2.7.09

antes de morrer, desejo

Cinquenta coisas que eu gostaria de fazer antes de morrer

Por Georges Perec

Eu gostaria de subir num bateau-mouche.
Decidir jogar fora um certo número de coisas que eu guardo sem saber porque eu as guardo.
Arrumar minha biblioteca de uma vez por todas.
Adquirir diversos aparelhos eletrodomésticos. Uma máquina de lavar roupa, por exemplo. Eu experimentei, é cômodo.
Parar de fumar antes que um médico me diga: O senhor sabe...
Vestir-me de maneira diferente, mandar confeccionar um terno três peças com colete.
Ir viver num hotel.
Viver no campo.
Ir morar um bom tempo em uma cidade estrangeira, em Londres, por exemplo. Mas isso, eu farei com certeza.
Eu também tenho sonhos de tempo e espaço, por exemplo: passar pela intersecção do equador e a linha de mudança de data. Passar ao meio-dia.
Ir além ou pelo menos até o círculo polar.
Viver uma experiência fora do tempo. Sem hora, sem ponto de referência temporal.
Fazer uma Viagem num submarino.
Fazer uma longa viagem num navio.
Fazer uma viagem num balão, num dirigível.
Ir às ilhas Kerguelen. Por causa do nome, da distância, da extensão, e porque é um pico rochoso.
Ir ao Marrocos, a Tambouctou, nas costas de um camelo em 52 dias.
Ir a Praga, Viena ou Prado.
Beber rum encontrado no fundo do mar, um rum de 1650.
Ter tempo de ler Henry James.
Viajar em canais. A barco, a canoa.
Há também coisas que eu gostaria de aprender:
Encontrar a solução do cubo húngaro.
Aprender a tocar bateria, tocar jazz.
Aprender uma língua estrangeira, italiano seria pra mim a mais simples.
Aprender o ofício de impressor.
Pintar. É aliás o que eu queria ter feito desde o começo.
Há certamente coisas ligadas a meu trabalho de escritor, uns projetos: escrever para as criancinhas entre 6 meses e 4 anos, aquelas que não sabem ler.
Escrever um romance de ficção científica.
Escrever o roteiro de um filme de aventura com 5.000 Kirghizes cavalgando na estepe. Fazer um filme grandioso.
Escrever um romance folhetim. Entregar minha cópia todos os dias. Como Simenon, que se instavala no hall de seu jornal e lá escrevia.
Trabalhar com um desenhista de HQ.
Escrever músicas. Pra Anna Prucnal.
Platar uma árvore e olhá-la crescer.
E enfim há coisas impossíveis que eu teria amado fazer, como me embebedar com Malcolm Lowry.
Ou conhecer Vladimir Nabokov.
Com isso são 37 coisas apenas, mas é o bastante

Extraído do programa de Bertrand Jérôme, Mi-figue, mi-raisin,
transmitido em novembro de 1981 por France Culture.


Georges Perec (1936-1982) não está na minha lista de autores preferidos, mas tenho por seus textos uma simpatia bastante grande. Há, em suas obras, um caráter de experimentação da linguagem de dos recursos literários que me deixa encantada mesmo. Sua passagem pelo OuLiPo (algo como Oficina de Literatura Potencial), ao lado de artistas como Raymond Queneau e Italo Calvino, rendeu uma das obras que acho mais curiosas: La disparition, que foi escrita inteiramente sem o uso da letra E, que é extremamente recorrente em língua francesa e é também a marca do feminino (o desaparecimento do feminino, que alguns críticos atribuem à ausência da mãe, desaparecida em 1943). É que a força motriz dos oulipianos é justamente a exploração do lúdico na linguagem, e daí a série de regras e motes que orientam a escrita. Alguns textos deveriam ser escritos desde que a primeira letra de cada palavra obedecesse à ordem alfabética, ou poemas que somassem uma letra a cada verso. Outro exercício de escrita de que gosto e faço uso em sala de aula é o N+7, que consiste na substituição das palavras de um texto. A fórmula N+7 referia-se portanto à substituição dos nomes (substantivos) pelo 7º substantivo que aparece na ordem do dicionário. Trechos bíblicos, excertos de obras literárias consagradas, tudo pode ser matéria prima pra esses exercícios de literatura potencial. Gosto especialmente da capacidade inspiradora e convidativa da maioria desses exercícios, que podem resultar em arte ou humor ou um híbrido entre ambos.

Foi uma grata surpresa, pra mim, descobrir o texto acima num livro de metodologia de ensino de língua francesa comprado num feirão de livros velhos. Se as referências estão corretas, Perec recitou esse texto poucos meses antes de morrer de câncer, em março de 1982, o que torna a coisa toda mais poética e um tanto melancólica. Eu sei que Perec é um artista e que sua escrita não está comprometida necessariamente com a expressão verossímil ou fiel de seus sentimentos, e que nada do que ele diz sugere sua doença ou ago parecido. E contudo, no espaço livre e aberto em que minha leitura acontece, não consigo encarar esse texto como uma produção meramente ficcional ou um exercício de estilo. Sei que foi escrito a pedido dos responsáveis pelo programa, mas a data em que foi lido me leva a incorporar as circunstâncias ao significado do texto, e é justamente aí que me percebo mais atenta e ligada a ele.
É até engraçadinho notar que a compra da máquina de lavar, uma viagem longa nas costas de um camelo e uma bebedeira com um escritor falecido coexistem na lista, e afinal, eu leio isso como um gesto de profunda afirmação. Quero dizer, imagino que a certeza da morte pode conduzir tanto a um impulso de intensificação dos desejos quanto a atrofia deles. Eu vejo a lista de Perec sob essa perspectiva, a de uma escrita que contém uma declaração de resistência, e otimismo. Não o otimismo naif de quem crê que de fato realizará tudo e adiará o fim, mas um otimismo de quem ressignifica a morte. Assim, acho bonito que quase todos os quereres deixem de lado o potencial de realização e proponham subversão do tempo com a reaproximação do passado, alargamento do presente, extensão do futuro, num modelo de experiência parecido com o bom e velho "aproveitar os detalhes", mas com uma leveza admirável.

Posto que a maioria dos desejos seja irrealizável, eles passam a valer por si só, porque é divertido e doce formular e proferi-los. Penso que é mais ou menos por isso que as vontades expressas à iminência da morte têm meu respeito e fascínio: porque muitas vezes elas constituem um último movimento de autonomia e determinação de uma pessoa, e afinal sua própria superação. A fragilidade do desejo de alguém cujo tempo é restrito, na verdade, acaba se convertendo em potência ou num lirismo que ultrapassa os desejos de outro que ainda conta com longos anos de vida. É uma fragilidade ambígua, essa dos sonhos obtusamente irrealizáveis.

2 pessoas pararam por aqui:

lu disse...

eu tenho um colega que acabou de defender a pós em Perec. me impressionou essa obra dele escrita toda sem o E, mas eu nunca entendia muito o que meu colega dizia sobre ele, embora desse pra ver a paixão e o empolgamento. agora, com esse post, eu acho que entendo melhor o que ele dizia.
legal mesmo esse texto. de uma delicadeza quase palpável.

aline disse...

os estudantes do perec são mesmo apaixonados. o cara ´pe bem legal, só que não entra no meu top 10, pq não é o  tipo de literatura que mais curto. mas adoro.
tem outro livro dele, que chama "a vida, modo de usar" que é demais. um prédio, e cada apartamento/ cômodo tem uma personagem, um drmaa diferente. e ele fala sobre todos. mas com umas regras super legais, que eu nao tenho como explicar aqui, numa caixa de coments. dá pra fazer um post inteiro sobre esse livro.
que aliás vai sair logo pela companhia das letras, super vale a pena.

bjos

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