21.6.09

o beijo tácito, a sede infinita

O Fi foi embora ontem, e nós fizemos tanta questão de participar de cada centímetro dessa partida que os dias passaram e ninguém notou. Que ficamos uma semana praticamente sem televisão, sem internet, sem telefone sem descanso nem refeições balanceadas. Porque os dias estavam absolutamente lotados. Com as várias pequenas providências a serem tomadas e sobretudo as várias despedidas que fizemos, só entre nós mesmo. Na prática essas despedidas foram como qualquer domingo de antigamente, quando éramos mais novos e com mais frequência visitávamos a casa em que ainda moram pais e avós, com todo mundo junto de preferência sentado numa mesa na hora da refeição. Desde que o Fi anunciou que conseguiu a bolsa, todo e qualquer feriado prolongado foi motivo pra uma despedida. E todos nós precisávamos desse tempo de exclusividade porque embora na minha família os mais velhos anunciem aos quatro ventos que os jovens devem seguir seus próprios rumos, quando isso de fato acontece todo mundo sofre bastante com a distância. Então é preciso de um tempo pra assimilação. Para que mais abraços e conversas prolongadas possam forjar a sensação de que a distância física não importa muito e que telefone e internet hão de suprir tudo. No fundo, sabemos todos que é bobagem, que a saudade pode ser apenas precariamente aplacada, e essa persistência sutil é o que costuma doer mais. Saudades nem sempre se dissipam na equação compensatória: posso repetir à exaustão que a viagem será excelente para seu currículo e futuro, que sete meses passam logo (e passam), que ele está feliz em poder reencontrar-se com sua pequena que lá está; posso perfeitamente sentir felicidade e orgulho e entusiasmo por ele, sem subtrair em nada a falta que eu sinto de ouvi-lo reclamar conosco da demissão do Muricy.

Desconfio que a Dani é quem mais sente. Desde pequena ela aproximou-se mais do Fi do que de mim, um pouco por ser menor a diferença de idade, muito por afinidade simplesmente. No aeroporto, o abraço que ela deu foi o mais longo, e mais longo o beijo de despedida também. Comovi-me mais com ela do que com ele, eu nunca aguentei muito as lágrimas alheias. Em casa ela encolheu-se na cama e chorou mais. Inconsolável mesmo. Porque eu me mudei pra longe, e agora ele. Eu entendo isso que ela sente. Sou a única pessoa além dela que vai sentir falta do irmão que Filipe é. Nem meus pais conseguiram entender isso direito, minha mãe porque é filha única, meu pai porque nunca foi muito chegado aos próprios irmãos. Então embora eles admirem e adorem ver quão próximos e amigos nós três somos, eles não sabem realmente como é. Amar um irmão como a um amigo, como se ama o melhor deles. E fazer tanta questão de ver e conversar e ficar perto durante algumas horas. Um amor que nem sempre é tranquilo e que pode querer ser egoísta também. O Fi é a melhor pessoa que eu e ela conhecemos. E se por um lado eu lido melhor do que ela com essa saudade, lido muito mal com a tristeza dela. Porque por ela eu sinto também esse amor profundo. Eu nem gosto muito de falar disso porque geralmente as pessoas acham que é exagero e que nos faltam amigos. O caso porém nunca foi esse.
Eu sei também que dói nela essa perspectiva nova (já não tão nova pra mim) que a vida adulta proporciona: crescemos, tomamos decisões e caminhos próprios, dispersamo-nos. Nós três temos praticamente o mesmo ponto de partida, que é a casa onde fomos criados, mas os pontos de chegada sabe lá como e onde serão. E essa ficha cai pra cada um de um jeito diferente. Eu me dei conta dessa dispersão no dia em que eu fiz as malas e fui pra faculdade. Senti-me completamente independente naquela hora (nem era, mas valeu como se fosse). Acho que pra Dani é agora. Ver-se na universidade sem mim ou o Fi, lá que já foi minha casa, depois minha e dele, depois dos três e agora é só dela. E eu pensei em tantos clichês mal elaborados sobre auto-conhecimento e amadurecimento, porque no fim das contas eu também não sei muito o que dizer. Sei apenas do estranhamento súbito que me acomete ao tentar explicar, meio constrangida, à caçula inconsolável, uma banalidade como "o tempo passou". Porque é disso que se trata. O Fi indo embora como químico convidado num país estrangeiro; eu morando a 500km daqui por conta do casamento e dos planos que tenho; o envelhecimento notável de nossos pais e a velhice preocupante de nossos avós oitentões... que posso eu dizer aos 21 anos da Dani, no alto da autoridade frágil dos meus 25 anos? Que assim é a vida, cada um de nós vai pra um lado e a partir de agora é acostumar-se?! Que tudo o que nós éramos e possuíamos já não é mais?! Que deixe disso, não é preciso aborrecer-se, que esta é apenas uma viagem e é tola essa sensação de que algo mínimo e importante se perde irremediavelmente...?! Que sais-je ? Sem desespero ou grandes lamentações, sei que sentimos, eu e ela, a definitiva dissolução das circunstâncias que nos tornaram tão queridos e indispensáveis um aos outros, e que se isto não implicará na dissolução dos laços afetivos que nos unem, marcará inequivocamente a época em que começamos a recear os efeitos traiçoeiros do tempo.
No final das contas, calei-me. Consegui tão somente segurar sua mão, olhar muito pra ela, do mesmo jeito terno com que a olhava, na infância, quando ela chorava porque machucou-se numa das aventuras em que se metia com o Fi, ou apenas porque era contrariada. No mesmo quarto em que dormimos nos últimos 16 anos, eu, ela e o irmão ora ausente. Só percebi que também eu me encolhia entristecida com ela, na cama, quando minha mãe veio chamar pra jantar.

18 pessoas pararam por aqui:

josue mendonça disse...

esse laço invisível que parece se romper..mas nao se rompe, se estica..
como ressignificar isso?
como algo pode ser tão forte e invisível?
quanto coração…

e eu viajo

Madoka disse...

Já te falei, sou sua fã? Muito.
o post lindo, e me valeu o dia. Sei muito bem o que vc fala.
Maravilhosa. ainda bem que voltou, estava pensando em ti.
um beijo
madoka

Daniela disse...

A gente cresce aos poucos mas qdo a gente percebe é sempre assim, de repente.

Eu entendo tanto isso pq eu já morei fora de casa algumas vezes e voltava. Depois foi a minha irmã pequena quem saiu de casa e eu senti o que ela havia sentido. Chorei horrores, pra mim mesma, sem ela saber, escondendo as lágrimas no sorriso até as tantas da noite. E, olha, é sempre pior pra quem fica.

Mas né? O que fazer? Acostumar-se, assim é a vida e bla bla bla? É mesmo tudo muito clichê. Eu acho que o negócio é curtir a dor até que ela deixa de doer tanto assim. A dor vai, a saudade fica, enfim. Não acho que existam palavras.

O post tá uma pérola pra variar. Beijos nos três.

Mariê disse...

O post tá lindo, mas o título, ah! que título lindo!

Beijo

Dani disse...

Vc foi. acabou de me deixar em casa. e agora eu to aqui.

E o que fazer com esse eterno nó na garganta?

Respirar fundo e pensar
“a gente se tem
e nada no mundo nos tirará isso”.

beijo
amo vc

aline disse...

Madoka: fã, minha? hahaha Que fofa!
Ai, eu fico toda cheia com essas coisas. Envaidecida mesmo. Obrigada, nossa. Eu fico muito feliz de saber que vc gostou do post. Eu achei que nem ia sair, mas de repente tava enorme já, fiquei comovida de escrever. Nunca tinha acontecido :)

Dan: te amo muito, nossa, muito mesmo.

aline disse...

Aline

- Josue: nossa, é isso. Ele estica. E vc viu direitinho, esse post é só coração. Obrigada e beijos.

- Mariê, é Drummond. Amo esse verso demais da conta. Que bom que vc gostou. :)

- Dani, é verdade, é sempre pior pra quem fica. E é uma coisa ambígua, porque embora pareça que eu estou super triste, na verdade eu to é saudosa, meio melancólica, mas super feliz por ele. Quero mais que ele caia no mundão. Mas que volte, de vez em quando… Brigada, querida, beijo pra vc tbm. :***

lu disse...

uia, que nó na garganta que esse seu texto lindo dá.
pra mim, família é um saco - tirando a “família” que eu fiz e tenho pra mim que é só o maridão, que é mais que família… é legal, sendo sua amiga, conhecer um modo inteiramente diferente de ter família, e tão positivo, ainda que num momento dolorido como esse.
:***

Srta. T disse...

Esse texto tá um absurdo de lindo. E me deu uma baita saudade do meu irmão. Tô aqui olhando a foto dele e ai, viu.
Não vou falar que passa logo porque já despachei um ente amado (agora ex) por 8 meses e não passava. Passou rápido pra todo mundo, menos pra mim. Mas os skypes da vida amenizam. E saudade é uma coisa que já faz parte de mim: saí de casa há 10 anos, sempre namorei gente de outras cidades… vira uma melancoliazinha quase imperceptivel para os outros. E a gente aprende a ignorá-la na dor de todo dia.
Enfim, falei falei e falei só pra dizer que esse texto, além de lindo, mexeu absurdamente comigo.

Arthur disse...

Só em dois momentos eu quis ter um irmão na minha vida, quando tinha lá meus sete ou oito anos de idade e depois de ler o seu post.

Iara ;-) disse...

line,

Na mesmo ano em que eu perdi o meu último avô, minha prima adolescente, 8 anos mais nova, que pra mim era como uma bonequinha, foi mãe. Eu já tinha perdido pessoas antes e, como sou de uma família grande, alguns primos meus tem filhos quase da minha idade. Mas perder o último e ver a Ludmila mãe foram baques. O tempo passou, a infância acabou, os adultos somos nós. Sim, com seus 25 anos (eu tinha 26 quando essas coisas aconteceram), você sabe que é adulto. Mas são esses fatos que escancaram isso pra você…

O tempo passou, eu tenho um companheiro que divide comigo seus amados avós (como é bom ter avós, a gente não se dá conta disso) e sobrinhos. E eu acho isso lindo.

Os nossos nunca deixam de ser nossos. E o bacana é que a vida não nos tira só: ela também também nos traz pessoas queridas, basta ser genorosa com ela. Pelo seu post e pelas suas fotos, não falta generosidade nesse amor de vocês.

aline disse...

Srta T. obrigada, muito sinceramente. Porque pra mim a coisa vai na mão dupla: fiquei emocionada em escrever, e fico ainda mais sensibilizada em ver que o que eu escrevi tocou alguém. Um texto que é tão especial pra mim, que fala de uma coisa tão bonita e doce, tão pessoal. Só tenho coragem de escrever essas coisas porque a caixa de comentários vale demais a pena, porque cada um de vcs que comentou aqui, e elogiou, torna a coisa ainda mais especial e doce. E eu agradeço, sabe. E tenho vontade de abraçar todo mundo! :)

Lu, nem é um momento dolorido, sei lá, é meio triste, é saudosista, mas tudo com um fundo de felicidade. A melhor parte de crescer com o Fi e a Dan é justamente essa: crescer junto. Eu sei como eles eram aos 5 anos de idade, e aos 10, aos 15, aos 18, aos 20. E adoro pensar em como vai ser aos 30, aos 50, aos 70. Eu sei que ainda vou rir e chorar muito com eles e sei que haverá mais períodos de distância. Acontece. Então a coisa toda é ambígua, é um momento bem particular mesmo. Tudo muito bom, ainda que parcialmente triste.
O ngraçado é que em certos aspectos eu nem considero isso uma situação família, sabe? As vezes parece mais amplo, mais tipo: as pessoas que eu amo pra caramba nesta vida, e entre elas estão alguns amigos bem especiais que super importam pra mim :**

Filipe disse...

Oie!
eu acabei de ler o post… eu to com saudades de vcs!
hj eu vim ao laboratório… e foram super legais comigo… mas ainda sinto falta de vcs todos…

amo vcs, bjo.

aline disse...

Eu tenho isso pra mim tbm, Iara, de que a gente não perde as pessoas. Que os laços vão mudando apenas, com as circunstâncias. É assim pelo menos com algumas pessoas.
Eu perdi uma avó, ano retrasado, e por mais que ela não fosse tão próxima quanto os avós que moram com meus pais, foi um baque - como vc disse. Eu entendo muito isso. De perceber o escancaramento. E achar que é algo inapreensível, meio inexplicável. Porque facilmente cai em lugar comum.

Obrigada pela generosidade do seu comentário :)

beijos


Arthur, receio que vc não saiba o quanto significa ouvir uma coisa dessas de vc. Obrigada, demais.

Abraço


Mãe,
:*********************************

edi disse...

Oi filha, eu me lembro do último dia que vc passou no crusp antes de ir definitivamente pro Rio. Foi muito agitado, leva coisas pro ap. da Dani, leva coisas pro ap. do Fi… todos juntos (sempre!). Até que nos encontramos lá fora, antes de dormir, e vc me disse “é mãe, agora é prá valer, vou embora mesmo”. Nos abraçamos, te beijei, e tudo que consegui falar foi que tinha certeza que vcs seriam ainda mais felizes. Vc foi pro ap. e eu, claro, com os olhos cheios tive que admitir, minha filha “cresceu”.
Na 6ª feira foi a mesma coisa, depois de tanta correria, muitas, muitas despedidas e comemorações, ele estava lá, entrando prá fila do embarque, fila longa, longa o suficiente prá que eu percebesse que, quando passou pelo portão, já não era o “Filipinho”, era um homem, meu menino ficou homem…
Só não sei se, daqui 7 meses, quando passar pelo portão de desembarque, estarei recebendo esse “homem”, ou meu “Filipinho” de volta.
Só sei que amo vcs…. bjs.

aline disse...

te amo. nossa. seu moleque.

L. disse...

olha, raramente me emociono nesse mundão de blogs por aí, e seu post foi uma exceção que me pegou de surpresa e me fez dar uma engasgada. Eu sei o que é sair de casa, até do Brasil, o que é amar seus irmãos desse jeito. Eu tenho um irmão e uma irmã, e amo eles como amo os meus mais chegados amigos. Meus irmãos são meus amigos mais antigos.
Acho que nunca vi tão bem traduzido esse sentimento que eu tenho comigo, de saudade de estar longe deles, de querê-los tão bem.
Bjs,
L.

aline disse...

Eu reli o post agora, mais de um mês depois, e parece que voltou tudo. Essa sensação toda que eu senti quando escrevi, quando vi meu irmão se despedir. Mal sei como responder seu comentário, porque eu quero agradece-lo e ao mesmo tempo sinalizar meu prazer em saber que alguém entende e sente parecido, que existe esse reconhecimento através de uma coisa tão bonita e cara que é meu amor por essas duas pessoas. Então, obrigada. Por me trazer de volta a tudo isso.

Bjos

Postar um comentário

Diga lá.