10.6.09

dos processos

Eu ia postar um texto sobre Kafka que me sussurra há dias, desde que a Dani disse que eu quase não escrevo sobre literatura. A estrutura do texto e até algumas passagens já estavam certos, aceitos, tudo organizado na ideia. Eu teria dito que quando li O processo, fiquei absolutamente envolvida por sua não-pretensão em transmitir o fluxo de consciência sem lacunas, a consistência com que a impossibilidade da compreensão total se apresenta. Diria que Joseph K. é a única instância e juízo de que dispomos para atravessar a obra, e ele já não é, digamos assim, aquele pilar de segurança. É exigido que o leitor encare uma estória cujas figuras são desprovidas de verossimilhança, de anseios, de personalidades historicamente situadas, pois isso tudo é impensável em Kafka: a realidade de suas figuras não ultrapassa uma certa esquematização do texto. Eu ia dizer que a personagem central desse romance nem é Joseph K., nem sua culpa, mas o Processo. O que é uma coisa óbvia de se dizer, e que já está bastante explícito com o título do livro (os títulos dizem muito).
Eu iria dizer que eu, leitora das narrativas francesas e latino-americanas, sei que o fantástico é um elemento que rompe com a configuração do mundo que obedece a certas leis físicas e naturais para nos plantar a dúvida. Passamos por uma narrativa fantástica com aquela sensação formigante de "será?" e, bem, este é um dos encantos do gênero: a ambiguidade (e qual ambiguidade não é encantadora?). Mas Kafka faz o contrário, o elemento fantástico não rompe com o mundo, antes, é engolido por ele e assim passamos ilesos à qualquer episódio que foge à normalidade, mesmo a normalidade estranha da obra Kafkiana. Ou melhor: o mundo real já é fantástico demais para que precise de rompantes de maravilhamento. A ambiguidade a que somos apresentados é de outra ordem; e eu teria dito que o mundo de K. não é completamente externo à sua própria consciência, e tampouco dela é corolário. As fronteiras entre realidade material e a realidade fluída e pessoal são pouco visíveis. E por isso nós nos embrenhamos, com ele, em um processo que é gerido como um negócio, como um esquema esvaziado que deve ser estrategicamente cumprido. Essa racionalidade alucinante de K. é, em última instância, uma pista de que a vida está se esvaziando, objetivando-se demais nos caminhos institucionais que nos aniquilam.
Vejam bem, eu teria articulado tudo isso de maneira que ficasse mais sedutor, pois cuido de manter meu ofício necessário e agradável.
Mas esta é uma semana em que a empresa que encarna nosso espírito nacionalista se engalfinha com a grande imprensa (não grandiosa, apenas grande) que reivindica a representação de nossa voz e interesse. É a semana em que um presidenciável ordena que a polícia militar responda com bombas às manifestações de estudantes, funcionários e professores de uma universidade pública, e eu me pego pensando que até no nome, na sonoridade de cada fonema, a tropa de choque impacta a gente e escancara que o poder público é mais poder do que público. É a semana em que a internet cobriu em tempo real e participou ativamente da construção desses embates ao mesmo tempo em que deixava pontas de auto-crítica espalhadas por aí. E eu aqui. E todas essas instituições que ora se confundem com as necessidades e anseios dos cidadãos, que são pessoas antes de mais nada, mas deixa isso pra lá. E de repente eu mesma me sinto completamente alienada e ao mesmo tempo atenta e envolvida em processos que me engolem e esvaziam. Eu, que continuo achando que a literatura tem condições de superar qualquer discurso crítico, me pego pensando que o mundo às vezes parece bastante kafkiano, não porque alerta nosso senso de absurdo, mas ironicamente porque desperta o senso de realidade até demais.
Mas todas essas coisas estão difíceis de articular, porque minha própria experiência com a linguagem agora parece precária e cheia de lacunas, sinal de que eu não consigo me desprender o bastante das sensações e ideias que me surgem en passant pra me concentrar numa estrutura textual que desse rumo e conta dessa montalhada de pensamentos. Eis que o resultado é esse: é tarde, estou cansada, o post fica assim, meio desperdiçado meio desorientado.
Como um cão.

12 pessoas pararam por aqui:

Joao~Grando disse...

Deu uma de Kafka para falar de Kafka. Com o acréscimo de admitir dentro do texto o inacabado. Deu certíssimo.

Arthur disse...

Curiosamente, eu estava pensando a mesma coisa no caminho para o trabalho. Ontem, a violência que tomou o campus tornou a realidade mais estranha que a ficção, mas nunca eu senti que a ficção fosse tão necessária à verdade.

lu disse...

ah, ficou muito bom esse post. deu pra sacar. e deu vontade de reler o kafka.
…”e qual ambiguidade não é encantadora”? rs.
é!
:*

aline disse...

Obrigada, João. Vc foi no ponto.
E eu invoco outro artista: ontem pra mim foi como o cacto de Bandeira: um dia belo, áspero, intratável.

aline disse...

Arthur

Imagino que haja mesmo uma convergência de pensamento, Arthur, entre aqueles que frequenta as aulas de literatura do Pasta, do Joaquim, e de repente se deparam com *essa* violência. Vc não imagina (ou até imagina) o quanto eu gostaria de estar aí, com vocês, meus amigos.

aline disse...

Vanessa
eu tb gosto demais desse final…

sabe que eu quase transcrevi a parábola da lei? pq é incrível. os textos curtos dele estão entre meus textos preferidos no mundo. com seus animais e figuras mitológicas.

ai, ai.

beijos! :)

Vanessa disse...

‘Como um cão’
Adoro esse final!

Você já notou o tanto de animais que Kafka insere em seus contos?Como que desejasse nos aproximar da animalidade mesmo.

Achei bacana você ter colocado o episódio da USP em meio ao texto kafkiano. Basta lembrar de Diante da lei…

É… Muitas vezes é necessário violentar a própria lei (de autoridades inautênticas, ilegítimas) para se chegar até ela.

Beijosss
=))

aline disse...

\o/
:*

signey disse...

lindo blog, adorei!

aline disse...

Eu queria ter transcrito um texto sore as sereias. Mas eu e minha irmã estamos em litigio pela guarda definitiva do meu livro de contos. que, aliás está com a gatuna. Tem vários textos lá, eu nunca vi uma edição tão completa, e foi - claro - comprado em sebo há anos atrás.

beijos, Vanessa! ;)

Vanessa disse...

Transcreve sim, Aline

Vou adorar lê-la!

Temos o mesmo gosto… Os curtos são os melhores, sem dúvidas.

Beijos

=))

aline disse...

ah, brigada! :)

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