12.5.09

dos limites da conscientização ecológica

Pode parecer estranho, Lucia, escrever um post para, basicamente, concordar com você. Porém o caso é este: assino embaixo de tudo o que você disse sobre campanhas e conscientização. Mas já que estamos aqui, vou aproveitar a ocasião e manter o assunto aberto, comentando algumas coisas que você escreveu.

Eu, de fato, não tinha pensando no cigarro como exemplo bem-sucedido de conscientização em massa. É verdade que nas últimas décadas os malefícios do cigarro foram muito bem assimilados. No entanto eu me pergunto se essa larga assimilação teve como principal objeto o cigarro e seus malefícios, ou se veio no bojo de uma transformação mais profunda, num movimento de preocupação sanitária e estética, esse cuidado de si crescente a partir da década de 80 e que hoje nós chamamos de geração saúde. Porque junto da demonização coletiva do cigarro veio um estouro de academias, revistas, programas, produtos, cirurgias e discursos que visam aumentar a qualidade e expectativa de vida das pessoas. Isso não minimiza exatamente a escala de conscientização quanto aos malefícios do cigarro, afinal, mas coloca o tema em outra perspectiva, e como você disse, há diferenças entre a consciência que evita o cigarro e a consciência que te faz reciclar lixo. Embora ambas tenham a ver com cuidar de si e melhorar a qualidade de vida. Uma delas, apenas, proporciona melhorias que não se restringem apenas ao indivíduo e nem são observáveis a curto prazo.

Tudo isso pra dizer que eu continuo achando que, no que concerne questões ambientais, a conscientização em massa não se dá completamente, ainda que as campanhas sejam bem sucedidas. Ou ainda: as campanhas funcionam, a conscientização acontece mas se baseia num discurso meio raso, e então é pouco eficiente. Isso eu também tenho falado aqui no blog: que o discurso ecológico virou moda, e segue um padrão bem parecido dos adeptos da geração saúde. Hoje em dia, qualquer pessoa sente que tem autoridade intelectual o bastante para declarar aos fumantes que eles vão morrer de câncer de pulmão, ou aos obesos que eles vão ficar diabéticos e aos ociosos sedentários que irão infartar. Esse tipo de conhecimento médico é absolutamente cristalizado. E as pessoas associam facilmente cigarro, obesidade e ociosidade à morte, posicionam-se a favor ou contra leis, campanhas e comportamentos baseadas nesse conhecimento difundido quanto à saúde. Quero dizer, ainda que essa associação esteja correta, ela autoriza as pessoas a além de modificar os próprios hábitos, determinar o que é bom ou ruim para todos os outros. E ficamos nessa escala de mudança dos próprios hábitos, de transformação individual. Mesmo que vários produtos que nós consumimos contenham componentes nocivos, cancerígenos, etc, e que a maioria desconhece porque não entende de química.

É aí mais ou menos por aí que eu vejo o discurso ecológico hoje: amplamente disseminado e assimilado. Antes da Hora do Planeta as pessoas já sabiam o que é política energética, que é preciso racionar energia e etc. Assim como as pessoas já sabem e defendem, de maneira consistente, a importância das florestas e da fauna, a manutenção da camada de ozônio e da pureza das águas. Porque então as ameaças ambientais ainda são tão sérias e iminentes? Eu imagino basicamente duas razões: 1) como eu disse, a conscientização não se dá completamente. Ela se dá sobretudo no nível discursivo, mas se reverte em poucas ações. E ainda que se reverta em grande mobilização coletiva, o impacto não será surpreendente. 2) A falta de respaldo institucional. Você usou meu melhor exemplo, o do uso de água na fabricação de papel. Gasta-se 2 a 3 toneladas de madeira, 17 m3 de água pra produzir uma tonelada de papel.
Então eu me pergunto mesmo se há validade em um número tão grande de campanhas conscientizadoras voltadas para a população, uma vez que as pessoas já são razoavelmente conscientes, ainda que não tão ativas ambientalmente, e que as insituições governamentais e privadas passam ao largo de medidas mais responsáveis. Eu realmente acho que não: não há muita validade nisso. Que boa parte são campanhas demagogas. Embora nós tenhamos uma legislação ambiental considerada modelo no mundo, somos permissivos com latifundiários da soja e do gado, somos permissivos com empresas de celulose que se propõem a reflorestar as áreas desmatadas quando, na verdade, o que elas fazem é rearborizar com filas e filas de pinheiros (porque floresta, mesmo, com a diversidade de flora e fauna que lhe é intrínseca, é praticamente impossível de recuperar ou refazer).
Por isso eu acho que a mobilização dos indivíduos em causas ambientais deve ser uma terceira etapa do processo de preservação e modificação dos hábitos. Porque individualmente não se faz nada. E ainda que sejamos vários indivíduos agindo de maneira ecologicamente responsável isoladamente, essas ações se perdem num oceano de desperdício de recursos humanos e naturais. A ordem de transformação tem de ser invertida, porque a conscientização já aconteceu e mesmo assim não trouxe melhoras tão significativas na situação do planeta.

Eu fiquei pensando numa coisa que você escreveu: "Mas em ambos [meu texto e no da Paula], há uma entidade abstrata, algo que em geral quando citado, leva ao esvaziamento da estratégia prática, até a um certo comodismo". É verdade. Porque o trabalho de formiguinha, como você disse, pode tanto mobilizar a todos e criar uma coletividade como permitir a omissão dos indivíduos, alheios às ações dos vizinhos. E esperar que mudanças venham primeiro do governo e da indústria pra então fazer alguma coisa também gera esvaziamento e comodismo. Eu não enfatizei isso no meu post, mas eu não sou contra ações individuais, claro. E não acho que elas devam parar necessariamente enquanto as instituições não transformam suas práticas. Mas eu não sou muito otimista quanto ao alcance das ações individuais, eu acho que as várias crises ainda vem a galope: extinção de ecossistemas inteiros, desequilíbrio ambiental, climático, escassez de recursos energéticos, hídricos, contaminação e desgaste do solo. Essas coisas vão acontecer à revelia de todo esforço individual. Antes que uma mentalidade ecologicamente responsável se consolide e gradualmente provoque mudanças mais consistentes.
Além disso, como você disse, as campanhas se voltam sobretudo para um dos termos da equação, é desequilibrada a abordagem. E ainda que a população seja uma fonte considerável de consumo de recursos energéticos e produção de resíduos, não está ao alcance da população os meios para que seu próprio impacto seja realmente minimizado. Não é apenas uma questão de boa vontade individual, é um problema de viabilidade, de poder de decisão. Se haverá investimentos em termoelétricas, se haverá coleta e reciclagem de lixo, se os dejetos domésticos vão parar no rio. Por isso eu insisto tanto na necessidade de um discurso que inclua em suas reivindicações o envolvimento governamental e do setor privado.

Eu acredito, sim, na inclinação das pessoas em colaborar individualmente. Eu me pergunto, no entanto, se os acionistas de uma empresa aceitam lucrar menos tão facilmente quanto aceitariam separar o lixo em casa ou apagar as lâmpadas. Ou se nossa bancada ruralista aceita ceder espaço aos projetos ambientais. Imagino que institucionalmente essas pessoas tenham mais capacidade de atuação e impacto do que individualmente, do que muitos indivíduos juntos, aliás. Porque eles atuam em uma escala muito maior do que a nossa, mesmo que nós, pessoas concretas, sejamos parte dessas instituições. E, infelizmente, nem sempre a resposta do governo e das empresas vem no mesmo sentido dos anseios da população. Vide a saída de Marina Silva do Ministério do Meio Ambiente, vide toda a dificuldade em se demarcar e manter as reservas no país.
Vide, aliás, os dados do IBGE, que mostram qual porcentagem de suas terras cada país pretende manter como reserva protegida. A lista começa com 62% (Venezuela) e cai consideravelmente, passando por uma faixa longa que cerca os 20% de preservação (Estados Unidos e Brasil), passando por 15% (França, Australia e China), uma faixa inferior a 10% (Russia, Canadá e boa parte da África) , até chegar a 0,001% (Iraque). Se todos os países mantivessem a meta brasileira, por exemplo, este seria um mundo em que apenas 18,6% do território é destinado à ecossistemas e reservas naturais, o resto seriam complexos urbanos. Ou seja, 18,6% do planeta pra todas as espécies e 81,4% pras pessoas, animais e plantas domésticos. Essa projeção é tão atual quanto a Hora do Planeta e toda a corrente que essas campanhas pretendem impulsionar.

12 pessoas pararam por aqui:

Anonymous disse...

As campanhas de conscientização voltadas para a população não são efetivas, como vc falou, ´tem que bater na tecla todo dia´, o ano todo. Também acredito no trabalho de formiguinhas, que foi citado aqui. Então, por que não começar nas escolas, desde infantil, e o ano todo. As prefeituras, por ex. aqui, quando o cidadão chega na cidade, brazuca ou japa, assiste um videozinho bem didático mesmo, ou se não tem tempo, leva para casa o DVD, mais explicativos de como é feita a coleta seletiva do lixo doméstico,quando e como jogar. Enfim, se o cara, não seguir a ´cartilha´, devolvem o seu saco de lixo na sua porta e não levam embora. Jogar lixo na rua, dá cana ou multa pesada, é crime.
Acredito em campanhas quando dirigidas ao bolso dos cidadãos. Porque se a conscientização já aconteceu por que não trouxe melhoria? Porque não há penalty.
Vc falou no cigarro, logo me lembrei do Paulo Autran, que já se foi, fumante inveterado, deve ter feito pontes de safena e tudo, morreu com 85anos, e ele dizia nas entrevistas, que adorava o cigarro, a fumaça dele...
desculpe o parlatório hoje, foi demais
bjs
madoka

Lucia Malla disse...

Aline, eu acho q as campanhas são válidas (quando estão no foco da causa/temática escolhida, o q não é o caso de mtas delas). Exatamente por essa coisa do martelar todo dia, até q um dia "entra" na cabeça das pessoas. Pode até ser cansativo, mas de certa forma conscientizar as pessoas requer isso.

Como vc, tb acho q certas crises irão acontecer (o colapso dos oceanos, por ex.) independente de nossas ações individuais. Outro exemplo: os "efeitos colaterais" do aquecimento global, a gente, individualmente, pode fazer mto pouco, já q boa parte da grande contribuição poluente vem de indústrias, queimadas descontroladas, etc. algo q entra muito mais no escopo governamental q no individual para soluções.

Sobre a geração saúde, vc expôs muito melhor do q eu conseguiria. Eu trabalhei com diabetes um tempo, e vejo na questão o lado da saúde pública, da diminuição do rendimento produtivo para a sociedade que um aumento de casos de diabetes pode causar, etc. Mas, mesmo tendo plena noção destes problemas, há um abismo enorme entre ser consciente (no caso, responder às campanhas, prezar por sua saúde, etc.) e o julgamento alheio (q é o q vc cita com maestria). Mesmo porque a diversidade individual q a gente vê, mesmo dentro da mesma patologia, é enorme, e ter esse conhecimento "cristalizado" é altamente perigoso, o q gera a exacerbação da autoridade sobre a vida alheia. (Lembro sempre o caso do Stephen Jay Gould, o texto "The median isn't the message", vc conhece?)

Mas parece que as pessoas adoram culpar o alheio, nunca elas mesmas. Pq responsabilidade pesa, gera incômodo, stress, etc. (Mas tb gera sensação de bem-estar quando solucionado o "problema", eu gosto de pensar e agir com isso sempre em mente.)

(Ok, esse último parágrafo é pq já estou viajando na maionese, como de costume... :D )

Continuemos a conversa, está muito interessante. :)

aline disse...

Madoka, concordo totalmente que educação ambiental deve vir desde cedo. Aqui no Brasil há algumas escolas que incluem isso no programa infantil, é bem legal. Eu achei admirável essa maneira de lidar com o lixo. Porque eu realmente acho que as pessoas tem sua cota de responsabilidade e se o governo tem todo um sistema bem implementado e funcionando, não há desculpa para não colaborar. Quanto à multa, eu acho que é um instrumento corretivo possível, mas tenho reservas qto a ela. Geralmente funciona e rápido, essa é a parte boa, ninguém quer ficar perdendo dinheiro então entra nos eixos logo. O que eu não gosto é que não devemos incentivar a ideia de que dinheiro conserta um estrago ambiental. Individulamente dá mais certo, mas multa pra grandes empresas, por exemplo, são uma medida ruim, porque elas já lidam com o mundo todo atráves de um crivo comercial, então "comprar" danos ambientais com as multas pode ser um risco. Nesse ponto, eu não acho que seja a solução melhor.

beijos


(parlatório é sempre bom, madoka, fica a vontade!)

aline disse...

Lucia, eu não vejo como problema a necessidade de insitência das campanhas. Se é preciso passar todos os dias, varias vezes, na tv, nas revistas, no radio, pra mim, ok. Eu acho que publicidade funciona muito bem, e aplicar os métodos de divulgação por uma causa ecológica um jeito bem eficiente eficiente.
E acho que é um movimento possível: as campanhas convencem as pessoas, criam nelas a necessidade de atuação, elas cobram os governos e as empresas por medidas responsáveis e aí as coisas começam a melhorar. Acho memso que isso pode acontecer. Mas acho mais demorado e mais tortuoso.

Meu problema com as campanhas é esse, eu acho que elas são desperdiçadas, desviam de coisas mais interessantes como a chance de politizar a questão ambiental. De tornar a responsabilidade coletiva tanto pela adesão em massa das pessoas quanto pelas instituições que nos representam. Aí eu acho que esse jogo de batata quente com a responsabilidade pelo meio ambiente diminuiria.

Ah sim, vamos continuar.


ps. não conheço o texto não, vou caçar na net será que eu acho?

bjos

Rafael Reinehr disse...

Quero participar da conversa. E também, de lambuja, uma crítica acerca da Coolmeia (www.coolmeia.org e www.coolmeia.ning.com) que está começando por agora e que vai nesta de "formiguinha" e de "bater todos os dias" em atitudes individuais e comunitárias de mudança a nível local mas ocm efeito global.

Saio do consultório agora, vou jantar, logo mais tem Chat na Coolmeia e ainda hoje coloco minhas impressões por aqui.

Lucia Malla disse...

Aline, é um texto sobre uma doença... mas a forma estatística como ele encarou a doença é fantástica, e pode ser extrapolada para inúmeros outras instâncias da nossa vida. Inclusive a ambiental.

Anonymous disse...

Aqui, a coleta seletiva é apenas do lixo doméstico em geral. O processamento do lixo industrial e do lixo empresarial é responsabilidade de cada estabelecimento. E o custo da reciclagem de embalagens plásticas que corresponde mais ou menos 60% de todo lixo coletado, é arcado pelas indústrias alimentícias e pelo município. Sem contar que os eletrodomésticos nós temos que pagar para jogar fora. Por isso, antes de comprar ou ganhar qualquer coisa, temos que pensar duas vezes. rs
Bjs
madoka

Rafael Reinehr disse...

Aline, acredita que caiu um raio perto de casa e não pude cumprir minha promessa de ontem? Estou sem internet em casa! Hoje, impossível, amanhã Rio, mas volto aqui ainda para dizer o que penso. Bom fim-de-semana e boa viagem procê e pro Paulo.

aline disse...

Caramba!

Mas sem problemas Rafael, que a conversa fica em aberto, né? a gente vai levando, no ritmo mais tranquilo de um bate papo mesmo.

Obrigada!

josue mendonca disse...

Aline
acho que voce sintetizou muito bem na frase ''Não é apenas uma questão de boa vontade individual, é um problema de viabilidade, de poder de decisão''.
é justamente essa idéia que é omitida e disfarçada pelos grandes meios meios de comunicação..

(..esse era o post que eu queria um dia ter escrito...)
abraço

aline disse...

Então, isso é uma coisa que não sai da minha cabeça. Pq eu faço todas as coisas que um indivíduo consegue fazer, e é tão tão tão pouco. a gente as vezes perde a noção do quanto há pessoas com poder real, efetivo, concreto. Dessa decisões que mudam mesmo o destino de uma comunidade inteira. Tipo o que aconteceu com Cubatão. Que foi um esforço da prefeitura fenomenal, e bateu de frente com várias indústrias de lá.
Essas coisas podem ser desejadas pelas pessoas comuns, mas são consumidas por uns poucos.

abraço

Lucia Malla disse...

Bem lembrada a história de Cubatão, Aline. Foi um mega-esforço do governo local para hj ser uma vitória ambiental (de certa forma, pelo menos, pq ainda há muito poluente naquela área, mas nem se compara aos níveis do q era no passado).

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