19.5.09

do meu radicalismo

Na semana passada, Obama foi convidado por uma universidade católica a discursar em uma formatura e, na ocasião, recebeu uma homenagem de honra ao mérito. Na mesma ocasião, diga-se de passagem, foi vaiado. Porque o fato de Obama ser pro-choice ofende os alunos católicos. E ele falando para a platéia sobre a necessidade de abrir a mente e encontrar consensos, sobre a importância de diminuir a quantidade de gravidezes (afe) indesejadas, incentivar a adoção, apoiar as mães que decidem manter a gestação. Note-se que todas essas coisas que ele mencionou não são necessariamente argumentos pro-aborto, mas vão na linha do consenso que ele mesmo propunha. O consenso entre as duas posições, aliás, tende mais a medidas anti-aborto. Eu entendo e aceito que seja assim, porque como eu digo em todas as ocasiões, os pró-aborto querem que ele seja descriminalizado e permitido, mas e não compulsório. As clínicas de aborto não são e nem serão matadouros pra onde as mulheres são encaminhadas na base da coerção. E embora o procedimento cirúrgico seja relativamente simples, é leviano afirmar que a decisão pelo aborto é tomada por uma questão de comodismo e sem grandes reflexões. Por isso eu não rejeito o discurso anti-aborto por completo, porque os argumentos para manter uma gravidez são relevantes. Apenas, eu acho que se uma mulher estiver convicta de que não quer parir nem ser mãe, ela deve ter seu direito de abortar garantido. E ela tem o direito de se submeter à cirurgia sem que médicos e enfermeiras a tratem feito criminosa, sem que ela tenha de esconder isso das pessoas com medo de hostilidades de fundamento religioso ou não. Eu sei, é ousadia de minha parte. Propor que sejam dissolvidos os moralismos que cercam o assunto. Eu imagino que a linha de raciocínio que levou Obama a fazer o tal discurso seja mais ou menos parecida. E ainda assim os caras protestam e ficam ofendidos. Ferrou, então. Se nem Obama pode defender o aborto, acho que ninguém mais conseguirá fazê-lo.

Nisso tudo, um dos meus grandes incômodos é que os pró-aborto tendem a levar a tarja de radicais, ou de qualquer outra palavra que sugira algum excesso ou dureza. E contudo o que nós propomos é uma flexibilização das leis e dos costumes. Quem defende e usa palavras como interdição, punição, criminalização, obrigação, geralmente são os pró-vida. Que, aqui no Brasil, concedem o aborto em casos mais extremos. Eu acho profundamente indigestas frases como "sou a favor do aborto apenas em casos de estupro ou risco de morte da mãe", porque elas pressupõem um julgamento prévio de todas (t-o-d-a-s) as outras situações em que há um descompasso entre a mulher e a gestação. Pior, frases assim determinam a decisão dela antes mesmo que ela o faça. E apesar de tudo, nós somos vistos mais sob o crivo do radicalismo e do horror do que da ponderação.
A mesma coisa, aliás, acontece com questões de gênero e sexualidade: as pessoas que defendem a diversidade sexual morrem lutando por maleabilidade de leis e conceitos (como no casamento e adoção por pessoas de mesmo sexo, como a situação dos transsexuais) e pelo direito de não serem hostilizados. Assim, coisas tão revolucionárias como tranquilidade e não-discriminação. E os conservadores, verdadeiras âncoras mentais, apelam para a natureza, para a necessidade de cautela e apreço às instituições, para qualquer divindade mais proibitiva.
Meu maior receio, nessas horas, é que tudo se dissolva em "opinismo" antes que as mudanças legais venham e que a sociedade acomode melhor essas flexibilizações de que eu estou falando. Quero dizer, eu sei que o teor de algumas falas minhas pode ser considerado ofensivo, irritante, absurdo e etc àqueles que simplesmente pensam diferente de mim. Na mesma medida em que eu rejeito e desconsidero as posições mais intransigentes em assuntos que me são caros. As reações entre divergentes podem até ser parecidas, cada qual se sentindo pessoalmente ofendido e ameaçado pelo discurso do outro. Mas não é uma equação equilibrada, essa, porque seus termos não são opostos e equivalentes. Há quem sustente publicamente violências, preconceitos, cerceamento, sofrimento. Há quem procure tão-somente desconstruir essa nocividade. Eu me pego realmente questionando se todos os discursos são igualmente válidos e se isso constitui riqueza e ganho no debate. Eis o receio: que a maneira com que algumas pessoas devam levar suas vidas se torne meramente uma questão de opinião; e que o discurso conservador, muitas vezes autoritário também, não seja pego em suas contradições e crueldades. Eu sei que essas coisas que defendo, se concretizadas, trariam a várias pessoas mais felicidade e paz num nível bem imediato. Não é disso afinal, que se trata? Ser feliz e etc? Não vejo mesmo nenhuma contra-indicação pra que mulheres não sejam vistas como natural born wifes and mothers. Ao passo que a manutenção rígida dos valores tradicionais... bem, a gente sabe no que isso dá.

7 pessoas pararam por aqui:

aline disse...

lu
Eu tava com medo de este post ter ficado muito confuso e atirando pra todo lado, mas como ele estava passando dos limites de maturação, resolvi enxugar um pouco e postar. Basicamente, eu queria retomar meus últimos pensamentos pós-mm. E que bom q vc falou isso: que o post era sobre mais do que a MM, porque é isso mesmo, era muito pouco sobre ela. E embora ela não tenha nenhuma importância pra mim, todo o debate me deixou com aquela sensação “eles-falam-nós-falamos”, que é um post primoroso seu. Várias pessoas ficaram chateadas mesmo, desgastadas com a coisa toda. E não é possível que a nossa reação seja entendida como diametralmente oposta à reação dos alunos dessa universidade aí. As indignações não podem ser todas iguais, porque senão, ferrou.

quanto ao resto, eu entendi sim. mas não tenho condições de comentar agora, porque eu teria de escrever uns litros de coisas muito mal processadas, então eu vou retomar isso em outros momentos. mas eu fico muito tocada com as coisas q vc diz, sempre. e eu acho que, na blogosfera, vc consegue criar esse espaço de transição, é algo. já te disse isso.

:************

Mariê disse...

Mandou bem como sempre.
bj

lu disse...

eu até não comentei no seu blog o texto sobre a maria mariana, que é sobre tão mais que a maria mariana, que me fez chorar e entrar em alfa de tão lindo, porque não queria, de novo, só babar e dizer que lindo.
mas enfim. esse texto também está demais, legal começar com ele sua casa nova. É isso: não são dois discursos equivalentes, é promover a tolerância e a viabilização de mais vidas versus promover o ódio e a injustiça social. (eu evito falar de aborto porque pra mim não tem diálogo quanto a isso. só indica quem é digno de atenção e quem não presta, quem eu devo ignorar - para me preservar.)
mas eu tenho sim um problema com as mulheres serem vistas como se tivessem nascido pra serem mães e esposas: isso coloca expectativas quanto a mim, e um tratamento que me é dado, que eu recuso, segundo o qual EU não posso sobreviver. se eu acreditasse que só haveria vida possível pra mim como “mãe e esposa”, teria me matado, o que foi uma fantasia recorrente pra mim até o meio da adolescência - quando eu percebi que a vida pode ser maior que isso, que eu posso ocupar outros espaços além daquele que não me é possível ocupar e continuar sendo - grosso modo, o de mãe/esposa, de quem vive em função disso. percebe? porque ser naturalmente programada pra ser mãe e esposa é mais que um cargo, isso subordina a própria materialidade do mundo. daí nego apelar para, como fizeram, “a fisiologia dos sistemas reprodutivos”. isso me esmaga, me impossibilita. então acho que tudo bem se existirem círculos sociais em que se pense isso, desde que, é claro, eu não seja constrangida a eles, desde que existam outros círculos sociais com outra visão das mulheres (e das mães e das esposas) e que seja possível uma transição, que quem não se identifique com esse discurso possa adotar outro. Mas note que essa transição só é possível do nosso lado, só nós a defendemos; a racionalidade que fixa as categorias de gênero, como você bem colocou, é é rígida e trabalha pela rigidez. entende? nem vou reler isso, vou “submitar” como está.
beijo.

aline disse...

obrigada mesmo, marcus.

Marcus disse...

Grande post. Nem tenho o que comentar, concordo com tudo o que você escreveu.

gugaalayon disse...

E tenha dito!
Boa

aline disse...

Mariê, \o/

Postar um comentário

Diga lá.