6.5.09

da vocação cômica do político exemplar

Eu acho que todo mundo sabe isso, em alguma medida: que a comédia, em sua origem, era um gênero teatral que se opunha à tragédia. E como a tragédia era o campo de atuação do sublime, do herói, dos caracteres grandiosos e superiores, cabia à comédia acolher o ordinário, o mundano, os caracteres inferiores. Esses aspectos mais formais do teatro grego tinham uma função social conformadora, basicamente. De situar quem é quem dentro da polis. De estabelecer paradigmas. Não se ri de um rei, de um príncipe, de um nobre cujo destino inescapável guardava sofrimento e horror. Não se ri de Medeia, ou de Édipo. As personagens trágicas - e nisso Édipo é certamente o maior exemplar - percorrem e cumprem sua tragetória por mais que dela tentem escapar, e sua tragédia está justamente no momento de reconhecimento, quando elas enfim compreendem quem são e qual é seu destino. A fala do oráculo pro Édipo é essa, "conhece-te a ti mesmo", e nela está encerrada o segredo que o leva a arrancar os próprios olhos e isolar-se para sempre. A palavra catarse é própria da reação do público, é o horror e compadecimento que as pessoas sentiam no momento do reconhecimento, quando ficava claro, pra elas e pro herói, que os deuses eram implacáveis. A catarse na comédia, naturalmente, se dá de maneira mui diferente. O tipo de conhecimento que o riso proporciona não tem o impacto do choro pelo trágico, mas exerce lá sua função. O riso situa o ridículo, o inferior, a existência sem auto-conhecimento.


Aí ontem eu estava assistindo ao CQC (pois é, do teatro grego antigo ao CQC: oi, pós-modernidade). Eu via bastante no ano passado, mas depois que eles voltaram das férias eu fiquei com preguiça e quase não assisto mais. Mas ontem eu vi. Acho que o Maluf apareceu umas duas vezes. Deve ser o recordista absoluto em aparições no programa. Agora, cada vez que ele surge, toca a musiquinha do Poderoso Chefão e o reporter que o entrevista, seja lá qual dos meninos for, usa de tom irônico pra fazer aquelas perguntas "ácidas", "diretas" e "ferinas": o que ele acha do uso de pessagens pra familiares, se ele já se beneficiou, se tem conta em paraísos fiscais, etc. Quero dizer, os caras acham que usam de ironia quando perguntam isso, mas a ironia está mesmo na negativa do Maluf. Que responde e já engata um discursinho auto-lisonjeiro e lembra que foi ele quem construiu São Paulo e blá. O Maluf já estava em vias de se tornar um mito, é fato. Frases como "estupra mas não mata", "professora não é mal paga, é mal casada", "bandido bom é bandido morto" infelizmente já se tornaram pílulas de humor e piada pronta, com ou sem Maluf na conversa. Além, claro, de uma estranha, internacional e ilesa reputação. Uma vez, aliás, eu li um artigo do Le Monde sobre o distinto cidadão e que, pasmei, incluía e explicava a versão francesa do nosso neologismo malufar: malufer (aqui também). E a tradução do Le Monde para o termo não dizia que é um "sinônimo de trabalho, de acordar cedo e dormir tarde. É respeito à família, é perfeccionismo e amor à pátria", oh, não.
Mas agora acho que aconteceu de vez. Folclorizamos Maluf antes mesmo que ele morresse, coisa que só ACM conseguiu, mas o velho coronel nunca gozou dessa nossa leniência: posto que Maluf ficou eleitoralmente inofensivo (bem, ele ainda terá votos o bastante pra eleger-se deputado quantas vezes desejar, mas não terá um cargo administrativo de novo) pode gozar de uma imagem pública mais branda também. Só era necessário, para tanto, um trabalho de acessoria de imagem que apenas um programa engraçadinho como o CQC é capaz, porque eles são - digamos - neutros. Não dá pro Maluf apresentar-se cinicamente no horario eleitoral gratuito, ou em uma entrevista que alguma mídia amalucada ainda queira lhe fazer. Porque embora o conteúdo de suas frases e suas feições sejam praticamente as mesmas, ninguém, além do CQC, pergunta simpaticamente se ele já roubou alguma coisa na vida. Então assim, aos pouquinhos, eles vão ressignificando o Maluf pra nós. A gente ri dele, ri com ele. A resposta, aliás, pra pergunta que eu mencionei (o senhor já roubou alguma coisa?) foi "não necessariamente". A partir de agora, o tom é esse. Um riso cínico e inimputável.
O que eu acho curioso, mas não surpreendente, é que embora a comicidade caiba bem e mesmo cristalize a fama de nosso político mais típico, ele não se torna em absoluto um exemplar de inferioridade. Pois é, Berenice, segura, que eu não comecei falando de teatro grego por nada. Claro que eu não acho que a comédia tenha ultrapassado dezenas de séculos como gênero estanque. Os gêneros, os expectadores, as sensibilidades são outras. Mas no riso ainda há uma tendência maior à inferiorização, à ridicularização do outro. Sobretudo nas televisões que captam as Zorras, Escolinhas do Sidney Magal, Shows do Tom Cavalcante. Nosso senso de humor é prioritariamente estabanado, escarnecedor e maledicente. Não somos dados ao humor blasé ou ácido dos ingleses. Tampouco rir de nós mesmos constitui nossa vocação cômica. Então nosso olhar, nesse sentido, mantém essa potência inferiorizante e subjugadora, eu acho.
E não é que o Maluf (ma-lan-dri-nho!), nosso apoiador do regime militar de outrora, escapa até mesmo disso? Quando ele aparece na tv, vomita honestidade e ousadamente desvia de uma pergunta "aguda" do CQC, ele definitivamente se sai melhor. Porque reverte tudo e triunfa no papel do malandro. É risível e funciona: ou seja, as pessoas riem mesmo e o programa é um sucesso. E Paulo Maluf triunfa, afinal, porque lhe é dada a oportunidade de dissolver no riso qualquer revolta que as pessoas sintam, e ainda que lhe conservem a má reputação, ele pode jogar pra cima dos outros a pecha de personagem cômica: os outros, e não ele, são ridículos e desprovidos de auto-conhecimento.

9 pessoas pararam por aqui:

Arthur disse...

E ainda dizem que análise literária não serve para nada, aplicar teoria dos gêneros para analisar o Maluf foi genial.
Mas quanto ao nosso riso, que bate nessas figuras como brisa refrescante da manhã orvalhada, basta lembrar das gracinhas do velho Brás Cubas, mas deixemos o Machado em paz.

Srta.T disse...

Nossa, eu vou arriscar comentar, mesmo correndo o risco de soar bem burralda: me entristeceu deveras sua conclusão, porque a lógica é brilhante. Eu sempre tive pra mim que o humor poderia ser uma poderosa arma de combate à corrupção, através da crítica aos corruptos. No entanto, no momento em que eles viram palhaços e assumem o centro do picadeiro, acontece exatamente o que você disse: a nossa revolta, que nos moveria a tomar atitudes, vira quase simpatia e acaba em riso. E aí né, acabou. Acho que o meu riso vai passar a ser de tristeza e impotência agora.

aline disse...

ahhahahahahah
Arthur, pelo menos isso a gente tem a nosso favor, né? Capacidade de leitura. A gente lê qualquer coisa, qualquer qualquer.
Eu tenho receio, sabe, de parecer monótona, mas eu juro que quanto mais eu vejo as coisas, mais eu acho que Machadão sabia de tudo. Impressionante. Não há nada que eu não consiga associar com uma personagem, uma frase, um conto dele. Fico incrível com isso.
Bjos

Srta. T, que burralda o que, sô. De jeito maneira.
Eu tbm achava, no começo do CQC, assim como alguns acharam nas épocas mais dignas do Casseta, que o humor tinha uma chance de denunciar o que está errado e promover mudanças. Mas que nada, né?! Porque esse tipo de humor, quer queira quer não, tem um limite prático: a emissora que produz, contrata, veicula e, certamente, tem seus rabos presos com a classe política. O CQC atira pra todo lado e não acerta ninguém. Acho que o quadro mais capaz dele é o Proteste Já, mas ele tbm já está sendo absorvido e usado como palanque de futuras eleições. O secretário de educação, de saneamento, o prefeitinho vão lá, fazem o que já deveriam ter feito, e ficam bem na fita. Funciona pq resolve (e as vezes de um jeito bem mais ou menos) aquele problema pontualmente, mas o benefício pra imagem do cara que colocou luz na praça ou melhorou a merenda da escola é bem maior. E, sendo ele um incompetente, o desserviço é grande.
No mais, programas de humor sobre política tem perna curta porque são bem pouco combativos e nada propositivos. Então, rindo, a gente vai acomodando melhor uma situação que deveria ser incômoda, irremediavelmente incômoda. Que nem o Maluf.

Nossa, falei demais, desculpa aí.

Bjos!

Sabina disse...

Aline, eu adorei o post. Eu assisto CQC quase sempre, mas não consigo de rir de tudo, sabe?
Semana passada eles perguntaram pros parlamentares se eles aprovavam o trabalho do ministro da apicultura, sendo que nem existe esse ministério... e os parlamentares dizendo que sim, é um ótimo trabaho, que eles acompanham...

Eu acho ridículo, vergonhoso... em qq país sério, eles renunciariam na terça de manhã, pediriam desculpas, mas aqui isso não acontece porque está disseminado que a política brasileira é farra, então fica por isso mesmo.
É isso, um beijo

lu disse...

sem querer ser chata - nem burralda -, eu quero bater o pé nisso que a srta. t. trouxe... que o humor pode ter isso, que você fala no post, de ser um acomodamento na coisa, uma conformação, mas ué, isso não significa que ridicularizar e rir se esvaziou do seu caráter crítico. eu não tinha comentado antes porque não assisto cqc e não conheço uma pessoa que não tenha horror ao maluf. o acm, tem gente que se diz simpática. mas o maluf, quem admite publicamente que gosta dele? certamente essas pessoas existem, mas eu não conheço ninguém que se sinta à vontade pra verbalizar isso. todo o mundo sabe, no meu mundo pelo menos, que é motivo de chacota ser simpático ao maluf. e não é uma chacotinha "amigável". enfim, tou me desviando, eu só queria dizer que o humor continua com seu potencial crítico, ainda que nem sempre ele apareça criticamente. queria salvar o riso rs
:*

aline disse...

Sabina, eu não vi semana passada. Mas isso que vc contou, que mico. Nossa.

É bem importante isso que vc falou, Lu, e tvz eu não tenha sido clara.
Eu não tenho dúvida de que o riso é crítico e contestador. Eu to falando especificamente do cqc. Pq eles tiram sarro de todo mundo, então o jeito deles de ironizar, depois de 50 programas, fica batido. E não critica mais, pq os próprios políticos aproveitam a simpatia deles pra jogar e se promover. O cqc não pretende fazer o Maluf ser aceito, não é essa a proposta mesmo. Mas o cara sempre se sai melhor nas entrevistas. Sempre. E eu conheço gente que é adepto sim do "rouba mas faz" e que acha que viaduto é prioridade em sp,que tem tanto trânsito. É justamente o modelito do Maluf. E mesmo quem não gosta dele, ri com ele, do bate bola "inteligente" e "engraçado" entre ele e um reporter cqc, que é um desafiante mas sai agradecendo e sendo fofo.

Agora, humor não é tudo igual, então se eu dei essa impressão foi erro meu, totalmente. Eu fiquei pensando no filme V de Vingança, quando o apresentador amigo faz aquele programa super pastelão com a figura do V e do Chanceler. É nível trapalhões as cenas, mas eu achei (ainda que numa ficção) muito muito rebelde. Dentro do contexto político que o filme tem. Pq depende da figura que se coloca no palco e que se ridiculariza, e como se ridiculariza. No caso um ditador genocida. Mas olha o salto, entre ridicularizar um cara infexível desses e inserir o riso onde ele absolutamente não pode existir, e ironizar nossos políticos, que são flexíveis e cínicos e topam a palhaçada. Eu me sinto mais provocada do que provocadora com o cqc.

Então eu me pergunto que tipo de humor se deve fazer aqui, uma vez que é mais ou menos aceito que nossa maneira de lidar com tudo é via humor e que os criticados geralmente são refratários às críticas. Como é possível ridicularizar alguém como o Maluf?

lu disse...

ah! esse comentário foi *o* adendo ao post.
eu ia comentar mas ficou grande e resolvi mandar email ao invés
:*

aline disse...

ufa!

eu fico tão filiz qdo consigo explicar melhor o que eu escrevo, que só tenho a dizer uma coisa: \o/

josue mendonca disse...

acho que esse é o ponto crucial Aline ''dissolver no riso qualquer revolta que as pessoas sintam''..
penso que seja algo mais ou menos como, através do humor, banalizar o crime...

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