9.5.09

de onde eles vem

Where did I really come from Um novo livro infantil dirigido a crianças de dois anos e que aborda, entre outras questões, o relacionamento entre homossexuais, está causando polêmica na Austrália. O livro, Where did I really come from ("De onde eu Vim"), da autora Narelle Wickham, traz informações detalhadas e ilustrações de relações sexuais, e aborda temas controversos, como a paternidade entre casais de lésbicas e gays. Uma das ilustrações mostra dois homens segurando um bebê. "Se os pais são abertos com os filhos desde o começo, é bom para o conceito de que os pais são honestos e confiáveis", disse Wickham em entrevista à BBC Brasil. "O livro é para os pais saberem como ensinar os filhos sobre várias formas de se conceber um bebê, inclusive a fecundação in-vitro (FIV)", disse a autora. Wickham contou à BBC Brasil ter tido a inspiração para escrever o livro depois do nascimento da filha, que foi concebida a partir de inseminação artificial.

Trechos
"Algumas vezes as mulheres querem ter filhos mas não querem ter relação com um homem. Ou algumas vezes mulheres querem ter um bebê sozinhas ou com outra mulher, então o bebê tem duas mamães". Outra passagem ainda explica que "quando uma mulher quer ter o bebê sozinha ela vai a um médico que consegue para ela espermatozoide, ou pede a um homem especial para fornecê-la seu espermatozoide".

Grupos conservadores, como a Organização Família Austrália, disseram-se revoltados com a ideia. "Essa é uma forma de promover o que não é normal", disse à BBC Brasil John Morrissey, porta-voz da organização, referindo-se a pais gays. "Se o livro apenas explicasse aos pais a melhor maneira de responder aos filhos quando eles começarem a questionar, tudo bem. Mas promover relacionamentos que não são normais, nós somos contra".

Veio daqui. Grifos meus.

O rasteiro conceito de normalidade. Blábláblá, né? A heterossexualidade imposta como eixo de determinação de categorias, como norma, como expectativa. Essa normalidade pra mim não existe há tempos.
E parece que enquanto a simples menção à homossexualidade basta para sexualizar as crianças (e sexualiza-las de um jeito 'errado'), a heterosexualidade mantém-as assexuadas e, portanto, protegidas. Os heteros estão em praticamente todos os veículos, inclusive os infantis. A Bela e a Fera, Chaves, Turma da Mônica. Um casal hetero é tão 'natural' que parece invisível. Ninguém vê a dona Florinda receber o professor Girafales, ou o Cebolinha paquerar a amiguinha da Mônica e pensa 'olha, ele é hetero', ou 'meus filhos estão sendo influenciados'. Casais heteros são como árvores: sempre estiveram lá, deus fez assim, dispensam maiores apresentações. Essa presença configura um mundo seguro em que eles, os pais, não tem que explicar muita coisa nem aceitar nada diferente. É a mesma lógica daquele vídeo contra o casamento gay: o Outro me destrói, só por existir, só por me fazer olhar e falar dele.
Eu não sei exatamente em que idade crianças começam a perguntar de onde vem, se com 2, 5 ou 8 anos. É que embora eu tenha me surpreendido com a pouca idade do público alvo desse livro, penso que as explicações podem vir assim, mais flexíveis desde o primeiro momento. Talvez seja muito simplista de minha parte. Mas eu fico achando que quanto mais cedo a criança souber que o mundo é plural, mais vai achar que isso é o normal. A pluralidade. Porque minha pouca experiência com crianças já me disse que elas não são burras, então se você explica uma coisa pra elas, elas entendem e seguem adiante, vão prestando atenção no mundo à sua volta e entendendo mais, etc. Imagina que bacana, já começar sem os véus do preconceito e tal. Aí os caras que são contra usam essa palavra, promover. Pior, usam a expressão promover relacionamentos. Considero um erro primário confundir educação sexual com orientação sexual. Eles creem que a primeira e a segunda se determinam mutuamente, então impõem os limites do certo e do normal na educação sexual pra prevenir 'desvios de conduta' por causa da orientação sexual. Como se pudessem fazer um recorte e criar os filhos naquela 'verdade pessoal' deles que eles acham que existe.
Não é nem só o fato gigantesco de que não há o que evitar, as pessoas felizmente são mais complexas do que a combinação de genes e a educação formal que receberam. É que eu acho uó as pessoas que abordam a diversidade sexual como se fosse um boato: quanto mais se fala, maior e pior ele fica. E essa oposição ao livro é tão inócua, porque educação sexual sequer pretende ensinar ou influenciar alguém a ser gay ou hetero; ela ensina sobre reprodução humana, praticamente. Não tem, ou nao deveria ter, um conteúdo moral. É antes aquela apresentação verticalizada horizontal das coisas, das pessoas. Que torna tudo bem mais interessante. Acho que qualquer criança percebe isso melhor e com mais tranquilidade que esses adultos aí.


Agora, achei curioso ver que o líder da TFP australiana se chama Morrissey. Porque esse nome, né? Tinha uma reputação a zelar.

10 pessoas pararam por aqui:

Tina Lopes disse...

A Nina (tem 4) já se assustou, espontaneamente, ao ver pela primeira vez a cena de homem beijando homem. Eu expliquei pra ela, tem casal que é assim, homem com homem, mulher com mulher, tem criança que tem dois pais e criança que tem duas mães. Ela pensou um pouquinho e disse que na escola dela não tem nenhum amiguinho com dois pais ou duas mães; eu reafirmei que existem, ela então aceitou, "ah, tá bom". E morreu aí. Pronto. Criança aceita de tudo, basta que você explique: vc nunca viu, mas é assim, tá tudo bem, cada um na sua. Ela até pode não querer aquilo pra ela, ou pros pais dela (a Nina entende casais separados mas não admite essa possibilidade pros seus próprios pais). Não tem por que preocupar mais, exagerar, encher as cabecinhas que só querem saber mesmo o que tem pro lanche e que hora vai passar Hi-5. Por tudo isso eu achei estranho só que o target seja tão novinho: com dois anos a criança não quer saber de muita coisa além do próprio umbigo, não tem interesse no outro. É meio como forçar a comer purê - enjoa. Do papo, no caso. Acho pertinente um livro desses mais tarde, quando realmente elas querem saber mais sobre "o outro". Mas claro que posso estar errada. Bjk.

aline disse...

Pois é, eu fiquei meio q com a idade das crianças, mas isso é secundário, acho. Pq a previsão de um público alvo tbm nunca é fixa, intransponível. Depois de publicado, o livr cai nas mãos de todo mundo, etc.
De todo jeito, o livro vale como alternativa, inclusive como sinalizador pros pais. E o legal é isso, as crianças não vão ficar UAU nem nada, elas vão ouvir e pronto, nunca vai virar um tabu ou algo assim...
Que incrível vc dizer as coisas assim pra Nina. Lindo, lindo, mesmo.

:**

lu disse...

hé, é isso aí. se mencionar, está promovendo. eu tava ontem mesmo lembrando duma pessoinha que apareceu no meu blog falando que blablablá e eu que super defendo o sexo grupal, o casamento aberto, surubas, sei lá. acho que ela usou a expressão "sexo grupal" mesmo. imagine. eu nunca falei nada de como seria melhor pra ninguém, eu só comentei em um ou outro post alguns eventos do mundo "suingue", que é um mundo que me intriga - mas já basta pra isso ser lido, na cabeça da peÇoa, como se eu estivesse blasfemando contra os relacionamentos convencionais.
rs. enfim. é sempre uma delícia vir aqui e encontrar post novo.
beijos, gatinha.
(e é, eu na hora que li o nome do cara também pensei nisso. pô.)

Ana E. disse...

olá aline! primeiramente obrigada pela vista, já estava te acompanhando e gosto muito do seu blog.

quanto ao post: é aquele velho e infundado discurso que falar sobre sexo faz com que as crianças queriam fazer/ser aquilo que se fala. pelo contrário, quanto mais se pensa sobre o sexo, a diversidade, os relacionamentos em si, mais se tem sabedoria na hora de assumir o que se quer fazer.

a idade por mais que assuste é apropriada, já que depende muito da criança. se ela nunca falou sobre o assunto ou esboçou curiosidade sobre o tema, pode-se esperar um pouco. mas hoje em dia as crianças estão deveras espertas e observam o mundo com uma curiosidade bem maior do que a gente pensa.

o problema é que pessoas que comprariam este livro seriam aquelas que já iriam, em algum momento, falar sobre isso com seus filhos. logo, os filhos dos retrógados, coitados, não terão contato com isso e continuarão a receber a influência dos seus pais... :/

aline disse...

oi lu!
quer dizer que vc defende sexo grupal? hahahhahahhahaha
então eu acho que OBRIGO o aborto, né?

eu tava lendo sobre o morrisey, pra confirmar a piadinha do final, e descobri que o cara gora é celibatário, mas não consegui descobrir o porque. To achando que é tipo o Clodovil. Outro tonto.

Ana E. Oi! Venha sempre. Então, eu fecho com vc e com a tina nisso, de falar a respeito com a criança qdo o assunto surgir, independente da idade.
O complicado é que tem pais que além de manterem o tabu dentro de casa, meio que proibem educação sexual nas escolas, então os professores ficam meio amarrados pra conversar a respeito. Eu estudei em colégio de freiras, e na sexta série a professora de ciencias deu umas aulas de educação sexual meio às escondidas, encaixou no programa, porque não era bem visto pela escola. É o fim, isso.

:****

lu disse...

pfft, jura?
é que tem a terminação errada, então. tinha que terminar em -son, aí sim ele não decepcionaria rs
:*

Suzana Elvas disse...

Minha avó já dizia que criança é o ser de mais bom senso que existe - quem estraga tudo são os adultos. O ex-diretor da escola das meninas é gay - ele e o parceiro são dois excelentes professores e, apesar de ter sido "desaprovado" por algumas mães, o diretor era absolutamente adorado pelas crianças. Mesmo fora da escola, ele mora no bairro e as crianças, sempre que o encontram, fazem a maior festa.

aline disse...

Não é interessante que os conservadores insistam numa ordem e comportamentos 'naturais' e ao mesmo tempo temam tando uma educação supostamente tendenciosa? Porque se as crianças podem aprender a serem gays, então elas também aprendem a serem heteros. E se é aprendido, então é artifício e o argumento 'naturalista' cai por terra. Essas contradições e superficialidade me irritam, mas não deixam de ser engraçadas.

Suzana, eu fiquei pensando numa coisa... o ex-diretor de quem vc falou, ele é EX porque é gay?

Camila disse...

Adorei esta comparação e vou copiar descaradamente (pelo menos eu aviso antes): "[abordar] a diversidade sexual como se fosse boato". É perfeito. Um beijo, Aline. (Tentando retomar a despedida antiga...) ;)

aline disse...

que legal que vc gostou. copie descaradamente, oh, yes. :)

beeeeeeeijo (recusado hahaha)

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