8.5.09

a revolução das coisas



Eu estava tão impaciente pra ver O Leitor que mal consigo justificar pra mim mesma a demora em fazê-lo. Não deu tempo de ver esse filme no cinema, fazer o quê. Bora baixar e ver em casa. Foi o que a gente fez, e ontem, quando o último bite de filme finalmente foi capturado, eu parecia criança no pé da árvore de natal. Conversão, legenda, som, tudo ok. Luzes da sala apagadas, sofá confortável, Paulo com instruções claras de não contar piadinhas nem dar explicações científicas sobre nada, absolutamente nada relativo ao filme durante a nossa petite séance. E aí. Nosso dvd resolve mostrar a que veio. Temeis, que anuncio a subjugação dos homens pelas máquinas. Já aconteceu, foi ontem e foi comigo: o aparelho decide bugar a cada 10 minutos de filme. É preciso reiniciar a máquina toda vez que ele trava. E fazer avançar o filme, na raça e na base do ffwrd, até alguns segundos depois do ponto de conflito, sob pena de nova pane. Cada pausa forçada levava em média um minuto. Vejam bem: um minuto de pausa a cada 10 minutos de filme é espaço de tempo o bastante pra constituir tortura; não é tão longo que inviabilize a sequência e te faça desistir, não é tão curto que se torne inofensivo e facilmente suportável. E é preciso dizer, com absoluta imparcialidade e equilíbrio, que as panes de nosso malévolo aparelho de dvd se davam nos momentos cruciais do filme. Todas as cenas de ápice erótico, dramático, todos os momentos de suspense e revelação eram abruptamente interrompidos. Não sei quantos nós na garganta, quantas respirações alteradas e olhos estatelados simplesmente se desfizeram com essa máquina desmancha-prazeres.
Apenas quando contabilizamos 1h40m de filme corrido, ou seja, 10 pausas obrigatórias, eu percebi. A intenção de nosso aparelho de dvd. Sua proposta estética para nós, seres sem circuitos em placa de zinco nem termo de garantia. Estilhaçando nosso envolvimento com as dores de Hanna Schmidt, brechtianamente, nosso peculiar aparelho de dvd nos ensinava sobre distanciamento e crítica. Revogou a quarta parede digital (ou seria a segunda, por conta da espessura das atuais telas planas?) e com ela, nossa alienação. A dura realidade, a louça em cima da mesa, os barulhos das crianças do vizinho e a qualidade dos produtos LG, tudo caía sobre nossos ombros recém-despertos enquanto a bela Kate Winslet (e não a Hanna, porque a Hanna não existe) permanecia estática na nossa tevê.
Mas, ô saisons, ô chateux, quelle âme est sans défaut... Receio dizer que falhamos miseravelmente nessa empreitada do aparelho de dvd. Nos minutos finais, quando o desenrolar do enredo já tomava rumos definitvos e emocionantes por demais, não suportamos o peso da consciência: corremos pro computador pra assistir ao restinho do filme na paz burra da passividade, que de carne, vícios e curiosidade somos feitos.
Contudo, estamos um pouco ressabiados e constrangidos. Não ousamos religar o aparelho de dvd, desde então. Concordamos em dar-lhe uns dias de folga, e desejamos que sua frustração para conosco não se desdobre em ódio de classes, ops, de materiais. Vai saber se ele não se põe a cooptar e organizar os aparelhos todos aqui de casa. Que Tutatis nos livre de uma rebelião dessas: fogão, geladeira e microondas dispostos a nos tornar crudicistas. Máquina de lavar jogando cândida nas peças coloridas, mostrando que a essência das roupas é construída no uso que delas fazemos. Só que hoje o despertador recusou-se a tocar no horário de sempre, e assim Paulo viu-se numa situação complicada frente à organização burguesa das horas de seu dia. Esse computador pareceu piscar de maneira incomum esta tarde. Os leds vermelhos estão mais agitados.
Sinto que algo está por vir. Mando notícias do front, se possível for. Por carta, talvez, se os sms começarem a criptografar as mensagens. Ou talvez usemos pombos. Nunca se sabe.

9 pessoas pararam por aqui:

Haline disse...

pois é, McLuhan explica isso dizendo que toda tecnologia é pra extender nosso corpo. o mais clássico é a calculadora e tals. então dvd seria uma extensão nossa também, dai a angústia. é tipo perder um braço. aconteceu isso comigo naquele filme do will smith "The Pursuit of happyness", esqueci o nome em portuga. o filme tinha cenas previsiveis, mas como me falaram q ele atuou muito bem e tals, tava prestando atenção nisso né. cara, toda vez q o cara tinha uma cena mais dramática, o filme parava. surreal. ce gostou afinal do leitor? ainda não vi também não. gostei muito, muito mesmo do "foi apenas um sonho". bjobjo

Arthur disse...

Eu acho que a revolução das máquinas já aconteceu, e na verdade esses pequenos indícios de rebeldia são só um aviso para que nos lembremos de quem realmente controla nossas vidas. 8[

aline disse...

A procura da felicidade... em portugues perdeu o tchans do erro em inglês, uma pena...

eu gostei bastante do leitor, haline, bastante mesmo. eu ia escrever sobre ele, mas essa cronica saltou na frente e foi irresistível não escreve-la antes. os bugs foram reais, alias, rolou mesmo. quase morri. hahahaha

arthur, estou de olhos bem abertos aqui. :)

bjos pros dois!

aline disse...

eu to me perguntando se faz sentido escrever "foi irresistível não escreve-la antes", mas eu mesma buguei e agora não consigo pensar em outra formulação. mas sou toda ouvidos, se alguém quiser remenda-la. :)

Haline disse...

já baixei. aguardo suas impressões! bjobjo

Daniele disse...

cada um tem os eletrônicos que merece... ¬¬

aline disse...

eu escrevo logo, haline. mas assista, oh, assista!


dani. não seja abusada!

Evelin disse...

Pombos foi ótimo!

aline disse...

\o/

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