27.5.09

let them be

Pra mim é nítido que os nerds não precisam de defesa. Depois de uma década da doçura e insegurança do Ross, entramos na era Sheldon, mais ríspida e potente, e que há de durar. Há mangás e super heróis no cinema, temos computadores pra praticamente qualquer coisa, a internet é absolutamente indispensável, o discurso científico reina absoluto na estima social e garante boa parte das verbas de pesquisa deste mundo. Dá licença, que já é clichê: estamos na era da in-for-ma-ção. E os nerds só existem num contexto em que haja conhecimento e condições de possibilidade para produção de mais conhecimento. Então, sim, o mundo é deles. Não vou eu gastar uma palavra do porte de "preconceito" pra falar da postura das pessoas em relação aos geniozinhos da raça, porque não é o caso mesmo, mas eu acho que há uma certa antipatia em relação a eles.

Get a life, Dude!

O básico é reforçar aquela ideia de que eles não tem vida. Tecnicamente, se até um vírus tem vida, então os geeks também têm, porque isso é definido por processos biológicos e os nerds, enquanto mamíferos, vivem. Desconfio, entretanto, que não é esta a conotação: que o negócio é dizer que os nerds não tem vida de verdade, aquela intensa, plena, fresca, prazerosa, arriscada, imprevisível vida... que, na boa, quase ninguém tem, excluindo o agente 007 e as pessoas dos comerciais de pasta de dente. Então alguém lê Senhor dos Anéis semestralmente, joga RPG, manja de cálculo e conversa sobre ciências naturais e de repente ouve que esse é um modo de vida ruim. Eu nem acho. E também não tenho coragem de perguntar "pra que serve?" o monte de coisas que um nerd costuma saber. Eu vejo uma grande diferença qualitativa entre saber de cor Lílitchka! e conseguir conversar em élfico sobre qualquer banalidade ou achar que o C++ é tipo uma segunda língua, mas veja bem, essa sou eu. As coisas de que eu gosto servem pra mim, uai. Cada com com a sua xp.

Tem mais, ó. O mundo geek está por toda parte. É melhor correr pras montanhas, se você não gosta da ideia. E nem pense em twittar pelo celular de lá. Meu recente vício procrastinador, por exemplo, é um jogo delicioso e com um potencial nerd considerável. Chama Crayon Physics e funciona assim: tem uma bolinha vermelha e uma estrela, é preciso fazer a bolinha chegar até a estrela, desenhando rampas, fazendo roldanas e pesos, cordas, polias, esteiras, gangorras, catapultas, caixas. Cada cenário propõe condições diferentes e os gráficos seguem as leis físicas direitinho, então é preciso ficar maquinando e criando jeitos pra fazer a bolinha chegar até a estrela. Há várias soluções possíveis. Claro, há soluções mais e menos elegantes, mas aí é estilo. E o gráfico do jogo é lindo, ele parece um papel velho com rabiscos infantis:

E esse jogo está causando no meu entourage. Estamos definindo metodologias, todos nós. Paulo é o maior gambiarra do planeta. Nossa, as soluções mais caóticas. Ele vai desenhando e improvisando conforme surgem consequências pros desenhos dele. Destrói os elementos do cenário e se diverte. Daí que a solução dele é sempre uma baderna, mas acaba funcionando. Eu sou mais esbanjadora, quero usar quase todos os recursos possíveis, desenhar três polias pra fazer a bola chacoalhar antes de tocar na estrelinha. A solução fica parecendo uma versão da abertura do Rá-Tim-Bum. O Filipe é um espírito pragmático, ele acha que o jogo deve ser solucionado da forma mais rápida e clean possível, sem remendos. A Dani aposta em soluções mais práticas também, mas difere do método do Fi.

Bom, é isso, melhor ir deitar que amanhã é dia de batalhar pelo brioche (te dedico, Arthur). Que a força esteja com vocês. Boua noite, gente, deuzabençoi.

4 pessoas pararam por aqui:

aline disse...

Pois é, são dois campos conflitantes e igualmente atuantes hoje: a celebração da virilidade e da inteligência. Eu digo conflitantes porque é um clichê nosso compensar feiúra com inteligência e burrice com beleza. Numa comédia, os nerds conquistam garotas e transam, porque a quebra da expectativa é engraçada.
É um contexto completamente machista esse, em que mulheres são prêmios ou sinalizadores de sucesso. Acho que por isso há menos mulheres nessas representações de nerds, nos filmes e no imaginário mesmo, porque o espaço feminino nessas histórias é outro. Pensei em outra coisa: os nerds geralmente são considerados como homens imaturos, que não se desprendem de gostos e interesses mais juvenis. Aí tem aquela coisa de a mulher ser mais madura, e estar mais inclinada a não se interessar por jogos e etc, que pode ser um jeito de sexualizar as meninas antes dos meninos, mas esse já é outro papo. Tudo isso que a gente falou dá pra ver em Big Bang Theory, aliás.

Haline disse...

Tem coisas que reforçaram esse lance de “ser nerd não é tão mal”. Bill Gates é uma delas. Filmes como “a vingança dos nerds”. Mas o lucro final tem que ter sempre símbolos de diversão: dinheiro, mulheres e etc. Senão ninguém gosta de ser nerd não. Já reparam que poucas meninas são chamadas nerds? Pq ainda é sinonimo de feiura e tals. Meninos não. Tá cada vez mais vinculado a inteligência, poder, dinheiro, domínio de tecnologia. E qual seria o lucro final? Com tudo isso eles ganham mais meninas. Meio filme mesmo. O cara chatinho e introspectiva continua fora de cena. Essa era o cdf antigamente.

aline disse...

Também eu cresci considerando o nerd como um sinônimo de cdf, que era o aluno exemplar, estudioso e comportado. Hoje, parece, nerd é uma palavra multireferenciável, ela aponta para traços e comportamentos bem variados entre si. Aliás, se todos as características deram suporte a mais de uma caricatura, é porque a variedade é muito perceptível e já pode inclusive ser matéria de piada, testes, descrições, etc.
Eu fecho com vc: a aceitação do nerd tem a ver com o mercado e com a valorização de um universo que está imediatamente relacionado a eles, a tecnologia. E isso evidencia um tipo de nerd em detrimento de outros, cujas áreas de interesse são menos vendáveis, ou são vendáveis apenas dentro de um círculo mais restrito. E o sucesso comercial desses produtos (ipods, jogos, laptops,celulares, bla), afinal, também ajuda a moldar o público que enxerga e compartilha um pouco desse mundo geek e que garante o status cool de um nerd. Como eu disse, hoje em dia todo mundo é um pouco nerd, se nerd é alguém fluente em ferramentas de comunicação e no mundo virtual. Se vc assiste Big Bang Theory e é capaz e entender e rir boa parte das piadas deles, então há um alinhamento e pertencimento a esse universo. Eu acho, aliás, que o conceito tenderá a se dissolver, a medida que as pessoas naturalizam o saber tecnológico e crianças lidam com um computador com tanta simplicidade.

beijos
(transmimento de pensação, é isso que tá acontecendo? hahaha)

Marjorie disse...

ok, está rolando muita transmissão de pensamento entre a gente, estou ficando com medo. Tô com um post preparado sobre nerds também.

Porque eu acho que agora, com toda a informatização e blá, nerd virou sinônimo de geek. E, quando eu era mais nova, nerd era a pessoa que estudava bastante e tirava boas notas, o famoso CDF. E eu acho que esse elogio ao geek, antes considerado estranho, hoje bem menos, tem muito a ver com o mercado. Quanto mais cool virar o geek, mais coputadores, jogos e ipods se pode vender.

No entanto, e outros tipos de nerd? Os que não são tão aficcionados por tecnologia? Acho que eles andam aparecendo bem menos, porque é um nicho de mercado menor. Basicamente, o nerd/geek, de escurraçado foi alçado a tribo — só mais um grupo que se define pelo que consome.

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