1.6.09

da leve, sutil tristeza

Eu já estava um pouco triste quando acordei, hoje, pelo fim da manhã. Às nove e meia a Dani tentou me acordar pelo telefone, é um acordo que nós temos, ou melhor, é um acordo que ela fez sozinha comigo: me fazer acordar mais cedo pra que eu aproveite melhor o tempo, o frescor matutino, as horas de sono. Eu acho bobagem e quase sempre volto a dormir, mas não desfaço esse acordo porque gosto de acordar às nove e meia com o nome dela no identificador de chamadas, gosto de pensar nela de manhã e gosto que ela pense em mim. E no quarto há uma parede que nós pintamos de verde, justamente a parede que fica de frente à cama, é de uma tonalidade que eu gosto e que combina com o verde das árvores que eu vejo da minha janela, mas hoje pela manhã as paredes que eu via eram apenas as brancas, como são brancos meus lençóis e o edredon e até a blusinha que eu estava usando, assim como é branco o vento gelado que me fez acordar definitivamente, hoje, pelo fim da manhã. De olhos semi abertos eu lembrei que o fim de semana acabou de passar e que deixou louça e roupa acumuladas e uma película de poeira que precisa ser varrida, mas bagunçada mesmo a casa não está; está é silenciosa e fria, estranhamente parecida com o que ela é todos os dias da semana. Lembrei que hoje devo terminar uma leitura, lembrei que em alguns meses eu entrego a dissertação, que hoje é segunda feira dia primeiro, mas nenhum desses pequenos indícios de fim e de recomeço me prestaram algum contentamento. Tateei o criado-mudo para achar os óculos, e tirá-los logo em seguida para lavar o rosto com água fria e sabonete antes de esquentar um copo de leite. Não vinha de fora ruído algum, nem sequer do prédio em construção, ou da escola infantil que avizinha, quis escutar música sem cantarolar. É verdade que eu insisti em A horse with no name, mas bem, eu já estava triste quando liguei o computador. Eu não faço o tipo sai pra lá tristeza, pelo contrário. Quando me acena, eu a aceito tranquila, sem grandes dramas ou perguntas, até que numa virada ela passe. Eu ainda estava um pouco triste quando abri a caixa de e-mail, alguns blogs, o twitter, internetbanking e o jornal online, mas hoje essas coisas me soam incompreensíveis e cansativas, mesmo sabendo que sou eu quem me porto como um monolito em dias tristes assim. As contas estão todas pagas, há muitos links não visitados, três mails não-respondidos e um avião desaparecido no meio da noite. Não pude evitar de pensar que houve queda, frio, escuridão, muito medo. Há executivos notáveis e um prícipe entre os desaparecidos, além de dezenas de anônimos, a tragédia entretanto é de mesma proporção pra cada um deles. Lamento por eles e estremeço levemente ao pensar que em duas semanas meu irmão toma um voo parecido e, coitado, tem pavor de avião e não há de ficar tranquilo. Lembrei que cinco anos atrás eu também cruzei esse oceano: entusiasmada e completamente apaixonada na ida, melancólica e solitariamente apaixonada na volta. Por telefone minha mãe me disse que está gripada e meus avós também, e é preciso cautela porque eles já tem oitenta anos; por telefone também sei que Paulo vai pra uma reunião depois do almoço e que me trará alguns bombons na volta.

Passaram-se já algumas horas desde que eu levantei, mas parece que todas estas pequenas coisas estão concentradas num único minuto, imenso confortável estranho, o céu continua na mesmíssima cor cinza, o ar continua gelado e parado, as lentes dos óculos estão um pouco sujas, e eu ainda estou um pouco triste quando penso que o dia está apenas começando.

12 pessoas pararam por aqui:

lu disse...

que post lindo. mas o que aconteceu que todos ficaram tristes hoje e reclamaram do dia? será esse frio absurdo que chegou de vez? eu tava felizinha até o fim da tarde, mas daí as pessoas no tuíter me concenceram…
tentei comentar no post da boyle hoje mas não consegui enviar o comentário de jeito nenhum, espero que esse vá.
beijos, gatinha.

aline disse...

eu conhecia a música sim, mas a seu convite eu ouvi de novo, adorei. essa música do america é meu recente vicio, eu ouço quase sem parar. mas com ela há outras que tem tocado direto aqui: coisas do moby, the verve, radiohead, morcheeba, e hoje, born slippy do underworld.
eu não conheço esse texto do Caio, mas o excerto é lindo. Obrigada por te-lo deixado aqui.

beijo, Madoka

aline disse...

não sei. todo mundo ficou triste? hahaha
deve ser o frio. mas eu nem reclamo não, não é uma trsteza profunda e deprimente, é só um slowmotion, uma quietude, sabe? eu gosto, até, de ficar quieta, ouvir certas músicas, etc. O único problema é que eu não me animei a lavar a louça. :P

beijos, lu

madoka disse...

Aqui deste outro lado, é o verão dando o ar da graça, depois do inverno nem tão tenobroso assim.
Ouvindo Horse with no name, que bom de ouvir e ver o vídeo, veio a calhar, esses dias pra trás, estava ouvindo o Neil Young, o ´Harvest moon ao vivo, vc conhece? vai no youtube, é lindo demais, sou fã dele e desta música em particular. Me lembrei desta música, ao ler seu texto: ´sutil tristeza´. Fecho com o Caio Fernando Abreu, numa crônica do estadão ele escreveu mais ou menos assim: …eu sentia profunda falta de alguma coisa que não sabia o que era. Sabia só que doia, doia. Sem remédio…algo sempre nos falta, o que chamamos de Deus o que chamamos de amor, saúde, dinheiro, esperança ou paz. Sentir sede, faz parte. E atormenta… guarde este recado: alguma coisa sempre faz falta. Guarde sem dor, embora doa, e em segredo…´ ( o recado foi extraído de uma carta escrita por Camille Claudel a Rodin. e está escrita na porteira da casa da artista).
Fecha aspas. é lindo né Aline.
Um beijo e fica bem
madoka

lu disse...

(elas me conVenceram)

aline disse...

Pois é, faz parte de nós é é agradável, essa tristeza contemplativa, quase poética.
Um abraço pra vocês, Mariê, Taiguara.

Taiguara disse...

Também sou dos que abraçam serenamente essa tristeza. É gostosa essa quietude e serenidade. Esses dias, então!, são belíssimos.

Mariê disse...

Essa tristeza sutil, como você tão bem denomina, faz parte da gente mesmo. No meu caso foi no domingo. Chuva em Brasília nessa época? Estranho… Pareceu que ela tinha vindo coroar meu dia de sutil tristeza.

Beijo

aline disse...

é o jeito, né? :)

josue mendonça disse...

gostei do “sem grandes dramas ou perguntas”

aline disse...

brigada!
:**

Tina Lopes disse...

Lindo texto. Bjk.

Postar um comentário

Diga lá.