3.6.09

das quase tragédias

Todo acidente que resulta em morte é desolador e tem um grande potencial trágico, mas eu penso que só a imprensa consegue realizar essa tragicidade em escala tão larga, porque no fim das contas é ela - a imprensa - quem narra o mundo na maioria das situações. Quanto ao acidente da Air France, por exemplo, não há muito o que informar, objetivamente, além de suas prováveis causas, da localização dos destroços, supostos responsáveis, lista de nomes das vítimas, procedimentos e andamento das investigações. Todo o resto, e há cada vez mais desse resto, é um trabalho de configuração do trágico a partir de um acontecimento maior e definitivo (o avião cai), e a inclusão de pequenas narrativas individuais que são interrompidas pela história maior. Quero dizer, o tratamento que os jornais conferem a grandes acidentes como este coloca em outra esfera nossa maneira de ler e sentir as mortes, porque eles exercem uma função narrativa e organizadora do fato da morte. Basta observar a quantidade e ênfases em breves biografias, detalhes e fotos das vítimas, assim como depoimentos, lembranças e imagens de parentes; mais ainda, observe-se o efeito que todo este material exerce em nós, expectadores e ouvintes dessa narrativa. Este é justamente o material mais consumido. Somos apresentados às vítimas, conhecemos suas histórias e toda a sequência de fatos irreversíveis que levaram aquelas pessoas a estarem naquele avião, naquela hora. E conhecemos e sentimos próximos dos viúvos, dos órfãos, dos pais e amigos e colegas e parentes. Comovemo-nos com a sensação de fatalidade e inevitabilidade de uma morte assim, abrupta. Isso é o trágico.
Nisso tudo, o que desaprovo, convicta, é que a cobertura de um acidente como esse último inclua até os que não embarcaram porque o pneu furou, sentiram um frio na espinha, porque deixaram o passaporte em casa, porque não tinham passagem mas tentaram loucamente e não conseguiram embarcar. E de repente as reportagens fazem com que essas pessoas participem da história e tenham algo a dizer sobre o que nunca existiu, que é sua própria morte. Ignorando que elas não são sobreviventes, nem vítimas, nem nada, a imprensa inventa um espaço simbolicamente intermediário de experiência da morte e do trágico e, assim, fere o luto daqueles que de fato perderam pessoas amadas e que estão sofrendo. É uma demonstração de crueldade atroz e mesmo de despreparo celebrar o alívio, a sorte e a gratidão pela vida, publicamente, agora. Primeiro, porque se conferimos algum significado à ausência e "sobreviência" de uns poucos no avião que caiu, é porque conferimos significado à presença e morte dos tantos que sofreram o acidente. Nenhum consolo é mais cínico e insensível do que o batido "era pra ser", porque de acordo com nossos sentimentos, que são o que importa, a morte nunca deve vir àqueles que amamos (sobretudo na forma de um acidente), ela vem apesar e sobre todas as nossas forças, desejos e negações. Do contrário, se não há sentido ou significado na morte daquelas pessoas, tampouco há sentido na não-morte ou na quase-morte daqueles uns, e seria bom se se calassem. Em segundo lugar, essa insistência pelas quase vítimas denuncia que estes são tempos de pouca serenidade e respeito pela morte e pelo luto propriamente. Se não há sobreviventes, não é preciso forjar nenhum. Há no entanto um fascínio pelo fait-divers e pela narrativa trágica que ironicamente instrumentaliza o fato que a precede e sustenta. Nossos jornais agem como se descobríssemos a morte a cada tragédia, como se ela fosse um fenômeno inédito e inapreensível e demandasse de mais falas e mais imagens, quando na verdade precisamos de menos.

15 pessoas pararam por aqui:

Haline disse...

A impressão que dá é que a medida que se esgotam as noticias sobre os envolvidos no acidente, parte-se pra qq coisa supostamente relacionada. Gente que ia mas desistiu nos interessa apenas qdo conhecemos né? Dai desenvolvemos um sentimento de “putz, não era sua hora” e etc. Faz parte de um contexto individual, restrito. Não é notícia. E o pior, quando se esgotam esses casos também, daí vem os que “sentiram”. Pelamor né? Qq um pode ter sentido qq coisa e isso não tem qq relevância, exceto se fosse previsão verídica e comprovada. É falta de assunto mesmo. Quem realmente está sofrendo, normalmente não fala. Dai …

aline disse...

Haline, nem sei se é um esgotamento de notícias relevantes, porque essas notícias de quase vítimas apareceram quase ao mesmo tempo, e aí é que está, tudo é visto junto, como fios de um mesmo tecido. E não é.

Mariê, pois é, vc foi no ponto.

beijos pras duas.

josue mendonça disse...

Aline

acho que ainda falta entrevistar algum vidente e aqueles que sonharam com o acidente…
mais à frente teremos as ‘grandes revelações’, ‘fatos surpreendentes’,'entrevistas exclusivas’. haja imaganição..
mas há algo curioso: uma forte corrente na mídia que acredita que o público, no íntimo, não está interessado em se informar, mas em se emocionar! tomara que não seja a custa de quedas de avião….

abraço

Carol disse...

Concordo que seja terrível, imoral, insensível, que se divulgue tais casos de “quase morte”. Mas, para mim, o pior de tudo é o medo que a mídia fez questão de criar em quem ainda vai viajar, como se voar fosse perigosíssimo… ontem mesmo, vi uma passagem ridícula que mostrava pessoas que acabavam de chegar de um vôo da Air France, vindo de Paris, relatando sobre as turbulências que enfrentaram no trajeto, como se isso fosse uma grande novidade, e como se tivesse mais gravidade por causa da cidade de origem e da companhia aérea. Qual o sentido disso? Por causa de um caso excepcional, atípico, agora virou tabu viajar para Paris, ou pela Air France, como se fossem essas as causas do acidente! Eu concordo que é natural, para nós, como humanos que somos, criar esses tabus, mas a mídia confirma esse pensamento irracional - “mostrando-nos” que todas aquelas pessoas morreram porque viajaram pela Air France, porque iam para Paris, porque eram pacifistas, porque viajavam em lua-de-mel, e assim por diante -, em vez de prestar o devido respeito às vítimas. Por mais que tenham tentado nos tranquilizar, esclarecendo o caráter atípico do acidente, ao mesmo tempo querem que tenhamos medo de voar. Mas isso é até óbvio. Dá mais audiência…

Mariê disse...

Oi Aline, profunda e bonita análise.

Eu tinha postado ontem sobre essa questão, essa impaciência que fica com essa fabricação de notícias, das quase-vítimas. Claro que passa longe da profundidade da sua análise, mas o contexto é o mesmo.

http://praeumeouvir.blogspot.com/2009/06/das-coisas-imbecis.html

Beijo

Marjorie disse...

“Se não há sobreviventes, não é preciso forjar nenhum”

Obrigada, obrigada, obrigada. Eu me irrito TANTO com isso. Em TODO desastre, corre-se atrás das pessoas que “nasceram de novo”. 11 de setembro, 11 de março em Madrid, TAM, Gol, whatever. É pedido dos editores imbecis, claro. Porque parece que, para virar chefe de redação, tem que ser imebcil, é pré-requisiro. E como assim “nasceram de novo”? Cria-se mesmo uma situação de risco fictícia para essas pessoas.

Sempre desgostei disso porque não é relevante. Não diz nada sobre a notícia, que é o acidente. Se era para Fulano estar lá e não estava, bem, ele tem uma história muito interessante para contar para os amigos, mas não é notícia. Então nunca gostei porque vejo como sensacionalismo mesmo esse tipo de matéria. Como macacagem em cima de uma coisa séria.

E olha que nunca tinha pensando por esse lado do desrespeito a quem realmente tem de conviver com a morte real. Ainda tem isso.

Outra coisa que tem me irritado neste caso em particular (não lembro se foi assim com TAM e Gol, provavelmente sim) são as matérias do tipo “por causa desse acidente, pode aumentar o medo de andar de avião”. Vi isso na Folha e na TV Record, aposto que outros tb fizeram coisas do tipo.

Aí eles vão aos aeroportos fazer essa pergunta imbecil: “vc está com medo por causa do acidente de ontem?”. E é claro que as pessoas sorriem amarelo e dão uma respostinha padrão — até porque acham legal aparecer na TV. E dizem: “ah, a gente fica mais apreensivo, né?”. O que não quer dizer porra nenhuma. É lógico que a apreensão aumenta, mas isso é normal. Ninguém está deixando de embarcar por conta disso.

E com base nessas citações jogadas, que não querem dizer nada, os caras fazem uma matéria. Ou seja: claramente estão FORJANDO um medo. Isso me deixa puta porque acontece tanto: o jornalismo que não constata, imagina e depois vai procurar o que imaginou. Imagina-se, dentro da redação, que um passageiro hipotético tenha seu medo aumentado. Aí correm atrás desse personagem fictício.

Por mais que ambas as matérias (a da Folha e a da Record) tenham ressaltado que morre mais gente em acidente de carro do que de avião e que o medo é, na maioria das vezes, irracional, isso não bastou para derrubar a pauta. Nah. As duas fecharam a matéria voltando à mesma frase do começo: “é, mas o medo das pessoas aumenta”. Tosco. Não vejo qual o objetivo desse tipo de matéria a não ser encucar nas pessoas um medo artificial mesmo.

Caramba, falei demais,rs. Sorry!

aline disse...

Carol,
Nossa, essa eu não cheguei a assistir, mas tbm eu desligo a tv rapidinho, não me interessa muito. Mas eu acho meio que normal sentir um certo medo de voar, apesar das estatísticas e seguranças, um acidente desses cria esse uaê todo porque as pessoas se enxergam num avião, é uma situação totalmente plausível e corriqueira pra um determinado grupo. Daqui a pouco passa, a sensação ameniza, etc.


Josue
hahahaha Será que vai ter isso tbm? Eu acho muita cara de pau. Essas vidências ficaram na década de 90, pra mim. É o uó.
Não são coisas separadas, informação e emoção. Um acidente é uma coisa triste, sempre. Mas é que a comoção não tem a ver com a morte de pessoas e ponto, tem a ver com a morte *dessas* pessoas, *nessas* circunstâncias. Alguém que “quase morreu” no acidente tem mais visibilidade do que qualquer nordestino morto na enchente. É aí que eu digo que a imprensa cria todo uma história com a morte de alguns, porque essas vidas precisam de um sentido que é dado com a narrativa.

abraço

aline disse...

eu escrevi outro exto, falando mais dessa solidariedade seletiva, daqui a pouco eu deixo o link aqui.

bjos

Marjorie disse...

Nossa, muito verdade isso. No noticiário, a classe média é universalizada sempre. Ela é tratada como a sociedade inteira. Tudo é tratado do ponto de vista dela. Os demais são “outros”.

bjo

aline disse...

Eu assisti tv só na segunda e depois disso, abandonei. Pra mim é desgastante, angustiante, acompanhar todo o processo jornalístico. Ontem eu descobri que os destroços encontrados não eram da dita aeronave, então eu fico imaginando o que é ter alguém que simplesmente desapareceu. Eu sinto muito mesmo pelos parentes, etc.
As demais pautas eu jogaria no lixo. Entendo o alívio de alguém que quase viajou, entendo o medo de alguém que vai viajar, mas não entendo a transmissão disso no jornal. São sentimentos que não cabem, que não precisam de forma e divulgação. Aliás, não é que não entendo: acho que essas coisas universalizam a tragédia, elas aumentam a sensação de “poderia acontecer com qualquer um”, como se não fosse um grupo específico de pessoas que frequenta aviões e idas à Europa, entende? Você não vê esse tom quando um barraco é levado pela enchente, “agora todos estão com medo de entrar em casa”, a gente vê que “os moradores locais estão com medo”… Só alguns riscos são universalizados.

Marjorie disse...

Heh, acabei de ver aque a Carol assistiu à mesma matéria.

aline disse...

Tenho noção sim, Vanessa, eu acompanhei o primeiro dia pela tv, verdade é que depois desisti…
e obrigada! beijos pra vc tbm.

Vanessa disse...

E claro,
Beijossssssssssss

Adoro seu blog, Aline.
Marjorie que indicou o caminho.

Vanessa disse...

Olha, no dia que foi anunciado o desaparecimento do avião em rede nacional brasileira, juro pra você, foram ‘especialistas’ de tudo quanto é área que você possa imaginar dar entrevistas no Globonews. Você não tem uma noção!
O dia todo e mais o seguinte, e depois o seguinte, e o seguinte, e etc, teve gente especulando o tal desastre. E em meio à essas especulações - claro - surgiram novos elementos: como mentirinhas; criadas justamente para aumentar a violência do desastre, como se ele em si não tivesse sido o suficiente.

Você viu o caso da BBC Brasil?
Publicaram uma notícia que fora veiculada num jornal sueco, mas após contato com os envolvidos em tal informação, constataram a erroneidade do que haviam enunciado.
Não foi caso de exploração de informação, nem de precipitação, até porque o jornal sueco já vinha anunciando.

De qualquer forma, foi bacana a atitude do jornalista da BBC. Cara e coragem mesmo. Assumiu o erro e expôs à todos.
Tá lá no blog do Nassif.

Um quase assvertising « Marjorie Rodrigues disse...

[...] Aline chamou atenção para isso num texto muito bom sobre o acidente da Air France. Reproduzo aqui o comentário [...]

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