aline
aqui em Salvador, na Avenida Paralela, estão destruindo o que ainda resta da Mata Atlântica com a construção de vários condomínios residenciais, shoppings, lojas, faculdades, etcccc. acho cômico essa incoerência discurso/prática.
quem, afinal, deve preservar o ambiente?? quem deve preservar pra quem consumir?
quanto aos muros, me parece que vai além de uma questão ambiental. e me chama atenção a lógica: levantar muros pra conter, ao invés de promover condições socio/-econômicas para evitar o crescimento. vejo na figura de alguem tentanto amarrar a boca de um leão faminto. o que nossa sociedade está precisando é de muralhas pra conter o avanço da pobreza ou de políticas sociais mais justas? quando se fala em pobreza, lembro sempre do título de um livro de Melhem Adas:"a fome, crise ou escândalo?"
o Brasil ainda continua sendo um dos países (se não for o primeiro da lista) de maior concentração de riqueza do mundo, mas já estamos acostumados a isso..
temos um problema estrutural e qual a solução que nossos políticos tomam? construir muros. é prático, fácil. além do mais, inverte a causa/efeito: a origem do problema passa a ser as favelas em si, como se fossem organismos independentes, desvinculados de seu contexto histórico (econômico,político,social), ao invés de se considerar como fator determinante a própria estrutura social com seus mecanismos e políticas que geram concentração e exclusão.
mas aqui, também há uma armadilha: quando os políticos explicam as desigualdades se referindo a essa evolução histórica. aqui, explicar é uma forma de tentar conformar: ''é assim mesmo, sempre foi..nao é agora que vai mudar..."
o que os políticos talvez não estejam atentos é ao efeito psicológio de um muro isolando o pobre do rico. o trágico da estória é que quem geralmente paga o preço é o cidadão comum, quando um favelado enfia uma faca ou acerta um tiro na cabeça de um ente seu. e o falevao sai dizendo: foda-se mauricinho fdp.

aline disse...

Josue, eu concordei com o seu comentário quase inteiro, mas uma frase do fim eu queria sublinhar:

"o trágico da estória é que quem geralmente paga o preço é o cidadão comum, quando um favelado enfia uma faca ou acerta um tiro na cabeça de um ente seu"


Eu tenho muito receio desse conceito "cidadão comum", porque eu acho que ele é uma das expressões equivalentes ao "cidadão de bem", que por sua vez forja e naturaliza um sujeito como eixo social, ou seja, coloca como paradigma um tipo específico de pessoa, que é alguém próximo a mim, você: pessoas de classe média, com algum grau de escolaridade, que paga os impostos, etc.
Eu acho que todas as pessoas são cidadãs "comuns", na medida em que elas participam da comunidade, e acho que o "preço" de más políticas públicas quem paga são todos, de um jeito ou de outro, uns mais ou menos, mas é uma coisa que estoura coletivamente - sobretudo se a gente estiver falando de questões ambientais.
Mas eu não sou socióloga então eu paro por aqui...

Beijos

josue mendonca disse...

Aline,
sua colocação me lembrou de um pensamento, acho que de Luther King, quando disse que o que afeta uma pessoa diretamente, afeta a todos indiretamente. verdade, toda a sociedade paga um preço, de uma forma ou de outra, em diversos níveis...
imagine agora a metáfora de um provérbio chinês: ''a água sustenta o barco, a mesma água afunda o barco''. essa provérbio eu li num livro que falava sobre o crescimento da economia chinesa baseado na escravidão de sua população rural.. Então, a pergunta que me faço é: quem hoje paga o preço e DE QUE FORMA pra que esse barco não afunde? talvez o preço seja apenas ter que conviver com um mito (que justifique tal realidade), sem nos darmos conta de que não passa de um mito..talvez o preço seja o da vida de um policial que entrou numa favela...
eu tava falando com uma amiga de SP agora à noite sobre essa questão do muro, e ela me disse que em lá tem muitos condomínios realmente blindados. no ano passado, minha professora de RH comentava sobre esse isolamento em condomínios da classe média, aqui mesmo em salvador, cada vez mais temerosa diante da violência...

enfim, acho que o que a sociedade precisa evitar é justamente essa ''mentalidade de separação'' que tanto um muro simboliza. mas gostei muito da ligação que fez com cidadão do bem,.me fez refletir..
como também nao sou sociólogo, paro por aqui

bjão

josue mendonca disse...

corrigindo-me: ''cidadão DE bem''

mary w disse...

mas quem enfiou floresta na prova foi vc.

aline disse...

tecnicamente não fui eu, mas que seja: é, foi o professor da turma. e não era uma prova, era só um exercício em sala.

Enfim, é que a ideia de um exercicio de multipla escolha pra interpretação de texto é essa mesma, uai. Oferecer vários roteiros de leitura e ver qual eles escolhem.
Vc acha que a floresta foi tipo pegadinha?

mary w. disse...

nao é bem isso. é q parece q é um tema unico. o mais interdisciplinar. o q está presente em todas as matérias. daí os alunos sempre optam. tipo o q vc falou. mas a gente acaba optando tb. nem q seja pra tentar dizer "nao é tudo ecologia". mas sai ao contrário e reforça o tudo é ecologia. pq estava na prova etc. sei lá. uma coisa assim.

aline disse...

mas então, é na interdisciplinaridade (ou transdisciplinaridade, q eu sempre confundo) que a ecologia se dissolve e fica rasa. e fica presa a um papo formatadinho, corretinho e sem saída.
a floresta estar no exercício foi pq o professor queria ver o alcance desse papo. e ele se assustou com a incidência: mais da metade. é bastante isso. eu tb achei bastante, pq não é só um erro de interpretação, e automatização.
mas é verdade, só de estar no exercício o discurso ganha força. e eu nem sei se uma aula de lingua portuguesa dá conta de explicar que nem tudo é ecologia. tvz sim. tvz o professor de geografia, ou o de biologia conseguisse fazer isso melhor. abordando a mesma questão e fazendo o assunto ficar interdisciplinar de verdade, talz.

Suzana Elvas disse...

:o)

Postar um comentário

Diga lá.