29.5.09

entre a escolha e o aborto

Dias atrás, surgiu na caixa de comentários do Idelber uma questão sobre o uso da expressão pró-aborto, sua (in)adequãção e efeitos no debate, sobretudo em comparação com a usual pró-escolha. Eu deixei lá meus dois centavos, e mantive a conversa por e-mail num ritmo delicioso com a Lu, que, como sempre, ajuda a balizar e estruturar as ideias. E eu fico honrada mesmo de postar um texto que tem em sua gênese essa interlocução tão preciosa pra mim, com essa amiga que a Lu é. Não saberia como introduzir nem situar o debate melhor do que dizendo que sou incondicionalmente a favor da descriminalização, legalização e desmitificação do assunto, e a ele já dediquei uma série de posts. Sucintamente, eu poderia dizer que considero que os aspectos mais relevantes da maternidade são emotivos e sociais: uma mulher torna-se mãe a medida que aceita e envolve-se com a gravidez, que conta a notícia a amigos e parentes, nomeia o filho e constrói um espaço no mundo que seja dele, isto é, uma mulher é mãe quando ela quer e vê a si mesma como tal. Não é uma condição inerente da gestante. O amor materno, ou paterno, pode se dar, inclusive, entre pessoas que não tenham laços parentais, sequer biológicos. Aí está, a meu ver, a beleza da maternidade: alguém que se dispõe a amar e cuidar de outro alguém, que se coloca como responsável e mediador entre uma criança, um adolescente e o mundo, que aceita remodelar uma parte da própria identidade e da vida. A maternidade envolve uma espécie de comprometimento que nem todas as mulheres que se descobrem grávidas estão dispostas a assumir, por motivos tão variados quanto variadas são as vidas. E se há mulheres que não querem e não se vêem como mães, não há como obrigá-las a serem sem constituir, com isso, uma violência.
Tenho isso em mente quando digo que a expressão pró-escolha é mais adequada num contexto em que se "afirma a condição da mulher como sujeito de direitos e obrigações, detentora do direito inalienável de fazer suas escolhas e de determinar sua vida", como bem disse Fabiano, num dos comentários mais bonitos lá no Biscoito. Acontece que as mulheres que fazem um aborto, hoje, o fazem apesar de terem contra si a ameaça de penalização e a hostilidade social. E com isso, a meus olhos, elas já exercem seu direito de escolha, sua condição inalienável de sujeito e determinante da própria vida. Quero dizer, ainda que sob as piores circunstâncias e consequências, as condições para que a escolha seja feita estão minimamente dadas e pode ser equivocado supor que o debate, a descriminalização e a legalização precedem o direito de escolha. Evidente, o aval institucional fará com que as circunstâncias sejam menos sofríveis, evitará estelionatários e charlatães, evitará clínicas imundas e o risco de morte, evitará sobretudo o braço pesado do código penal. Tanto é assim que as campanhas ditas "pro-vida" combatem o aborto no nível da escolha feminina, no convencimento de que é melhor (espiritualmente, moralmente, etc) manter a gravidez e preservar a vida do feto. Por mais que se rejeite a validade dos argumentos, eles são isso, argumentos, e se apresentam com o intuito de influenciar a escolha.
Assim, quando os pro-choice defendemos o direito de escolha, estamos na verdade reivindicando ao governo o reconhecimento do direito de escolha, a viabilização técnica do pleno exercício de escolha das mulheres. Escolha, aliás, que se faz diante de apenas dois pólos: manter ou não a gravidez, ter ou não a criança. A escolha pela manutenção da gestação está mais do que assegurada, abençoada e defendida. Ela só se desdobraria, neste contexto, em alguma política referente a orfanatos e campanhas de estímulo a adoção. Que, em si, não aliviam em nada a decisão das mulheres que não querem absolutamente manter a gestação, não querem ou não podem conceber um criança. Essa possibilidade "pró-vida" se impõe o tempo todo sob a forma do dever e da celebração da maternidade, e de valoração da vida do feto em detrimento da vida da mãe. E mesmo àquelas que já abortaram, a possbilidade "pró-vida" muitas vezes permanece como um fantasma, como a boa e velha culpa.
Diferente do discurso "pró-vida", que toma partido por uma das possibilidades e apresenta inúmeros motivos para não abortar, o discurso pro-choice não tem nenhum argumento próprio que vise o convencimento de uma grávida a abortar, e nisso, sim, somos pró-escolha. Mas uma vez que a escolha é única, individual, instransferível e particular de cada gestante, o que nos cabe é focar no apoio àquelas que optam pela interrupção da gravidez, ocupando-nos da garantia de respeito aos motivos que levam ao aborto, da garantia de condições médicas para que se faça um aborto, da garantia legal de que ninguém no processo de abortamento será criminalizado, da garantia de que ninguém tenha o direito de expressar repulsa ou ódio contra uma mulher que abortou. Eu me sinto comprometida com as mulheres que já escolheram ou que escolherão pelo aborto, simplesmente porque o caminho que nós escolhemos é o mais cheio de adversidade e sofrimento, é o mais solitário, é por onde as pedras são jogadas com mais força e intensidade. O aborto é a possibilidade que mais carece de suporte e desmitificação. É isso que eu quero dizer quando afirmo não me ofender com a designação pró-aborto, porque nesse sentido, eu sou, sim, pró-aborto. Pois pra mim, o discurso pró-aborto está inserido dentro do pró-escolha, é uma questão de recorte. Eu defendo que o aborto deixe de ser uma escolha marginalizada, diante das leis e das pessoas, e que conte com o mesmo aparato médico que um parto.
Uma das ressalvas que mais encontro, nessa rejeição da nomenclatura "pró-aborto", é que ela leva a impressões erradas quanto à nossa intenção. Que a expressão pró-aborto dá a entender que eu defendo que todas as mulheres abortem, que o aborto seja feito em massa ou levianamente. Acho simples descontruir esse argumento, na verdade: não quero que o aborto seja compulsório, quero que seja permitido. Ninguém minimamente esclarecido sustentará uma impressão dessas, de que há pessoas que defendem o aborto coletivo ou qualqur coisa que o valha. É preciso estar numa situação de confusão mental muito grande, ou má-fé mesmo, pra atrelar essa ideia estapafúrdia a um discurso tão libertário e humanizador. Aborto é a palavra que designa o procedimento cirúrgico que interrompe uma gravidez, não é uma palavra pejorativa, nem de baixo-calão, nem nada. Se há algo de chocante e repulsivo na palavra, se ela por si só basta pra que as pessoas introjetem a noção de assassinato, infanticídio, se há uma malignidade intrínseca à palavra e sua enunciação, isso é tão-somente o resultado de um bem-sucedido processo de moralização da maternidade e da gestação. É o objetivo do discurso auto-intitulado pró-vida, que procura fortemente associar aborto a morte, a crime, a horror, a tudo o que nos apavora e angustia. Se a reação à palavra aborto é tão visceral, bem, então eu acho que a necessidade de quebra do tabu é ainda mais urgente. Porque, vamos convir, trata-se de um tabu.
Tenho pra mim que eu preciso delimitar também os limites dentro dos quais eu aceito a interlocução. Eu me pergunto se há debate possível com pessoas que já decidiram e cristalizaram que aborto é um crime, é uma coisa horrorosa e nojenta, sai-pra-lá. E, se sim, eu me pergunto se é interessante que eu deixe a repulsa delas ressignificar as palavras e os conceitos a ponto de eu recear a impressão que sua mera enunciação causa. Não acho que valha a pena. Eu prefiro diminuir minhas possibilidades de interlocução, prefiro me arriscar a chocar as pessoas para, afinal, observar quem se dá ao trabalho de questionar a si mesmo se é o aborto ou o preconceito que desumaniza e mata as pessoas.

26 pessoas pararam por aqui:

aline disse...

e eu sou sua fã, boba. :******

eu que agradeço. não ia dar pra escrever sem a conversa toda. to feliz mesmo de ver que rendeu dois posts desse tamanhão, feliz de ter conseguido escrever um texto com coisas novas e diferentes do que eu já tinha escrito.

lu disse...

“Diferente do discurso “pró-vida”, (…) o discurso pro-choice não tem nenhum argumento próprio que vise o convencimento de uma grávida a abortar, e nisso, sim, somos pró-escolha. . . . a escolha é única, individual, instransferível e particular de cada gestante.

Se há algo de chocante e repulsivo na palavra, se ela por si só basta pra que as pessoas introjetem a noção de assassinato, infanticídio, se há uma malignadade intrínseca à palavra e sua enunciação, isso é . . . o objetivo do discurso auto-intitulado pró-vida, que procura fortemente associar aborto a morte, a crime, a horror, a tudo o que nos apavora e angustia.”

é ISSO que eu queria dizer! seu post está lindo, obrigada por tê-lo escrito, mesmo. que legal que eu fiz parte da sua criação, na nossa conversa. sou sua fã :*****

gugaalayon disse...

Assunto frágil. Desenvolvimento perfeito.
Por toda e qq liberdade das seres vivos nãofetos
ótimos post e links(acompanhei tudo lá no idelber0
bj

Mariê disse...

Excelente post, com os argumentos corretos entre pró-escolha e pró-aborto.
Eu, pessoalmente, faço a ‘escolha’ pelo pró-aborto porque acho que é necessário, além de tudo o mais, desmistificar a palavra. O ato. Acho pó-escolha meio ‘tucano’ demais.
Às claras fica mais factível. É o que acredito.
Abç

aline disse...

brigada, marjorie.

Marjorie disse...

lindos lindos os posts das duas.

aline disse...

Oi Suzana

Eu já tinha lido essa reportagem, e tbm já conhecia o dado quando eu fui atrás de informações no ministério da saúde.
As mulheres de baixa renda acabam tendo que praticar o aborto caseiro, geralmente elas se machucam no processo, e só vão pro hospital se a situação ficar muito crítica mesmo. Poucas coisas me deixam mais arrasada do que pensar no relato de uma mulher que chegou no hospital sangrando, com dores, e foi algemada num leito enquanto as enfermeiras chamavam a polícia.
Esse dado de mortalidade materna, que é uma questão de saúde pública, se aproxima em muito do nosso padrão de criminalização e encarceramento. O negro e pobre é colocado numa situação de abrutalhamento, de descuido total.

Um beijo, Suzana

Suzana disse...

Oi, Aline;

Da Agência Estado:

“Um novo estudo sobre a mortalidade de mães no Brasil revela que o risco de morrer por aborto é muito maior nas mulheres negras e pardas do que em grávidas brancas, o que leva especialistas a questionar se a criminalização do procedimento estaria punindo apenas alguns grupos raciais. Segundo o trabalho do Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio, apresentado durante o seminário Mortalidade Materna e Direitos Humanos no Brasil, o risco de morte de uma grávida negra cuja gestação terminou em aborto é 2,5 vezes maior do que o de brancas.

Nos últimos quatro anos o instituto vem se dedicando a radiografar o aborto no País e, depois de mostrar que sua frequência reflete as desigualdades - ocorrem mais entre mulheres negras e pobres -, foi investigar se havia também diferenças na mortalidade, considerando registros de 2003 a 2005. Os especialistas apontam que é possível que a descriminalização do aborto, se um dia aprovada no Brasil, reduza o índice de complicações e mortes - atualmente é crime, só permitido em caso de estupro ou risco de morte para a mãe. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.”

aline disse...

Mariê,
eu gostei muito dos seus comentários no biscoito, só não falei mais pq não queria ser mala, era pros outros falarem tbm.

eu prestei atenção no que vc disse, achei q vc ia gostar desse post tbm. Eu gosto muito da expressão pro-escolha sobretudo porque ela gera uma oposição necessária: os contrários são anti-escolha. E tem o maior interesse em fazer dessa palavra o sinonimo de tudo o que há de pior no mundo. Não aceito que as palavras sejam manipuladas assim, pra efeitos moralizantes e catequizantes.

Mas “pro-escolha” é tucano? hahahahahah como assim???

um beijo, Mariê.


Eu fico muito contente de ouvir de vc que é um “desenvolvimento perfeito”, Guga, de verdade. Obrigada.

É um assunto delicado sim, e eu acho que ele vai ficar em pauta por muito tempo, porque há uma sacralidade na vida do feto que supera inclusive a vida da mulher. Acho triste e hipócrita.

beijo, Guga.

aline disse...

ahahhahahahahahahhaha

eu conhecia o simão, mas há tanto tempo que eu não lia…. tinha esquecido do anti-tucanês!

adorei, adorei!

beijos!

Mariê disse...

Aline, a expressão ‘tucanou’, se não me engano, foi cunhada pelo Macaco Simão. Ele a usa sempre que se altera um termo para sua versão mais light ou se substitui por um eufemismo.
Bj

aline disse...

Eu lembro também do seu comentário, lembro que gostei bastante da sua expressão “pro-direito ao aborto”, acabei não incluindo no texto porque eu fiquei com receio de o texto ficar grande demais. Mas era intenção a princípio falar dessa nomenclatura. No fim das contas, eu ligo menos pros nomes do que pras posturas. Gosto, com tranquilidade, de pro-escolha, pro-aborto, e pro-direito ao aborto. Todas elas são adequadas, respondem a um aspecto do assunto, que é muito complexo, que exige clareza e sensibilidade.

A única que eu desgosto mesmo é pro-vida, porque é desonesta conosco.

A Lu bate um bolão. Pra mim, ela faz o melhor blog ever. Eu falei pra ela que me honra e me alegra ter essa conversa tão estreita com ela, essa convergência de pensamento e interesse, e postar um texto em que ela esteja tão presente. Sou tiete total.

Um beijo, Ricardo

Ricardo C. disse...

Assunto duro. Eu não tenha dúvida sobre ser a favor do aborto e desfavorável ao uso da expressão “pró-escolha” — “tucana” demais para o meu gosto, para usar a felicíssima definição da Mariê.

Discuti sobre isso lá no Idelber e falei, se não me falha a memória, que preferiria “direito ao aborto” do que “pró-escolha” mesmo que a primeira não seja tão sonora, e que acredito que a segunda funcione melhor em inglês e nos EUA, onde o seu uso parece consolidado. Em português não funciona a contento.

De resto, você e a Lu batem um bolão, para não variar.

Beijos

madoka disse...

Perfeito Aline, vc escreveu de forma tao esclarecedora. Vou ler os posts anteriores com tempo. O importante é o debate mesmo, sobre assunto tão polêmico aí no Brasil. Sou a favor do direito de escolha da mulher, e absolutamente a favor da legalização do aborto. O problema é das pessoas evitarem falar com respeito, e clareza como vc fez aqui. Vc fala que ´uma mulher torna-se mãe a medida que aceita e envolve-se com a gravidez, que conta a notícia a amigos e parentes…´ E o grande número de adolescentes que ficam grávidas no Brasil ? Nem isso.
Quantas de nós não conhecemos jovens em idade escolar grávidas? E quantas não fizeram aborto em condiçoes precárias, procuraram pronto-socorros e não foram atendidas ? Preconceito. A realidade aqui é bem diferente, colega minha grávida na clínica ginecológica já perguntam de antemão se não querem interromper a gravidez! Tá certo, nem dá pra comparar é outra realidade. Mas que existe essa realidade possível né. Aqui foi legalizado logo após a 2a.G, mas já é outro papo.
O debate nacional, é absolutamente necessário.
Um beijão e bom domingo
madoka

Paulo Cunha disse...

Quando a gente concorda muito com algo, começa a achar pêlo em ovo…

Fim do argumento: PONTO PARÁGRAFO, antes de se esborrachar no chão.

Pronto, dei minha contribuição mui crítica.

Fora isso, assino onde?

lu disse...

:***
meu blog favorito ever é esse aqui
[/momento rasga-seda]
(eu fiquei offline durante o dia e agora preciso urgente falar contigo, cadê?)
(rachando de rir com a “juventude acumulada”)

Linkage « Marjorie Rodrigues disse...

[...] – Sobre aborto: Aline e Lu dialogam sobre as denominações pró-escolha e [...]

aline disse...

Oi Kiko

Vou tentar ser clara e sucinta na resposta, mas na verdade dá pra escrever litros pra responder.
O que eu penso sobre o feto é que ele é uma pessoa em potencial, mas não é uma pessoa. Ele depende absolutamente da mulher para existir, biologicamente e subjetivamente, e eu dido isso pra deixar claro que pra mim a relação entre gestante e gestado não é apenas fisiológica. O problema é que uma gravidez indesejada não propõe e nunca vai propor uma uma equação equilibrada, ela absolutamente não é igual a uma gestação desejada. Em seu cerne há um descompasso, um descontentamento, uma incompatibilidade. E a prerrogativa é exclusivamente da mulher, posto que o feto não tem nenhum poder de decisão, objetividade, etc. E não tem como mais ou menos engravidar, mais ou menos abortar: ou você mantém a gravidez ou não mantém. Em qualquer uma das situações, haverá uma “perda”: ou a mulher cede, mantém a gravidez e abdica dos motivos que a levaram considerar o aborto, ou ela abdica da gravidez, e por óbvio do feto, e preserva o que quer que a tenha feito preferir não gestar.
Essa decisão, é muito importante repetir, é dela. E nesse processo de decidir, a mulher considera quase o tempo todo esse outro ser, essa pessoa em potencial que depende dela e de ninguém mais. A liberdade dele, assim como sua existência, é potencial, virtual, simbólica.
A gravidez indesejada não se apresenta como um problema qualquer, que se resolve um cinco minutos. Envolve conflito, responsabilidade, consciência, angústia, exige um repensar a própria vida, e tal. Essa equivalência entre a vida do feto e da mulher só pode ser feita pela mulher no momento de decidir se leva adiante ou não uma gravidez que ela não planejou, não quis etc. Quando eu digo que a vida dela deve ser priorizada, é sobretudo na perspectiva de quem é externo à situação e porventura use da estratégia de agregar valor à vida do feto, que é uma pessoa em potencial, em detrimento da vida da mulher, que é uma pessoa de fato. É cruel e errado jogar na cara de uma gestante, ou ex-gestante, que a vida do feto vale mais do que qualquer motivo que ela tenha pra não querer ser mãe. Porque, voltando ao que eu disse logo no começo, ser mãe envolve muito mais do que uma ligação biológica, e não é necessaria e intrinsicamente uma coisa boa, uma dádiva. A obrigação da maternidade pode trazer muito sofrimento, muita frustração. Então, em face dessa perspectiva negativa na vida de uma mulher, eu acho que não nos cabe especular sobre a vida do feto que ela descartou.
Mas, novamente: isso diz respeito apenas às mulheres que decidem abortar. As outras que voluntariamente engravidaram ou permanceram grávidas enquadram outra equação, muito mais equilibrada, feliz e promissora, e por elas eu fico mui contente.

Pois é, como se vê, meu poder de síntese é zero. No mais, agradeço o elogio, e a inclusão na sua seleta lista de blogs. Fico lisonjeada, mesmo. :)

Beijos

Kiko disse...

Olá, Aline!

Conheci teu blog através da caixa de comentários do Idelber e de indicações dele noutro post. Achei brilhante tua argumentação, mas tenho um questionamento a fazer:

E quanto ao embrião/feto que também é um dos personagens do ato abortivo?

Vi que você abordou bastante o aspecto da liberdade da mãe em optar pelo aborto, mas gostaria de saber sua opinião a respeito do outro ser ali envolvido, independentemente de qualquer visão ideológica.

Será que a vida deste no útero materno não merece ao menos uma equiparação à vida da mãe, a ponto de confrontar-se com a liberdade dela em optar por abortá-lo?

No mais, parabéns pelo blog. Vai figurar no meu ainda modesto blogroll.

Beijos.

aline disse...

Madoka,

minha sogra é pediatra e ela sempre diz que a curva de fertilidade no brail começa aos oito anos. Nós temos um número cada vez maior de crianças e adolescentes grávidas, e eu já ouvi muita gente dizer que é contra aborto em caso de gravidez na adolescência porque a adolescente tem que “aprender a ter responsabilidade”. Nossa relação com essas maternidades é de natureza punitiva: tem que ter o filho pra aprender algo, pra pagar por algo, que é nada mais nada menos do que o sexo. Como se o sexo fosse um ato de irresposabilidade, de descuido, um pecado cujas consequências devem ser assumidas radicalmente.
A legalização do aborto nunca vem sozinha, é um passo que inclui educação sexual, mobilização de entidades e grupos envolvidos com a saúde da mulher, planejamento familiar, direitos reprodutivos e valorização da mulher. Acho fundamental, saudável mesmo, que uma sociedade desenvolva e priorize essas coisas todas.
Concordo muito com vc, o debate é absolutamente necessário. Eu fico contente mesmo de encontrar interlocutores, como eu disse ao Paulo aí em cima.

Um beijo de bom começo de semana pra vc.

aline disse...

Ah, obrigada. É bom encontrar intelocução, sempre. O assunto pede mais e mais vozes.

Beijo, Paulo

Stella disse...

nossa, aline, excelente post! fico impressionada com a sua capacidade de elucidação. tão simples, tão fácil e tão direto.
parabéns pela seriedade e sensibilidade ao abordar um assunto tão delicado!
clap clap clap!

Iara ;-) disse...

Oi!

Valeu ter lido um pouco mais aqui e no blog da Lu. É, pensando bem “aborto” vira uma palavra feia porque o preconceito quer assim. E sim, usar pró-aborto no lugar de pró-escolha é mais incisivo. Estranho eu ter pensado no contrário, porque, normalmente, sou contra eufemismos, gosto de dar as coisas o nome que elas têm.

Quero tanto que chegue o dia em que essa discussão seja superada, em que ninguém ache que uma mulher deve tornar-se mãe “por força da lei”.

aline disse...

Eu concordo com tudo o que vc diz, Iara, sobre o aborto e as circunstancias em que ele se apresenta. E veja que toda a discussão sobre qual nomenclarura adotar só faz sentido num contexto em que há um forte movimento contrário, geralmente de cunho religioso, que tenta barrar toda e qualquer mudança na legislação sobre aborto. Só faz sentido dicutir se somos pro-escolha ou pro-aborto porque estamos (ainda!) implicados num debate superficial e moralista sobre direitos reprodutivos e saúde da mulher.
Eu não tenho nada contra a palavra. E mesmo o procedimento, que envolve de fato uma situação delicada, não implica necessariamente em dor e sofrimento. Isso foi uma coisa que o texto da lu trouxe de maneira belíssima: o aborto as vezes pode ser um alívio. Pode ser uma solução, um desfecho tranquilo (se for feito de maneira respeitosa ao corpo da mulher). Eis o porque de eu escolher a expressão pro-aborto (ou pro-direito ao aborto), dentro desse contexto em que as palavras e os argumentos se fazem muito necessários. Porque estou me pautando quase exclusivamente no impacto que eu pretendo ou imagino provocar em meus interlocutores, porque a situação posta é de debate. Uma vez que a sociedade aceite melhor o aborto, toda essa discussão se mostrará obsoleta, boba até.

O tabu é social, né? É algo meio interditado, meio escondido em determinadas comunidades e persiste mesmo quando alguns indivíduos já elaboraram suas trangressões a ele. O engraçado é esse choque cultural, que evidencia o quanto as palavras podem ser esvaziadas, o quanto a sacralidade que nós conferimos a alguma coisa se mostra totalmente perdida em comunidades que estão a nosso alcance. Adoro isso.

Obrigada pelo elogio, e comente sempre o quanto quiser!

Iara ;-) disse...

Poxa, acabo de descobrir o blog. Meu namorado me enviou o post sobre Kafka e a USP. Também fui aluna do Pasta, aliás.

Por isso chego tarde a esta discussão (pelo menos, neste post, já que discussão é tão atual). Ainda sim, não vou me abster de comentar, mesmo que não ecoe.

Seu post é excelente. Mas entendo a resistência ao termo pró-aborto, e apesar de gostar de dar às coisas o nome que elas têm, acho que pró-escolha soa melhor.

O que acho é que a escolha é algo que deve ser defendido e celebrado. Mas o aborto é uma solução dolorosa, um remédio amargo. Sim, é uma questão médica, mas não é um procedimento banal como extrair um apêndice inflamado. E com isso não estou julgando quem opta por ele, pelo contrário. Só entendo que esta não deve ser uma escolha sem uma carga de angústia e sofrimento. E, pela dor a que ela me remete (embora não faça parte da minha experiência pessoal), não gosto da palavra.

Acho também pró-escolha mais amplo. Porque a descriminalização do aborto deveria vir acompanhada de um suporte social e psicológico para uma gestante de gravidez não desejada. E, ao contrário do que ocorre hoje, ela deveria ser amparada qual fosse sua decisão. Porque uma menina de 17 anos, se ouvida e assistida, pode mudar de idéia e resolver ter a criança, ao passo que uma mulher de 30 anos pode decidir que realmente não quer ser mãe. Reforço que não acho uma decisão melhor do que outra. Mas acredito piamente que esta escolha deva ser feita com toda a tranqüilidade possível e não num momento de desespero. E sabemos que não é assim que acontece na maioria dos casos.

Pra terminar, termino comentando o quanto um tabu pode estar internalizado. Sou pró-escolha há muito tempo. Quando vivia como au pair na França, minha prima de 17 anos ficou grávida. Contei isso num jantar para a família com que eu vivia. Quiseram saber se ela era religiosa, e respondi que não. Então me perguntaram por que ela não abortava. E eu me choquei. Não pela possibilidade do aborto - talvez seria a minha decisão se tivesse engravidado na idade dela. Mas pela pergunta feita na mesa de jantar por pessoas com as quais eu ainda não tinha nenhuma intimidade. Respondi brevemente que aborto no Brasil, além de crime, era tabu, e foi a vez deles se chocarem.

Impressionante quantas linhas a gente gasta discutindo algo que, em outro país, é uma questão de saúde pública, não de julgamento moral.

Desculpe por ser prolixa, e parabéns mais uma vez pelo texto.

aline disse...

Ah Stella, eu agradeço demais. Mesmo.

um abraço

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