26.7.09

da minha recusa

Os argumentos contrários ao #lingerieday passam quase inescapavelmente pela denúncia de seu teor machista, e receio ainda não ter entendido direito o fundamento dessa crítica, mas penso que esse machismo praticamente indiscutível da campanha tem a ver com a relação entre o corpo feminino exposto em calcinha-sutian no twitter e a objetificação que esse corpo sofre pelo olhar masculino, seja dos idealizadores da campanha, seja de todos os usuários que olhem para esta foto. Esse olhar, ao que parece, tende a considerar a mulher como apenas um corpo, e eu uso a palavra "apenas" aqui para pontuar que percebo a redução que muitos disseram acontecer numa situação como essa. Em outras palavras, ainda que a mulher voluntariamente queira expor seu corpo no #lingerieday, ela não faz isso num mundo maravilhoso em que não há machismo, pelo contrário, ela se submete ao recorte habitual, ela reforça a objetificação - a sua e a das mulheres no geral -, pois estará se apresentando para o mundo como um corpo bonito e desejável sexualmente em detrimento de sua inteligência, sua personalidade, seus valores.

Incomoda-me essa formulação, e incomoda muito. E ela me soa tão familiar. O problema dessa linha de raciocínio é que ela cria uma relação de causa e consequência, quando não de concessão, entre a lingerie no avatar e a objetificação. "Você é objetificada, mas também, ué, se expôs de lingerie", "Você mostra o decote no avatar e então adere à campanha machista e reforça o machismo", "Os homens tratarão as mulheres como pedaços de carne, e poderão te chamar de vadia porque você se exibiu eroticamente". Essas frases todas, afinadas com a vasta argumentação contrária ao #lingerieday em geral e à nossa adesão em particular, contém uma lógica muito semelhante àquela lógica odiosa e machista segundo a qual uma mulher é estuprada porque estava de minissaia na rua tarde da noite. Essa estrutura de pensamento não necessariamente desconsidera o horror e a violência de um estupro, mas coloca parte da responsabilidade pela violência na conta da vítima porque ela deve ser consciente do sistema que a vitimiza. Quero dizer, toda mulher sabe que o mundo é machista, como muita gente me explicou, pois existe um contexto e uma história do corpo feminino e nenhuma mulher minimamente lúcida ignora isso. Então, mesmo consciente de todo o machismo, a mulher que anda sensualmente de minissaia e se mostra desejável ao olhar masculino de certa forma compactua com ele, porque ela provoca, ela se põe numa posição vulnerável, ela permite que o outro a objetifique. E estou falando de estupro apenas para mostrar até que ponto esse pensamento pode ser extremo e insensível. Poderia igualmente propor um cenário em que a mulher sofre assédio sexual no trabalho porque usa decote e roupa colada todo o dia. Meu interesse é trazer outros cenários em que o comportamento da mulher é entendido, por homens e mulheres, como um sinal inequívoco de oferecimento e de prostração, e assim a objetificação foi facilitada, foi concedida.
Só não vale escalonar a subjugação e dizer que o estupro e o assédio sexual são mais objetificantes do que o deleite do voyeur do twitter, porque objetificação é objetificação, ela é um fato, como me foi repetido. A objetificação da mulher que se expõe é um fato, e independe da gravidade e do alcance de seus efeitos; e no mais, ouvi que a objetificação de uma mulher é a objetificação de todas. Se a calcinha no twitter põe a mim e às mulheres no geral numa situação vulnerável, então a minissaia na rua e o decote no escritório também.
Eu rejeito esse argumento com toda a minha força, pois ele me coloca numa posição ainda pior do que a da vítima, ele me torna refém. Segundo ele, eu tenho de pautar minha vida de acordo com os machistas que eu sei que existem e que esperam de mim um determinado comportamento. Como eu sei que a maioria dos homens são machistas (segundo Túlio Vianna, 99% dos brasileiros são), sei que para eles eu sou a priori um pedaço de carne, sou bunda, seios, coxas, mas nunca uma pessoa. Então a responsabilidade de não ser vista e tratada como tal é minha também. Seja na rua, seja no escritório, seja na internet. Não posso ser irresponsável, nem compactuante, nem omissa frente ao machismo, e para isso eu preciso deliberar corretamente quanto ao meu comportamento, minha indumentária, minha exposição. Se não devo mostrar meu sutian no avatar, não devo usar roupas coladas no escritório, não devo usar minissaia na rua. Porque estou viabilizando o acesso do outro sobre meu corpo, sobre um aspecto meu que me reduz, que desconsidera aquilo que realmente deve ser valorizado: a inteligência, o caráter, etc.
E ainda pior: minha contribuição ao machismo que necessariamente me agride também atenua a participação do agressor, já que ele está implicado, como eu, nessa equação de "ela foi objetificada porque se colocou numa posição vulnerável", mas do lado oposto. Sem que deixe de ser o sujeito da situação, o machista que estupra, assedia ou observa é de certa forma esvaziado de responsabilidade, porque dentro da lógica distorcida dele, que é plenamente conhecida pela mulher, ele fez o que é esperado que faça mesmo: subjugou. Pode até acontecer de o machista ser repreendido, ou ter de responder judicialmente, ele pode ser incriminado dependendo do que fizer, mas quem tem de arcar com o ônus moral da violência é a mulher. Porque ela foi agredida, mas também, ela compactuou com sua própria objetificação. Ela se posicionou de maneira errada. É assim porque o machismo está no agressor mas também está na agredida, ou melhor, o machismo está nessa convergência do comportamento dela com o desprezo dele. E o machismo afinal é algo que lhe escapa, que não está sob seu pleno controle, não tem a ver exclusivamente com os valores, com sua maneira de lidar com o mundo e com o outro, é algo que pode ser reforçado e provocado por uma mulher, voluntária e conscientemente. Esse código "fez-se objetificar" regula mais o comportamento feminino do que o masculino, relativiza este e evidencia aquele, e assim a mulher tem que estar atenta e cautelosa para não fazer de seu corpo um estopim da violência contra ela mesma.

Tanto aqui quanto na Lu houveram comentários a respeito de nosso corpo, com carga sexual: "que peitões!" e "te chupo toda". E nós fomos convidadas a refletir se esse tipo de comentário nos agrada, se é isso mesmo o que nós queremos aqui, na nossa caixa de comentários, nós, que somos tão inteligentes. Refleti sobre isso, sim. E continuo achando que esses comentários não me ofendem, não me tornam um objeto. Mas vá lá, eu entendo que para algumas pessoas o comentário seja ofensivo. Partindo desse pressuposto, eu quero fazer uma pergunta: por que esses comentários foram tratados como consequência direta da nossa adesão ao #lingerieday, da exposição à qual nos submetemos, eu e ela, e não como responsabilidade única de quem os proferiu? Por que esses comentários não foram simplesmente colocados à margem, imediatamente refutados como costuma ser toda expressão machista? Por que os comentários machistas de alguém foram assimilados como argumentos para que eu não exponha meu corpo, como se eu fosse também responsável pelo o que dizem sobre mim? Por que nós fomos chamadas a lidar com esses comentários como fruto de nossas escolhas, se, em outro momento, apenas os mesmos comentários e seus respectivos autores teriam sido criticados?
Então não adianta, recuso essa posição de colaboradora do machismo que me reduz e objetifica, e ainda que eu concordasse que aquela foto no avatar me objetifica - e absolutamente não concordo - não admito ser chamada a me esclarecer, ou ter de ouvir que se eu for tratada como um pedaço de carne é porque eu provoquei isso. Nessa equação aí está oculto o único responsável pela perpetuação do machismo no mundo: o machista.

61 pessoas pararam por aqui:

Paulo César Nascimento disse...

Aline

O problema é que as(os) feministas, com honrosas exceções, têm uma visão reducionista sobre o poder. É por isso que eu gosto da Camille Paglia. Aí parte das feministas queima o sutiã, bate (com o pau) na mesa e diz: eu posso ser tão macho quanto você! (traduzindo para os leitores que não entendem metáforas: vou assumir os SEUS valores para poder disputar o poder na SUA arena). Por outro lado, aparecem você e a Lu mostrando o sutiã (o mesmo ícone que foi queimado em praça pública) e dizendo: não preciso ser escrava do modelo que me impede de dispor do meu corpo, da minha sensualidade e da minha vida da forma que eu bem entender. Uma mulher é objeto quando entra na engrenagem que a faz seguir a cartilha de alguém independente de refletir a respeito. Se um ou outro sujeito diz "te chupo todinha", ele nada mais faz do que assinar um atestado: você conseguiu me transformar de sujeito pensante em um moleque babão. Curiosamente, quem virou objeto foi o homem. E digo mais, virou porque ele se dispôs a aceitar esse lugar e não por culpa do seu sutiã ou do que ele encobre/revela. Bjs

Anonymous disse...

Oi Aline
O post tá perfeito.
Uma coisa que eu acho que está relacionada a isso que, entre tantas outras, me incomodou muito na discussão é como qualquer um se deu o direito de julgar, ofender, humilhar, xingar, condenar, responsabilizar, etc nos termos que bem quis, e ao mesmo tempo exigiu que vocês tomassem o máximo cuidado com tudo que falavam para não ofender essas pessoas que eu só consigo qualificar como agressoras.
Fez sentido?
Beijos
Flávia

Victor disse...

A maior parte dos comentários opostos eram, como me recordo, que "se tornou um objeto [b]ainda que[/b] tenha querido", de forma a explicitar que não é porque você escolheu que está imune; e não de maneira a estabelecer causa e consequência. De verdade, em nenhum dos blogs eu li qualquer coisa que me leve a pensar nisso. Que a culpa de ter sido objetificada é sua, mas de todo um contexto que existe, e que você, pelo post, não nega.

aline disse...

Oi Paulo, eu nunca li Camile Paglia, já ouvi falar dela e bem mal, que ela é anti-feminista, tal. Enfim. Eu to querendo dizer que mesmo qdo eu sou objetificada, mesmo qdo eu sofro uma violência de qq natureza, ela não pode ser colocada como responsabilidade minha, ou como algo que eu tenha que evitar.
Beijos e obrigada.


Oi Flávia.o/ É, a coisa saiu de controle mesmo. Mas tudo bem, a poeira sempre baixa depois, e a gente toca adiante. As pessoas q criritcam o LD não estão dizendo q eu as ofendo, acho, estão dizendo q eu não devo ignorar q aderir ao LD reforça o machismo no mundo e objetifica a mim e as mulheres todas. Obrigada de novo. Beijos.

Victor. Eu to dando como ponto pacífico que eu me torno um objeto. Nem to mais discutindo isso, se o fato de ser voluntário anula ou não a objetificação. Estou dizendo q ok, fui objetificada? Fui vista como um pedaço de carne? Isso é ruim, é uma forma de inferiorizar as mulheres? Ok, mas não sou eu quem devo tomar cuidado, pq quem comete essa 'violencia' é responsável por ela. O machista q me olha e eventualmente me chama de gostosa. Ou sei lá. Quem mais for sujeiro nessa situação.

A discussão não se deu só em blogs, e pra mim ela aconteceu principalmente no twitter.

JOÃO GORDO disse...

Pô Aline, você traiu o movimento, cara!!

Sabina disse...

Oi Aline, faz tempo que eu não comento, mas acompanho seu blog e li tudo nessa discussão.

Concordo com vc, eu to achando q vcs estão sendo cobradas por uma coisa q não tem q ser. Alguem falou na sua caixa de comentarios q a erotização tem q ser subversiva, mas acho q não precisa ser.
Qdo o Marcelo Tas chamou aquele grupo de stripers de prostitutas, qdo ele disse q a Juliana Paes é uma bunda, ngm veio dizer "ah, mas elas fizeram por onde pra isso!" e as feministas disseram q a Juliana tinha mesmo q processar. E agora tudo é relativizado e a Juliana Paes agora "fez por onde" né?
Então as mulheres da Playboy, se nao quiserem ser consideradas putas ou burras, elas tem q se preservar. E isso é conservador, parece minha vó falando.

Beijo e parabéns

aline disse...

Oi Sabina

Legal isso q vc disse, de a erotização não precisar ser subversiva. Pq não precisa mesmo, não tem q ser um ato político pra ser válido.
Acho q parte da encrenca está aí, na leitura política de um ato q não tinha essa dimensão. Não é alinhamento ideológico nem nada.
Sobre a Playboy: existe uma expectativa pra que as mulheres mais gostosas posem pra revista. Todo BBB, toda nova atriz, toda celebridade passa por essa expectativa, então. E ainda assim eu não acho q posar pra playboy é um sim ao patriarcado, é um passo à objetificação. Tanto, q ngm aceita q uma coelhinha seja chamada de bunda, de puta, pq a gente sabe q isso é um absurdo. E sabe q não tem q tirar satisfações delas, e dizer q elas não devem posar.
E mesmo essa expectativa do outro, esse olhar machista aí, eu acho q tá estereotipado isso.
gostei do seu comentário, obrigada
:**

Dado Dolabella disse...

TRAIU O MOVIMENTO VÉIO!

astrocat disse...

Oi, Aline. Meu comentário ficou gigante, então mandei por email. :)

clara disse...

aline, continuo discordando, mas aprendi muito com vcs duas. de verdade. vi agora que vc tbm me respondeu no comentário que fiz lá na lu. ontem tava meio burrinha e não reparei, achei que era ela ainda. enfim, obrigada pela paciência e resposta.
beijos

Danilo disse...

Aline,
Não tinha visto este post quando comentei no outro. Vou colar aqui, já que este ainda trata sobre o lingerieday.

"aline,
O lingerieday proporcionou sim este debate, mas lhe dar o merito por isso não me parece coerente. O debate só surgiu devido a nossa capacidade de problematizar a campanha. Eu não acho que esta deveria ser problematizadora, mas o diabo está nas pequenas coisas. E não acredito que aquilo que fazem os integrantes está externo o campanha. Me expresso melhor nessa parte do post que escrevi para a lu:

"[...]Então, você diz que a campanha pode ultrapassar a intenção dos criadores e eu acredito que ela não ultrapassa. Pois ela sai de seus criadores direto para os participantes, os que comentam em blogs, que tuitam a idéia, e eles são reflexo do machismo dos criadores e da sociedade. Uma campanha como esta carrega um discurso, este é construído das posições mais ou menos dissonantes de seus participantes, com cada diferença sendo eliminanada até surgir o corpo central, o objetivo que sua maioria compartilha. Não se pode argumentar que só porque os seres humanos possuem complexidade irredutível e interesses diversos uma passeata gay não apresenta um manifesto, um discurso. Assim como não se pode dizer o mesmo do LD. E este discurso não é formado apenas pelo que diz o cartaz, mas sim pelo que ele, seus integrantes e criadores não dizem. Aquilo que uma camisa 100% branco não diz apesar da aparente simetria dos posicionamentos. Não que todos aqueles que participem concordem quanto o motivo de estarem ali, mas os motivos mais únicos, dignos de ficção, de participar de uma passeata gay desaparecem frente ao discurso. No entanto as pessoas podem posicionar-se contra, por exemplo colocando uma foto de um pedaço de bife vestindo langerie no LD. E ai entra aquilo que eu disse sobre ressignificação no âmbito pessoal, pois se esta ocorre apenas nesta esfera existe apenas a adesão a passeata ou a campanha, e uma omissão ao discurso que esta apresenta e é perpetuado por sua maiora."

Não possuo métodos científicos para provar minha denúncia vaga sobre o comportamento dos integrantes. Esta constatação minha se fez através das posições dos seus criadores e de meu conhecimento da sociedade onde vivo. Não acredito que a intenção dos criadores deva ser ignorada; ela permeia toda proposta e faz eco até nos participantes mais distantes. Você concordaria comigo que caso a campanha fosse criada por feministas como "lingeriday - o dia onde nós mulheres celebraremos a diversidade dos corpos femininos." a campanha seria visitada por outras pessoas com outros posicionamentos. Porque ela possuiria outro discurso. Não estou dizendo que estas pessoas seriam melhores ou menos machistas, somente que trata-se de outro público alvo. Um outro debate afloraria.

Legal esse comentário sobre as pessoas que problematizam tudo. As vezes me pego pensando, mas não seria isso uma bobagem, uma simples brincadeira ou piada? Mas Orwell me traz a razão novamente: "Every joke is a tiny revolution." Na dúvida prefiro sufocar as revoluções que não quero que aconteçam.

Este não era o sentido original da frase, mas ressignifiquei ela pra mim. ^^

Abraço."

Espero não estar sendo chato ao comentar duas vezes.

lu disse...

esse é mais um aspecto da coisa, que eu não quis entrar num primeiro momento porque, insito, não foi fato de eu ter participado no lingerie day, meramente, que me "objetificou"; não existe essa relação imediata e automática e não necessariamente por participar eu viro um objeto a mando dos organizadores do lingerieday.
Isso é crucial pra mim.

Mas é isso, se o cara diz, "Ih, tá de saia, vão te estuprar", todo o mundo saberia como ele está sendo escrotinho. Mas o túlio disse, "Ih, tá de decote no tuiter, vão te chamar de vadia".
No fim quem falou em vadias foi só ele, mais ninguém; mas mesmo se a garota de saia for estuprada, todo o mundo sabe que essa é uma lógica que tem que ser repelida, combatida, não propagada e corroborada.

Eu continuo com a reivindicação de que "objeto" é a comadre da sua madrinha, a menos que alguém me diga exatamente o que é ser um objeto e como é que isso acontece, o que até agora não fizeram. e eu desconfio pq - pode ser porque eu como objeto não sou digna de conversa, pode ser porque eles simplesmente não saibam; mas eu tou é desconfiada que muitas dessas pessoas que apontaram o dedo e nos acusaram de objeto e de compactuar com o machismo não querem diálogo mesmo, elas querem se lamentar no blog delas, reclamar da sua opressão, e terem respaldo e apoio, e serem acolhidas e aplaudidas na sua reclamação. E o fato de nós negarmos nossa "objetificação", seja lá o que for exatamente isso, as ofende pessoalmente porque é como se nós deslegitimizássemos um pouco o seu lamento, eu e você, como se nós, ao negarmos a nossa "opressão" em participar do LD, a nossa obediência e inconsciente participação no machismo, desautorizássemos essas vozes. o que não é verdade, cada um sabe do seu ônus e bônus. a pessoa não tem que universalizar seu sofrimento pra que ele tenha respaldo e seja reconhecido.

enfim. beijo nocê, bifão :*

Danilo disse...

Enfim, só para piorar minha situação com um post duplo, não é uma roupa ousada na rua ou no trabalho que me incomoda, mas sim a participação deste movimento específico.

aline disse...

Eu ia ignorar o João Gordo, mas agora que o Dado chegou...

uhauahuahuahuahauhauhauahauh


qq vcs sabem do movimento, heim? seus playboyzinhos?!

aline disse...

Astrocat, nada de mail por aqui! :(

Vc conferiu o endereço direitinho? Pq acho q o e-mail se perdeu nos bailes da enternete... Manda de novo, por favor?

ateaquitudobem.blog@gmail.com

aline disse...

Clara, muito obrigada mesmo por vir aqui dizer isso. De verdade, fico feliz.

beijos p ti :**

Ollie disse...

Não pretendia + comentar sobre esse assunto, mas depois de ler seu post, não posso deixar de furtar em mencionar o quanto é irônico que muitos dos "feministas de twitter" que criticaram a adesão de vcs e das outras garotas à brincadeira do "lingerieday" foram os mesmos que apoiaram a decisão do Sarkosy ao proibir a burka na França. Quer dizer, eles apóiam que as muçulmanas exponham seus corpos, mas argumentam como os mulás quando se trata das mulheres ocidentais fazerem o mesmo no caso do "lingerieday".

Embora alguns possam argumentar que esses dois casos são diferentes e não têm qualquer correlação, eu noto que ambos tratam com pessoas 'decidindo' o que as mulheres devem fazer o não, como se as mulheres fossem bichinos acéfalos incapazes de tomar decisões no que diz respeito a própria vida e serem responsáveis por elas.

Ou seja, tratam-se de grupos de pessoas que em nome da defesa da "honra e moral feminina" ou da "política do movimento" que manifestam o desejo de tirar de cada mulher o seu direito pessoal, a sua autonomia, em decidir sobre coisas que dizem respeito somente a elas, sem serem julgadas ou criticadas por usarem (ou não) determinada peça de roupa.

Ora, eu não sou feminista, mas no que me diz respeito, penso que cabe à mulher, enquanto indivíduo, decidir o que fazer e como se comportar, pq se ela tem que se vestir em função do julgamento que outros homens (e mulheres) vão pensar dela, então o machismo venceu:"Welcome back to 19 century".

A "luta" das "feministas do twitter" já começou destinada a se tornar uma fragorosa derrota, porque se eu tiver que me vestir em função do que os homens vão pensar (bem ou mal) de mim, eu estou concordando que Eles ainda mandam muito no que diz respeito ao que é desejável ou não em matéria de 'comportamento feminino', não somente o Oriente, como no Ocidente.

Ora, na minha opinião, o ato de 'objetificação' tão criticado não está na mulher enquanto objeto, mas nos olhos daqueles que a observam. Vestida com burka no Irã ou com biquini em Ipanema, se ela consente em ser tratada como objeto, como objeto permanecerá aos olhos dos seus críticos.

E o que é ser "tratada como objeto" no meu ponto de vista? Com certeza não é postar uma foto de calcinha na internet. Ser "tratada como objeto" é perder o seu senso de decidir o que é melhor para você de deixar essa tarefa para outros, sejam eles homens ou grupos.

Qual será o próximo passo desses nossos "defensores"? Criar uma campanha na internet para proibir o biquini em Ipanema? Ou pregar que o topless 'objetifica' a mulher?
Que gente ridícula... Com uns "defensores" desses as mulheres estão feitas. =\

aline disse...

Lu,

Eu tbm não ia entrar no mérito da questã agora, mas eu acho que esse "primeiro momento" é o único que teremos. E porque a hostilidade não diminuiu, ainda pipocam aqui e ali qualidades como "tapada", "mau-caráter", "burra", "mal amada", e outras provas de que nossa lingerie nos deixa vulneráveis. Deixaram mesmo, mas pr que outros sujeitos nos ofendessem.

Eu tbm não cedo nisso, de que minha objetificação foi um fato. Não foi, não é, não será, nunca. Mas eu tenho essa ânsia, sabe? De mostrar o belo e conveniente sistema de dois pesos e duas medidas.

:*******

aline disse...

Ollie, que legal vc aqui! (hahaha, lembrei que a gente ainda não acertou o valor dos seus honorários ;)

Vc disse várias coisas legais, que são exatamente o que eu penso.

Pra mim é fundamental que a mulher tenha total liberdade de atuação, que ela decida ser dona de casa recatada ou atriz pornô, que ela se exiba na internet com lingerie ou que se exiba com uma capa como protesto, a única coisa que não pode acontecer é ela ser coagida ou obrigada mesmo, que ela não detenha a palavra final sobre seu corpo, sua vida, seus desejos. E se tem uma coisa da qual tenho pelna certeza, é de que o lingerieday não me obrigou. E nem eu cedi porque sou coagida pelo patriarcado. Pq o desejo feminino e muito mais do que prostração ao sistema patriarcal.
E tem isso, de que mesmo qdo acontece a objetificação, ela não é culpa da mulher, ela é responsabilidade total daquele que a objetificou. É muito importante isso.
Quanto às contradições das blogueiras, ah, elas existem mesmo. Só pra te mostrar uma das minhas preferidas, que eu descobri graças à Sabina, vou copiar dois trechos de dois posts diferentes da Marjorie, sobre um mesmo assunto:

em 18 de julho, sobre Marcelo Tas e Juliana Paes:
"Para Tas, já que mostra a bunda, Juliana “perde a moral” para falar qualquer coisa. Já que mostra a bunda, ela não merece ser mencionada como nada além de uma bunda. Aliás, deveria até comemorar que está sendo reduzida a uma bunda. Resumindo: a partir do momento em que o objeto se ofende, demonstrando opinião, ou seja: quando o objeto se humaniza… Ah, aí não pode. É quase como se Tas dissesse: “quem essa puta pensa que é para exigir que não falemos dela da maneira como bem entendermos?... Mas culpar o objeto pela sua objetificação é como culpar a vítima por ter sido agredida ou estuprada.”"

Em 24 de julho:
"Voltemos à Juliana Paes. Ela sem dúvida escolheu “fazer da bunda o seu logotipo”, como disse o Marcelo Tas. E sem dúvida tirou vantagens com isso — dinheiro, fama, whatever. E aí a posição que ela ocupa acaba sendo retratada, para as demais mulheres, como uma posição de poder. Olha como ela é poderosa. Só que é um poder restrito. Vulnerável. No dia em que a bunda cair, já era. No dia em que ela parar de despertar o desejo masculino, já era. E, uma vez tendo sido a bunda, sempre será a bunda. Mesmo que ela queira se distanciar dessa imagem, mesmo que queira demonstrar outros tipos de talento, haverá Josés Simões e Marcelos Tas dizendo a ela: “não, você não pode. Não era você quem mostrava a bunda? Como é que você quer que te levemos a sério?”. Juliana acaba vítima da sua escolha. Se vc aderiu ao lingerieday..."


Sacou? Claro que 6 dias é muito tempo, é uma vida (pra um recém nascido... ;P), dá tempo de vc mudar de ideia e dizer o contrário. Porque o contexto é outro, né? Então a gente adapta as ideias. E poe pra funcionar o belo, o glorioso sistema de dois pesos, duas medidas...

Beijos, Ollie, brigada pela visita!

aline disse...

Danilo,

Eu dou parte do mérito do debate ao #lingerieday, sim, porque ele justamente mostra a fragilidade de certas convicções a respeito do machismo, da erotização, da exposição. Se fosse uma proposta completamente evidente e fechada, como sei lá, contra a pedofilia, não haveria debate porque a campanha não tocaria em ferida nenhuma, seria uma coisa meio "divulgue" e tal. Mas não é o caso, pq ele é provocativo e ambíguo.

"Uma campanha como esta carrega um discurso, este é construído das posições mais ou menos dissonantes de seus participantes, com cada diferença sendo eliminanada até surgir o corpo central, o objetivo que sua maioria compartilha." = ver/ postar foto usando lingerie no avatar por um dia. Certo?

"No entanto as pessoas podem posicionar-se contra, por exemplo colocando uma foto de um pedaço de bife vestindo langerie no LD" - pode, é válido, sobretudo agora que essa expressão "pedaço de bife" foi enunciada e repetida para se referir a uma mulher de lingerie, né? Por um dos contrários ao LD, ironicamente. (estou considerando o 'pedaço de bife denotativamente, uma foto com uma carne no avatar, pq senão, é uma piadinha de mau gosto sua)

"E ai entra aquilo que eu disse sobre ressignificação no âmbito pessoal, pois se esta ocorre apenas nesta esfera existe apenas a adesão a passeata ou a campanha, e uma omissão ao discurso que esta apresenta e é perpetuado por sua maiora." - ou seja, apesar do meu bla bla bla, eu só to fazendo número. Eu não acho que uma passeata ou abaixo-assinado e o lingerieday sejam equivalentes. Pq uma passeata ou um abaixo-assinado tem indiscutivelmente uma dimensão política. Eles costumam requerer algo, de ordem social, política, eles costuam estar ligados a uma injustiça, a um desequilíbrio. E o lingerieday só passa raspando por isso, pois satiriza as reivindicações "sérias" (basta ver o cartaz) e o desequilíbrio que motiva o pedido (vamos ver/ postar foto de lingerie no avatar por um dia). Então estruturalmente, como organização e solicitação, o LD é uma sátira. Eu acho impossível não perceber isso. Que ele satiriza as campanhas sérias. Tirando todo o caráter político e propondo "esbórnia e luxúria". Mas ri quem tiver um humor afinado com isso, claro.

Agora, quanto ao teor machista, a gente vai esbarrar de novo num ponto de discórdia insolúvel. Eu não acho que propor que uma mulher se dispa é machismo, assim, tout court. Porque essa proposta, além de obviamente dar espaço para que a mulher aceite ou negue com tranquilidade, lida com uma atividade que pode ser prazeirosa, interessante, divertida, pra ELA. Machismo é pressupor que apenas o homem se diverte ao ver uma mulher de lingerie. Pressupor que não há um deleite feminino em exibir-se, ver-se e saber-se observada. O fato de ela ter seus motivos e buscar realiza-los exibindo-se não pode ser ignorado. Se ela diz "eu gosto, eu quero", não se pode considerar que ela então já sofreu dano e não consegue mais perceber que está sendo usada e diminuida. Porque isso é diminui-la. é vitimiza-la. é dizer: minha filha, vc não percebe o que estão fazendo com vc, vc não entende o mundo à sua volta, vc quer e gosta de uma coisa ruim, errada e feia. Essa diferença na concepção de machismo está na base da briga toda e, isto posto, acho que esbarramos num ponto definitivo. Porque o que eu considero machismo, é muito claro isso, difere disso que vc me apresenta como machismo. E como a minha concepção de machismo orienta meus atos enquanto feminista, posso dizer apenas que eu agi de maneira coerente com meus valores e consciencia. Não agi politicamente, não fiz da minha exibição um ato feminista. Minha exibição foi divertida, foi irônica, foi uma questão de linguagem. Mas tbm não fui displicente qto aos valores nos quais eu acredito, entre eles, de que minha integridade e capacidade cognitiva e deliberativa estão sendo respeitadas.
[continua]

aline disse...

Vc nao tem como comprovar que os integrantes são machistas. Assim, na vida, na relação deles com as mulheres e tal. É impossível. E se sua constatação se baseia "nas posições dos criadores" do lingerieday, então vc não tem meeesmo como aferir isso. Pq vc nao tem sequer acesso ao que esses caras são. As falas deles sobre o LD não são material o bastante pra vc "descobrir" isso, pq elas se dão num momento de conflito (estou falando da coisa de gorda não poder participar e tal). Eu to conversando com eles por msn há dias. Discuti feminismo, o lingerieday longamente com um de seus criadores. E sinceramente, ele não é machista. E foi extremamente cuidadoso, sensível conosco. Isso que eu to dizendo pode ser posto em questão, claro, mas tudo bem, pq meu discernimento já foi e está sendo desconsiderado de maneira geral. E, com isso, nós voltamos aquele ponto: o que eu considero machista não bate muito com o que vc considera.

O lingerieday, proposto por feministas?? hahahaha Difícil imaginar.

"Não estou dizendo que estas pessoas seriam melhores ou menos machistas" - sim, está. Como não está? Vc está defendendo exatamente isso, que a campanha é machista pq esses caras são, e que se fosse proposta por feministas não teria problema tirar a roupa pq partindo delas tudo bem, já que os valores e intenções delas não são machistas e portanto, melhores para a sociedade. Uai.

"Na dúvida prefiro sufocar as revoluções que não quero que aconteçam" - alguns chefes de estado também tem essa filosofia de vida aí. Acontece.

"Este não era o sentido original da frase, mas ressignifiquei ela pra mim ^^" - isso prova que vc exerce plenamente suas faculdades linguísticas, interpretativas, pensantes, criativas, comunicativas. Agradeça a cada professora de lingua portuguesa que teve na vida, o mérito é delas. Eu atesto que vc foi devidamente alfabetizado e familiarizado com o mundo das letras, e enfim, que vc está vivo e lúcido. ;)

"não é uma roupa ousada na rua ou no trabalho que me incomoda, mas sim a participação deste movimento específico." - eu não usei os exemplos das roupas "ousadas" pra falar do nosso incômodo em relação a elas, era de outra coisa q eu tava falando. Mas ok, saquei que pra vc o #lingerieday não deveria ter nenhuma adesão.

abraço

Danilo disse...

Sim eu falei do pedaço de bife denotativamente mesmo, não foi uma piada. Mais uma vez, não estou dizendo que apenas o homem se diverte ao ver uma mulher de langerie. Não estou ignorando o seu desejo ou o das mulheres, não acredito que você seja um objeto que já sofreu dano e por isso não sabe o que faz. Eu vejo um posicionamento quando vejo aquele cartaz específico com aqueles criadores específicos e você vê uma brincadeira saudável, e é ai que está nossa discordância. E também acredito que os criadores possam ser pessoas bastante sensíveis e isso não os impede de cometer deslízes. Veja só, eu não baseio meu julgamento sobre eles apenas no comentários pós-lingerieday. Eu li os seus blogs e fiz minha análise. E isso não deveria ser uma ofensa, assim como não quero ofende-la aqui. Tenho total respeito por sua opinião, assim como a do gravataí e a do morroida caso discordem, mas isso não impede de eu ter a minha e debate-la. Não acho que esteja fazendo número, você simplesmente discorda de mim. E não estou dizendo que caso a campanha fosse naqueles moldes que eu falei haveria menos pessoas machistas. Porque apesar do LD ser machista segundo a minha definição você não é, e você participou do lingerieday. É só uma questão de discurso, assim como na passeata gay vão pessoas com os mais diversos motivos a passeata não deixa de possuir um corpo de objetivos. Muda-se ele, mudariam as pessoas que se identificam com ele, o público-alvo. As feministas não seriam mais ou menos machistas, até porque essa palavra carrega n sentidos, mas o posicionamento da campanha seria outro.
Até.

astrocat disse...

Aline, mandei de novo. Pode estar caindo na caixa do spam. Meu email é astronautcat @ yahoo.com. :)

aline disse...

Danilo,

Então se mesmo com todas essas concordâncias entre a gente de que há desejo feminino, de que eu não sou machista, de que uma proposta idêntica feita por feministas não mudaria as possibilidades de leitura dos outros, se mesmo assim as nossas conclusões são opostas é porque a gente chegou nesse núcleo mínimo de concepção de mundo. Onde nós ficaremos como os sapos do Manuel Bandeira: o lingerieday é machista!-não é!-é!-não é!-é.
Mas tudo bem, porque isso tbm vai de acordo com o que eu estou dizendo: não é um fato. É tão importante pra mim ver como aqui, na minha caixa de comentários e na da Lu, isso fica evidente. Porque a dissonância se mantém e evidencia o caráter pessoal de cada leitura, e não a evidência quase científica com que o argumento parece ser hasteado por aí.

Obrigada de verdade por vir aqui e conversar comigo. Porque eu vejo muito respeito nessa sua postura, nesse tempo todo que vc gastou pra me mostrar o que pensa. Obrigada.

um abraço e até.

aline disse...

Astrocat, tava no spam sim. Bizarro. Vou ler e respondo logo, ok?

:*

aline disse...

Ah, Danilo, não estou associando "não ser machista" à sensibilidade e educação dos caras não. Não são machistas pq nao subjugam as mulheres, entendem a campanha de um jeito diferente mesmo do que estão dizendo que eles entendem. Muita coisa está sendo colocada na boca e cabeça deles.

Quanto à sensibilidade e educação, eu faço questão de pontuar pq isso pra mim foi uma coisa impressionante, ver como estou sendo ofendida nessa blogosfera feminista. Não só no dia do twitter. Ontem, anteontem. Juro que li cada uma dessas palavras sobre mim: tapada, burra, ridícula, mal amada, vadia, ingênua, mau caráter, coitada.
Então faz diferença. O tratamento mesmo. Vc eu tbm considero que foi sensível e educado comigo e por isso que eu te agradeço. Porque eu não me sinto agredida na sua fala, nao sinto que vc tenta humilhar.

É isso. :)

Daniela disse...

Line,

Eu estive viajando, off de tudo esses dias e voltei ontem e encontrei o circo armado.

Ainda que eu mesma não participaria desse LD ou de qualquer outra coisa encabeçada por quem foi (o Gravataí, pq o outro nem conheço e nem pretendo) nem que fosse dia de caminhada ao ar livre, respeito o seu direito inalienável de escolher participar do que você quiser.

Nem vou entrar nos méritos da questão... Só quero me solidarizar contigo, porque me entristeceu acompanhar o rumo que as coisas tomaram e a forma como você acabou sendo ofendida e magoada.

Meu beijo e um abraço bem forte pra ti!

aline disse...

Dani,

A discordância não me arranha em nada, acho q vc sabe disso. Que eu lido numa boa. Nem crítica pra mim é problema. Mas existem limites dentro dos quais as discordâncias devem ser postas e as críticas feitas. Dizer que minha escolha me tornou um objeto, me inferiorizou, reduziu aquilo que eu sou, é passar dos limites.

Agradeço o apoio e a solidariedade, o carinho mesmo em vir aqui e se posicionar com doçura e tranquilidade.

Beijo grande


(nunca antes neste pais alguém viajou tanto quanto vc, heim? ô delícia hahaha)

Iara disse...

Aline, nesse ponto, concordo com o seu raciocínio. Se o Túlio realmente disse isso, "vai ser chamada de vadia" e tal, foi de uma machismo inenarrável. E concordo que se o olhar te objetifica, a culpa é do olhar, não sua.

Mas não concordo com a menção ao post da Marjorie sobre a Juliana Paes. Porque tem sim dois pesos e duas medidas: a Juliana Paes não se manifesta publicamente como feminista, como você faz. E tomar uma posição pública sobre algo implica em ser cobrada por isso - o que não justifica, em nenhum momento, os termos e a grosseria de alguns, claro. Mas faz sentido eu virar pra Juliana Paes e dizer que posar pelada é ceder ao patriarcado? Ela vai dar risada e me convidar pra tomar uma Antártica - eu passo.

Quando a gente carrega uma bandeira, não dá mais pra brincar sem pensar a respeito. E não estou dizendo que você não pensou. Pensou, escreveu um post, e se posicionou publicamente. Tá disposta a dialogar sobre isso.

aline disse...

Pois é Iara. E até agora, nada de desculpas. A Cynthia se desculpou bem razoavelmente na mesma noite, mas o Túlio nem isso. Bate o pé, repete as mesmas coisas, passeia pelas caixas de comentários apludindo e sendo aplaudido. E tbm não to vendo ninguém cobrá-lo por isso, embora ele sempre tivesse se posicionado favoravelmente à causa feminista. ¬¬

Quanto ao affair Juliana Paes, os "dois pesos e duas medidas" não são entre eu e ela, são entre ela e ela de novo, porque o mesmíssimo caso foi avaliado duas vezes, e em cada uma das vezes a conclusão foi diferente porque a Marjorie estava falando em outro contexto (esse, que me dizem que é imutável). Em 18 de julho Juliana é vítima de Marcelo Tas, de Macaco Simão, porque ela se rebelou contra sua objetificação. Em 24 de julho ela é vítima da própria escolha, de uma deliberação dela. Ela se colocou numa posição vulnerável e por isso Marcelo Tas se sentiu no direito de chama-la de bunda. É exatamente o comentário do Túlio: amanhã vão te chamar de vadia, e vc não poderá reclamar. Repito: entre 18 e 24 de julho, a única coisa que mudou foi o lingerieday.

Já disse que meu decote não foi um ato político, não foi uma atitude declaradamente feminista. Embora ele não contrarie meus valores e ideias, porque eu devo coerência a mim mesma e não a um grupo heterogêneo quanto a blogosfera feminista. Não faz sentido me cobrar isso. Até porque, se o problema é mostrar o decote e não ser mais respeitada nem levada a sério, quem tá fazendo isso são as feministas. Que estão colocando meu feminismo em xeque (já que minha capacidade de perceber o machismo e lutar contra ele está falha, eu "cedi" ao patriarcado), dizendo que eu agi contra a causa. Em última instância, é entre as feministas que meu decote me "prejudicou", e não entre os adeptos do lingerieday, que até agora vieram me elogiar, sobretudo intelectualmente.

Tem outra: acho arrogância dizer isso sobre a Juliana Paes. "Mas faz sentido eu virar pra Juliana Paes e dizer que posar pelada é ceder ao patriarcado?" - justamente, não faz sentido nenhum dizer isso, assim como não faz sentido dizê-lo pra mim. Porque vc está aplicando, nessa pergunta, sua concepção de "ceder", de "patriarcado". Vc está reduzindo toda a experiência e inteligência dela, duvindando de sua capacidade de decidir o que é melhor pra si mesma. Como se ela não soubesse q está armando uma armadilha pra si mesma. Exatamente como fez Marcelo Tas e a Marjorie criticou (em 18 de julho): "quem é vc pra reclamar de machismo?". Ela é desumanizada nessa fala aí.

Parece que algumas feministas se sentem diante da Matrix, como se apenas elas enxergassem a realidade. Então as gostosas q posam pra playboy, elas tem de ser relevadas, porque elas nem tem ideia de que elas são usadas. E qdo elas são ofendidas publicamente a gente tem que defender e mostrar pros machistas q eles estão errados. Que não é porque são gostosas e posam nuas que elas são só um corpo. Agora, se uma feminista se exibe, aí não, aí ela tá forçando a barra, tá dando armas ao inimigo de graça. Ela não precisa ser protegida do machismo, nao precisa ser poupada de ser chamada de burra, porque se ela se diz feminista e se exibe, então ela é burra de fato. E é isso q eu to lendo por aí ainda: burra, tapada, ingênua, mau-caráter.
Eu, né? Sei, sei.

aline disse...

Ah, Iara: "se o Túlio realmente disse isso", não. Ele disse. Ponto. Tá aí, linkado.

Danilo disse...

Aline,
Não precisa agradecer, sou eu que agradeço. Alias, na pressa esqueci de dizer que a deconstrução deste post ficou muito boa. Abraço

Claudio Siloti disse...

Aline, preciso te dizer uma coisa: vc é incrível no debate! Muito bom acompanhar, mesmo. Parabéns.

E tbm faço questão de dizer que concordo com vc, eu acho que o decote no twitter não te desabona de jeito nenhum. Eu acho vc muito inteligente. Mas de repente minha opinião e admiração valem menos, porque como eu sou homem tenho 99% de chances de ser um machista!

aline disse...

Danilo, ah legal. Valeu :*

Claudio, Eu me esforço mesmo pra ser coerente, pra dar conta do debate. Se eu tenho êxito são outros quinhentos, mas que eu me esforço, é verdade.
Obrigada pelo apoio, pelos elogios. Pra mim eles valem sim, hahaha! :)

bjim

Iara disse...

Mil desculpas se pareceu que eu duvidei de você quando citou o Túlio. Não foi essa a intenção. Eu havia lido o link antes, não tem porque dizer se ele "realmente disse". Disse, e é horrível. Concordo que ele deve ser cobrado sobre isso, mas não tenho os meios para fazê-lo, já que ele não fez um post sobre isso, como você fez. Mas, em momento nenhum, em nenhum dos posts que eu comentei, elogio a atitude dele. Acho que ele e a Cynthia foram paternais com você, no pior sentido da palavra, como se você não fosse adulta e capaz de fazer sua escolhas, só porque sua escolha não é a que eles particularmente fariam. Acho que, no meio deste debate, tem muita gente se portando assim com você, mas vi também comentários como os meus: não é o que escolheria, discordo por X, Y, Z, mas o corpo é seu, a decisão é sua.

Mas discordo de novo no lance da Juliana Paes. Não, as femininistas não vivem numa Matrix. Mas supõe-se que reflitam sobre coisas que outras pessoas não refletem. Assim como filósofos, por exemplo. Meu melhor amigo é filósofo e aponta muitas vezes contradições no meu raciocínio. Não faz isso pra me julgar, mas pra me convidar a pensar sob um outro ponto de vista. E lógico que eu posso escolher a contradição, mas se estou aberta a pensar, o que há de errado em me apontar? A questão pra mim é essa: você estaria disposta a falar sobre, a Juliana Paes não. Ou está, sei lá, mas ela não se manifesta publicamente sobre isso como você.

De novo: que vamos andar em círculo é fato. Não vamos concordar porque sim, eu creio que posar pra Playboy não é nada bacana, e sim, não mudo o termo "ceder ao patriarcado" porque eu acredito nele. Mas você tem todo direito de lidar com isso de outra maneira.

Sobre a sua associação com o estupro, a questão da vulnerabilidade, o que a Marjorie falou, acho que tem algo importante aí: o mundo é machista. Isso tá errado, claro! Não concordo com essa história de que bebeu até cair, deu mole pra ser estuprada. Mas se eu tivesse uma filha, ia ter que falar pra ela tomar muito cuidado quando e com quem bebe, porque essas coisas podem acontecer. Então, não posso falar pela Marjorie, só por mim, mas eu entendo que o Tas tá erradíssimo em julgar a Juliana Paes, mas a Juliana escolheu se colocar numa situação em que gente nojenta pode julgá-la, e taí a vulnerabilidade. Não é culpa dela que o mundo seja machista e isso não justifica nada, nem diminui o machismo do Tas, lógico. É uma explicação de como as coisas funcionam, apesar de eu não concordar com elas, não uma desculpa. E se você assume isso numa boa, e tem a segurança necessária pra se impor ante a esta gente machista, palmas pra você, de verdade, sem nenhum cinismo. Mas nem todas essas mulheres tem essa confiança. Espero, de verdade, que este seja o caso da Juliana Paes, porque acho que, se alguém merece um processo é o imbecil do Tas.

E concordo quando você diz que errado é quem acha que isso é um processo irreversível: mostrou o sutião, se reduziu. Afirmar isso é que é machista. Você pode dizer que o seu posicionamento e o da Lu contribuem pra quebrar essa lógica, já que você não concorda com ela. E nosso ponto de discórdia, e acho que o de muita gente aqui, é que este não foi o melhor contexto.

Iara disse...

Apesar de ter ficado um livro o meu comentário anterior, eu voltei pra explicar uma coisa: quando eu disse que eu posso escolher a contradição, tô falando só de mim, ok? Você está sendo coerente com a sua construção das coisas, que é diferente da minha, e como disse alguém no post anterior, não estou aqui pra te trazer a luz e a verdade.

Daniela disse...

Que nem já falaram aí em cima eu fico aqui acompanhando o debate a adoro e fico pendendo pra um lado e pro outro e minhas opiniões sobre o caso são uma colcha de retalhos...rss.

E a Iara tem blog? Você é uma lady, menina, e inteligente.

E Line, eu sempre cometo a blasfêmia de dizer que a única coisa boa de ser professora é ter duas férias por ano...hohohohohoho

Beijos, flor. Minha admiração por ti só cresceu com esse causo.

aline disse...

Iara,

a única coisa que eu não entendo é vc perceber o machismo da frase do Túlio e ao mesmo tempo dizer que a exposição do corpo me deixa vulnerável. A frase do Túlio é a aplicação, o exemplo primeiro da minha suposta vulnerabilidade. Pq eu mostrei o decote e estou vulnerável. Mas a que, exatamente? Não a ser violentada, não a ser coagida a transar com o chefe, eu estou vulnerável a ofensas do tipo "vadia" e ao pensamento "é só uma gostosa".
Então como pode estar o Túlio tão errado e a "teoria" que a fala dele procura exemplificar, certa?

"o Tas tá erradíssimo em julgar a Juliana Paes, mas a Juliana escolheu se colocar numa situação em que gente nojenta pode julgá-la, e taí a vulnerabilidade" - Foi exatamente contra essa frase q eu escrevi esse post. A Juliana não se fez vulnerável coisa nenhuma, o Tas q é tosco e reduziu ela a uma bunda. Ele não pode em hipótese nenhuma dizer isso dela. Com ou sem Playboy. Ou a Juliana é "vítima" do Tas e ponto, ou ela é parcialmente responsável pela ofensa q sofreu. E vc mesma já disse no outro comment que "E concordo que se o olhar te objetifica, a culpa é do olhar, não sua."

"se eu tivesse uma filha, ia ter que falar pra ela tomar muito cuidado quando e com quem bebe, porque essas coisas podem acontecer" = ela é refém. Ela tem q se pautar pela ameaça do outro. Só que nesse exemplo aí vc inseriu a coisa dela desmaiar, perder a consciencia e a voz, e ficar vulnerável a qualquer coisa. Vc tbm diria p ela não usar decote e minissaia numa festa? Provavelmente não.

"É uma explicação de como as coisas funcionam" - isso não é consenso. Nenhuma teoria é definitiva e dá conta da realidade.

"E se você assume isso numa boa, e tem a segurança necessária pra se impor ante a esta gente machista" - exatamente. É isso. Só que até agora eu não recebi nenhuma ofensa de um machista típico. Só de minhas coleguinhas e parte de suas leitoras. O que torna a coisa muito irônica, a meu ver. Quer um exemplo? A Marjorie comentou na Mary W que ninguém quis dizer que eu sou bife, não. Que eu não entendi o que quiseram dizer ou estou de má-fé. (!)

"Mas nem todas essas mulheres tem essa confiança." - Aí vai de cada um, né? Só que: não é dizendo q a mulher se coloca numa posição vulnerável q a gente estimula a confiança feminina. Pelo contrário. Essa fala da vulnerabilidade, ela é paralisante.

"este não foi o melhor contexto" - pelo contrário. este foi o contexto perfeito, pq ele mostra as fissuras, os limites desse discurso "vc será objetificada". Pra mim, pelo menos, e no compto geral eu gostei da discussão q se deu aqui e na caixa da Lu.

De resto, muito obrigada.
:***

ps. é verdade, ele não escreveu um post. nem veio aqui. aliás, nenhum deles veio. pena. teria sido importante argumentar tete-à-tete.

aline disse...

Dani,

hahahahahahha que gostoso ouvir isso \o/

Nossa, tbm não sei se a Iara tem blog. Tem, Iara?

Eu acho essa blasfêmia válida, viu. Tem q descansar muuuito.

Olha, obrigada. Fico muito feliz de saber disso.

:********

Iara disse...

Daniela, obrigada pelo elogio. Não tenho blog: meu leve complexo de inferioridade me faz achar que todo mundo diz as coisas de um jeito melhor do que eu poderia dizê-las, que minha contribuição comentando é mais do que suficiente. Pode ser que eu reveja isso no futuro, mas por hora...

Então, Aline, não acho certo nem o Túlio, nem o raciocínio. Mas talvez falasse pra minha filha que ela não deve sair com uma roupa muito decotada, porque ela convive com pessoas com cabeça de bagre, e nem sempre a gente tem força pra se defender. Concordo que o certo é dar munição para fortalecê-la, mas, na boa, nem sempre eu tenho essa força. A culpa vai ser sempre do estuprador, mas o dano é da vítima, né?

Mas eu entendo o seu ponto de vista, entendo cada vez melhor. Você tá fazendo o que quer e partindo pro enfrentamento. E os tiros vieram de onde você não esperava. Neste ponto de vista, se esconder não adianta nada, é colaborar pra naturalizar a agressão, você tá certa. Só não sei se este embate, deste jeito, neste momento, é o ideal. Mas cada um escolhe suas armas.

Eu continuo não gostando de um monte de coisas em relação ao lingerie day, e continuo concordando com boa parte dos argumentos de quem se manifestou contra, Marjorie e Mary W incluídas. Mas tenho achado este debate cada vez mais revelador sobre a natureza das pessoas e de seus discursos. Como a primeira reação das pessoas a respeito de algo com o qual não concordam diz muito sobre como encaram o mundo. E tem gente, que realmente, acha que é portador da luz e da verdade...

aline disse...

Iara,

O exemplo da filha é legal: se ela não quer usar roupa decotada porque é tímida, porque não se sente à vontade, porque não acha bonito, é indiscutível. Não usa e pronto, tá certa mesmo e seja feliz. Agora, se ela quer, se acha legal, bonito, mas é orientada a não se exibir por causa da cabeça de bagre das pessoas, então ela vai acabar, cedo ou tarde, se limitando ao olhar do outro. Achando que o olhar do outro tem validade e realidade, e que se as pessoas a olharem como fútil ou vadia ela não terá condições de negar. E isso legitima a cabeça de bagre, invés de combater. Aí eu acho triste e paralisante. Pq tvz demore pra ela perceber q as cabeças de bagre estarão sempre por aí, falando o que quiserem. E ela não precisa ligar pra isso. E na hora que a amiga dela aparecer de decotão, será a puta da balada. Será mais criticada do que o cara que a chamou de vadia, pq afinal, ela se expôs a isso. É isso que eu to querendo dizer com o contexto da campanha não importa: a vontade e afirmação da sua filha são mais importantes do que o dono da festa ou os outros convidados pensam.

"O dano é da vítima." É. e mesmo assim, mesmo nos piores casos, não significa que a mulher está quebrada e esse dano é irreversível. A Lu tem um post lindo sobre isso. Sobre como lidamos com o estupro. É preciso sempre reconhecer a vitimação qdo ela acontece. Sempre. Fundamental isso. Eu poderia falar muito sobre e nem chegaria perto da beleza do post dela. Então, se vc quiser, leia (ou releia) esse post, tendo em mente essa frase "o dano é da vítima" : http://ebompraquemgosta.wordpress.com/2009/06/29/sobre-estupro-e-nossa-maneira-de-lidar-com-ele/

"Mas eu entendo o seu ponto de vista, entendo cada vez melhor. Você tá fazendo o que quer e partindo pro enfrentamento. E os tiros vieram de onde você não esperava." - muito obrigada por isso.

:*******


qto ao blog e o complexo de inferioridade, eu sou apoiadora de q vc faça um blog se tiver a fim, sem maiores grilos. a escrita é um exercício, assim como o diálogo. e vc sabe se expressar, sim, e bem. eu acho, pelo menos. \o/

Simone disse...

Aline, eu cheguei meio atrasada. Ontem a noite li seu blog e escrevi algo hoje pela manhã no word, coisa de gente que nunca opina em blog...rs. Quando vim ler novamente, você falou algumas coisas que eu pensei em outras palavras. Mas resolvi "colar" meu discurso aqui, porque sei lá né. agora que eu já escrevi...rs. bjs

tem um monte de gente batendo na Aline, criticando e tal. Sabe que eu acho: uma covardia.
Dizem: Ah, você não pode ressignificar não, a realidade é essa e vc tem que pensar 'a realidade'. E aí um monte de feminista se concentra em bater na Aline & cia.
É mais fácil criticar uma mulher? Ele, o cara que é machista e trata mulher como objeto não é o centro das críticas quando as feministas discutem. Quem é o centro é uma mulher que se arriscou em uma interação e que foi objetificada por ele, o machista. A responsabilidade é dela. Sim, é mais fácil bater nela né.
Ele é o dono da verdade, jamais vai ceder, nem repensar, nem considerar o que o outro diz, então nem vou argumentar (porque afinal, é um troglodita, ou seja, repete-se a velha história) eu vou bater nela, que repensa, que reflete. Ele é coerente, é um completo machista. Ela é incoerente porque ressignifica. Caraca!!
È mais fácil criticar quem está buscando seu caminho, quem está lutando para se fazer fora dos padrões. E tem gente aí falando que não importa o que vc fale, pense ou faça, deve sempre considerar, que seja lá o que faça, está amarrada a padrões, e tua única escolha é optar por qual padrão seguir. Caraca. Me poupem. A sociologia só pensa assim? Como se a gente fizesse parte da massa?
Assim caminhamos no feminismo.
Terreno espinhoso... e Aline... a sua foto ficou linda. Dá pra descolar sim, porque eu descolo sim, tenho essa capacidade de reinterpretar sim. E ressignifico e não to nem aí. Esse pessoal segue uma lógica e uma racionalidade tão tão ultrapassada, tão tão linear. Eu pego tudo e reverto sim. E vi tua foto e achei linda! E leio aquele blog do morróida e acho ele tão limitado.
E quer saber, prefiro gente que se arrisca. Tem gente que pensa demais e segue o caminho mais cômodo no final. Te criticar e sair de racional, de inteligente e não se arrisca, porque não quer pagar mico. Coitadas. Presas na lógica da coerência e da manutenção de seu status quo. Soa tão masculino isso. E depois tem gente que diz que não te expôs. Expôs sim. Li gente falando de você como se você fosse uma idiota. Como se você tivesse cedido para o machismo, se deixado fazer objeto. Credo, uma prisão esse negócio, uma armadilha. Como se o machismo existisse por causa de mulheres como você. Pra que as feministas fazem isso? Pra se auto-afirmar? Afirmar que ela nunca experimenta nada além daquilo que ela tem certeza? Até parece que os eventos sociais seguem assim uma cascata em linha reta e que todas as conseqüências estão previstas. E que você é só uma peça na reafirmação do que ELES dizem. Que liberdade não existe porque vc está presa na sociedade. Como se a gente fosse para sempre a repetição do que já existe. Porra. Não dá então pra interpretar? Nossa. Puxa, que coisinha mais positivista não. E que se os atores que criaram são machistas, então todo mundo que entrou na proposta, entrou no machismo deles. Credo. Eu vou continuar me arriscando, eu gosto de várias posições...rs. E acho que se você descola, você ressignifica, que se você ressignifica você inverte o contexto e dá sim pra mudar tudo porque não vejo o mundo seguir em linha reta, não vejo mesmo. Dá pra inverter sim. Eu inverto e não to nem aí. Porque eu prefiro o imprevisível, eu prefiro usar o contexto pra fazer minha história. Não há previsibilidade e o que pode ser libertador hoje pode ser a prisão de amanhã.
Se só os especialistas da área forem falar, vão falar sempre a mesma coisa. Eu sou mulher e essa é só a minha opinião.

Deborah disse...

Oi Aline, a Iara me convidou pra vir pra cá :)
Estou conversando com a Lu lá no blog dela. De fato não tenho nada contra vocês, nem com meninas putonas (não tô chamando vocês de putonas, mas defendo o direito da mulher se "portar" e trepar a vontade).

Vou colar aqui o disse pra ela:

O que eu critico não é o fato de botar foto, ninguém “se transforma” em objeto porque gosta de tirar fotos eróticas, eu queria mesmo é que o conceito de erotismo fosse desconstruido sabe? Queria que mulheres “reais” pudessem compartilhar fotos nuas para exercício contemplativo, que pudéssemos andar peladas, não usar sutien só pra os peitos “não ficarem feios”, que mulheres mais velhas também fossem consideradas sexies com a aparência real da sua idade, etc, etc
Mas esse é o (meu) mundo ideal, não a realidade. Eu nem participo do Twitter, mas se participasse, o meu avatar no tal dia seria uma lingerie pegando fogo he he he he.

O problema não são os objetos, são os encaixes que nos dão a cada ação. Quer nos julguem feias demais ou bonitas demais, não dão ouvidos ao que temos a dizer.

Quando vi o cartaz o que senti foi: Tem uma branca gostosa aí na foto, não querem “feias”, querem material pra punheta, não tem nada de libertário em pressionar as mulheres em tirar a roupa e posarem de modo que disfarcem “os defeitos” e aposto que terá uma onda de “uhú, isso que é modernidade, gente pra frentex”. É machista, “moderninho” e tem o padrão “Ruffles Costela de Qualidade”.

Obrigada por dialogar.


Sobre uma filha:
Não quero ter filhos, mas se tivesse uma menina, ensinaria Wen Do desde pequenininha. Lutaria pra que a auto estima dela fosse alta e que não se intimidasse com os babacas. É isso ;)

Iara disse...

Que bom que você veio, Deborah!

Aline, você tem razão sobre o lance de refém, lógico. E li o post da Lu sobre o estupro, comentei lá, inclusive. Entendo o que você diz sobre legitimizar os cabeças de bagre. Com certeza há momentos em que essa luta é importantíssima pra mim, mas não todos, então não são todos os riscos que eu quero correr, não são todas as exposições que eu topo. E talvez, realmente, este seja importante pra você.

Acho que a grande dificuldade de todo mundo é entender porque postar esta foto, neste dia, atendendo aos convites destes caras, é relevante pra você. Pra uma galera imensa que postou aqui, o Gravataí escreve coisas extremamente ofensivas, e não aceito que seja "só zoeira". Sério, me sinto muito ofendida lendo o que ele escreve, e os comentários do pessoal, e sei que não estou sozinha nessa. Estaria mentindo se não dissesse que rolou uma imensa decepção vendo os tapinhas nas costas dele por aqui.

Mas, hei, não é porque em teoria as pessoas tem alguma afinidade que deve concordar sobre tudo. E, quando não concordam, o respeito deve ser a base da argumentação, né? Respeito esse que faltou de muita gente, mas que você teve do Gravataí. Ok, ninguém erra ou acerta o tempo todo.

Iara disse...

Relendo: o "imensa" ficou por minha conta. Devem ter sido só umas 3 pessoas. Desculpaê, eu tendo a ser superlativa, o que é péssimo pra credibilidade... :(

aline disse...

Simone.
Minha profunda gratidão pelo o que vc disse. Obrigada, antes de mais nada, obrigada.

Eu nunca na vida, nunca, fui testada e questionada com tanto afinco e hostilidade. Nunca precisei me justificar tanto, provar a coerência dos meus pensamentos em cada detalhe e de maneira tão repetitiva. E embora eu dissesse que minha foto não significa nada além de uma foto, que ela não me objetifica, que ela não é um sinal de omissão nem cumplicidade com o Machismo (como M maiúsculo), eu precisei refazer cada passo, desde minhas escolhas de vida e visão de mundo até os motivos e consequências da minha adesão. É exaustivo fazer isso, ainda mais acompanhando ao mesmo tempo os outros blogs e percebebndo que o que eu falo não significa nada, que a maior parte das pessoas é refratária, é indiferente a mim. Porque enxergam apenas a si mesmas, e universalizam o que são e simplesmente não conseguem ouvir. Não se esforçam pra entender.

Agradeço por essa palavra: covardia. Teve disso sim, e muito.

Disseram que eu cedi ao patriarcado porque isso é mais fácil, porque há um apelo masculino praticamente irresistível às mulheres, uma necessidade de aceitação. E poucas vezes eu fui tão pouco aceita entre aqueles que eu considero próximos. Bom, provaram-me que não são próximos. Não fui eu certamente quem estive na zona de conforto durante essa semana, porque eu tive muito pouco apoio e muitos desaforos a engolir, e mesmo qdo eu ironizo e nomeio quem me ofende, sou eu quem baixa o nível. Eu acho mais confortável o delírio de quem acha que entendeu tudo e conformou-se com sua prisão. Por algum motivo, meus ex-interlocutores acharam que a aceitação dos supostos machistas era mais importante p mim do que a aceitação deles, e se fosse pela aceitação, eu teria ficado quieta e depois feito um post invocadinho sobre o #lingerieday e teria sido aplaudida, porque vc tem razão, eles são previsíveis.
Mas enfim Simone, esse seu comentário é um alívio pra mim, é prova de que eu não estou falando sozinha. Há essa interlocução e esse companheirismo com a Lu, que me é muito caro, e há pessoas como vc que vem aqui e entendem o que eu estou tentando dizer. Perceber alguem em sintonia intelectual e sensível comigo já torna as coisas muito melhores.

De novo, obrigada.
:****

aline disse...

Oi Deborah

"De fato não tenho nada contra vocês" - ah, valeu.

"gostaria que o conceito de erotismo fosse desconstruido" - Eu, que passei a madrugada em claro no twitter, vi corpos muito diferentes entre si serem exibidos. Mulheres e homens gordos e magros, em fotos sensuais, divertidas, satíricas, e blá. E todos curtindo, paquerando de zoeira, paquerando a sério, sendo elogiados, elogiando, todos se vendo e conversando e rindo muito, muito mesmo. Eu nunca estive com tanta gente bem resolvida quanto ao próprio corpo ao mesmo tempo. Então acho que essa madrugada foi algo parecido com o q vc descreve. Só que eu não acho a campanha conscientizadora nem nada, acho que quem participou veio nesse clima já, é um pessoal q já tem mais ou menos essa visão, pelo menos na rodinha onde eu estava, com quem eu curti tudo isso. Foi muito legal, e espero que durante o dia o clima continue assim, leve.

Agora, extra campanha o buraco é mais embaixo, claro. Pq certamente há um tipo de beleza que é privilegiada, divulgada com exclusividade. Que não tem a ver apenas com o formato do corpo, mas com a cor da pele e o tipo de cabelo, tem a ver com idade e indumentária e gestual. Seria bom que as mídias mantivessem a mesma variedade que existe no mundo real. Só que erotismo não equivale a padrão de beleza, não depende apenas de questões estéticas. Mas to sendo chata, eu entendi o q vc quis dizer, e concordo.

"Quer nos julguem feias demais ou bonitas demais, não dão ouvidos ao que temos a dizer." Os machistas, os superficiais, é verdade. Há aqueles que não ouvem simplesmente porque quem fala é uma mulher. E eu sempre acho que há maneiras de burlar e quebrar isso no cotidiano, nas situações corriqueiras. Só de exemplo: numa reunião de depto da faculdade, na qual apenas os professores falavam e se sobrepunham às professoras, teve uma vez que uma delas levou um pinto de borracha e, na terceira vez que foi cortada, colocou o pinto na mesa e disse "agora que eu mostrei que tenho um pinto, é a minha vez". E os professores ficaram atônitos, ouviram e as reuniões de depto melhoraram muito.

"Tem uma branca gostosa aí na foto, não querem “feias” - Então, até agora, não foi esse o clima. Mas tem uma coisa que me intriga muito. Por que diabos a opinião dos caras q criaram a campanha é tão importante? E se eles querem ver só as mulheres que acham bonitas? E daí? Eles precisam ver todas as fotos (tipo, inviável) de amigas e desconhecidas e elogiar todas pra serem justos? Não entendo mesmo. Quem quiser que poste a foto, seja bonita ou feia, pq isso não é definitivo nem depende desses caras. Uma das minhas fotos preferidas era de uma mina gordinha linda. E o cara que eu mais gostei tbm, um gordinho cabeludo e barbudo, super gato. Foi uma coisa pra se curtir numa boa, não era desfile e competição de miss não.

Eu tbm estimularia ao máximo a auto-estima da minha filha. Minha mãe fez isso muito, pq eu fui uma adolescente gorda e suspirava por roupas curtinhas, transadas, mas nao tinha coragem de usar então eu vivia de roupa escura e largona. E minha mãe se indignava, dizia p eu parar de ser boba, pra eu usar o que eu gosto e não ligar pro q os outros pensavam. Agradeço ela demais por isso.

Bjo

aline disse...

Iara

"E talvez, realmente, este seja importante pra você." - Ele não era importante, ele era insignificante quase. Ele se tornou importante no momento que eu ouvi que me deixei objetificar. E tomou corpo qdo vi o assunto repercutir e gente que nunca nem falou comigo achar que tinha o direito de falar de mim como se soubesse mais e melhor o que eu devo fazer na vida. Foi aí que o lingerieday tomou essa dimensão pra mim.

Sobre o Gravataí, eu já falei o que tinha e podia falar sobre ele, que nada mais é do que a minha impressão baseada em uma semana de conversa. Comigo, ele foi e está sendo um doce. Quanto aos textos dele, ok, vc fica ofendida. Eu não fico. Não li todos, provavelmente não rirei de todos, provavelmente vou discordar de alguns e pensar que ele exagerou. Não sei, não li, não vou ficar especulando. Mas: de fato, vc não está sozinha nessa. Há um ódio bem consistente declarado aí, em níveis que me impressionam. E a questão da proporcionalidade do ódio está no ar, pra mim. Pq eu me vi alvo de textos e comentários que sinceramente eu não acho que mereça. E muita gente (a maioria) falou sobre mim sem ter a mais ínfima ideia de quem eu sou, o que penso e etc. A grande maioria das pessoas assinou embaixo de posts com a subserviência e falta de reflexão de que sou tão acusada. Então essas pessoas me dão motivos para duvidar de suas motivações. Não acho que seja seu caso, mesmo. Estou falando desse coro todo, esse uníssono contra o cara. a maioria mal e mal leu o que ele já escreveu na vida, só catou a opinião de seu blogueiro preferido e reproduziu. Repito: não estou te incluindo nessa.
Agora, ele veio aqui sim. Gostou do que eu escrevi e veio apoiar. A caixa está aberta pra todos, até os anônimos, e é raríssimo eu apagar um comentário (acho que nunca apaguei nenhum). Então como eu fico na história? Vou herdar esse ódio todo porque eu me recuso a bani-lo do blog e ouso conversar amigavelmente com ele? Pq eu não tenho um compromisso com ngm, se alguém ficou decepcionado, esse alguém precisa resolver a questão internamente. Não posso arcar com as expectativas alheias, acho que as pessoas tem que olhar pra si mesmas e separar as coisas. É maturidade emocional isso.
E tem outra: eu escrevi dois textos sobre o assunto, um monte de gente gostou. Se alguém deixou que a antipatia por ele afetasse sua capacidade de leitura, compreensão e afetação quanto ao meu texto, se alguém se recusa a vir aqui conversar comigo, comentar e até resiste aos meus argumentos unica e exclusivamente porque o Gravataí está no meio da história, então sou eu quem quero distância dessa pessoa e é favor não vir mesmo. Porque essa pessoa não quer saber de mim, ela quer que eu corrobore, que eu dê sentido pro ódio dela, e eu realmente não tenho interesse em fazer isso.

Eu concordo Iara: ninguém erra ou acerta o tempo todo. Não acredito em mocinhos e heróis, mas também não acredito em vilões.

:***

aline disse...

vc não está tão errada no "imensa" não. Aqui, ou por mail, é possível q uns 5 ou 6 tenham se posicionado assim. Blogosfera afora, muitos declararam isso, e vc sabe.

Mas veja que coisa: o ultimo post dele, acaso nao fosse assinado por ele, tenho certeza de que seria muito bem recebido. Nenhum exagero, a meu ver, nenhum sarcasmo, pelo contrário. Em vários momentos, ele concorda e aprofunda os problemas que as blogueiras e comentaristas apontam.
:**

agora eu vou mesmo dormir. \o/

Iara disse...

Aline, sua última resposta ao meu comentário foi de uma clareza e segurança absurdas. Parabéns. Você tá certíssima, e pra mim o tempo todo ficou claro que, por mais que eu me ofenda com o que ele escreve, ele te tratou com respeito, enquanto a "inteligentzia" te desrespeitou e nem veio aqui pra dialogar. Isso é indiscutível, que se as pessoas quisessem de fato saber o que você pensa, e não inferir coisas a partir da esfera de valores delas estariam aqui dialogando. (divagando: os 140 caractres do twitter são muito escassos para saber, de fato, a opinião de alguém). Como eu te disse: me incomodei e vim aqui perguntar, porque não te conheço, mas te respeito. E reconheço que a sua maneira de encarar as coisas pode não ser a mesma que a minha e ela não é pior por conta disso, não cabe a mim desqualificá-la.

Agradeço muito a sua disposição em debater. Pra mim, pelo menos, foi muito enriquecedor.

aline disse...

Obrigada, Iara, obrigada mesmo. É isso, essa é minha queixa. Obrigada por dizer isso, porque esse reconhecimento, essa enunciação que vc fez, me é muito cara. E eu agradeço por isso, por sua disposição em debater e ouvir uma pessoa que vc nem conhece. Como eu disse pra Simone, é prova de que não estou falando sozinha.

Tem uma coisa que eu mostrei pra Haline, e gostaria de mostrar pra vc. Mas por e-mail. Vc poderia me passar seu endereço, me mandar uma mensagem? ateaquitudobem.blog@gmail.com


Beijos, Iara

psicosimone disse...

Aline,
eu que tenho que agradecer. Aprendi muito esses dias. Com a pressão que fizeram para você se posicionar. Eu não tenho blog por causa disso, tem que ter muito cuidado porque a palavra escrita tem um peso muito maior do que quando vc está conversando diretamente com a pessoa. Por isso acho que é arriscado chegar a uma conclusão definitiva sobre as pessoas.
Um beijo e parabéns!

aline disse...

psicosimone

é, é isso. não existe essa constatação, essa conclusão aí. mas vc já pegou tudo. \o/

:************

Désir La Vie disse...

Line,

Não sei o PORQUE mas sempre encontro problemas técnicos para postar no seu blog. Espero que esse vá...

Bem, quando leio os mais diversos blogs com conteúdo feminista, sempre me embolo toda. Não pelas idéias em si, mas por imaginar ter que segui-las de forma 'quase-partidária', o que não suportaria e não faria parte de mim...E não por simples negação, mas sim por falta de identificação e aceitação de algumas delas.

Quando li seu post anterior, me identifiquei demais! Vou lhe dizer o porque:

Sempre curti e sempre exibi boa parte do meu corpo(porque me sinto bem, porque não vejo problema, porque acho bonito). Há pouco tempo, o marido ciumento começou a tretar aqui; do tipo: Você vai ficar expondo seu corpo assim? Só vão olhar seus seios. Só vão olhar suas pernas.
Ele realmente acredita que ao me expor, me coloco à disposição. É machista? DE-MA-IS! Mas infelizmente é assim que ele e a grande maioria dos homens pensam. É a 'condenação' do objeto, da carne, dos meus-seus-nossos seios: a dita objetificação.

Você disse:
'Porque um avatar com meu rosto é uma metonímia necessariamente melhor e mais respeitável do que uma foto do meu sutian. Não sei de onde vem essa relação de representatividade e esse escalonamento entre as partes do meu corpo e "eu".'

Concordo com você. Porque ao expor partes do meu corpo eu tenho que me reduzir a um bife suculento? Porque fazem isso da minha imagem?

Mas o fato é que é assim. Nos reduzem mesmo, nos transformam em peças de carne expostas no açougue.
E é única-justamente por essa razão que jamais colocaria uma foto minha de lingerie no tuíter - no tal dia X. Pois estaria aderindo à verdadeira causa da campanha: a de virar um bife para quem quer bife.

Agora qual o melhor caminho a tomar para reduzir esse olhar masculino-feminino sobre nossos corpos? Juro, Line, não sei...Juro que não sei.

Infelizmente, as pessoas não pensam como você, como eu...E, inevitavelmente, criam representações diferentes para o nosso rosto, para o nosso seio, para as nossas pernas, para a nossa bunda, para a nossa xoxota. Não acho que seja tão fácil nos enxergarem como algo 'uno', como um único eu, indissociável daquilo que vem abaixo do cérebro.

Eu, particularmente, não vejo problema nenhum em ser um bifão, pois estou certa do que quero e penso. Mas o pensamento alheio me incomoda DEMAIS...Merda!

Beijos pra você.
=****

aline disse...

Oi moça :)

Sério q o blogspot dificulta ua vida aqui? Qq acontece? Ele perde seu comentário? Pq tem limite de caracteres... :-/

Legal, a gente concorda com bastante coisa.
"Mas o fato é que é assim. Nos reduzem mesmo, nos transformam em peças de carne expostas no açougue." - existe muito homem que faz isso, sim. Muitos, muitos. Só que eu estou em posição de lidar com isso. Não ligo pra quem acha que eu sou bife. E quem disse que sou teve que ouvir tantas e tantas coisas que eu tinha a dizer. Então eu não tenho receio desse pensamento tacanho que desconsidera minha inteligência e autonomia, sabe? Claro que choca e até machuca dependendo de quem diz isso pra vc. Um macho-alfa de calças arriadas não tem um cabelímetro de atenção minha. Mas pessoas que dizem combater os preconceitos tem minha atenção, minha consideração, minha admiração. É dolorido e confuso ouvir delas que eu sou um bife.
O que me preocupa é ver quantas mulheres ainda se pautam por esse pensamento. "É assim porque é", não. É assim porque está assim, porque a gente ainda não deu conta de exterminar esse pensamento idiota segundo o qual "mostrar lingerie no avatar > objeto".

"Infelizmente as pessoas não pensam como nós" - felizmente nós não pensamos como elas.

:******

Ricardo Cabral disse...

Aline, acabei de escrever algo no blog da Lu, que reproduzo aqui:

Lu e Aline, só acompanhei a discussão pelos posts de vocês e de alguns que as criticaram. Do que senti falta: a presença dos críticos nas caixas de comentários de vocês. O que mais me desagradou (mas não me surpreendeu): a agressividade contra as duas.

Do pouco tempo que acompanho os blogs das duas percebo que ambas construíram uma imagem de destaque na blogosfera em relação ao feminismo, ao erotismo, à normatividade e a tantos outros temas. Essa imagem foi conquistada com argumentos consistentes, ponderações (e provocações) criativas, além de posições firmes, que por sua vez criaram expectativas quanto ao tipo de comportamento que ambas assumiriam frente àqueles temas. E quando surgiu o lingerieday e vcs fugiram do script imaginado em relação às duas, choveram críticas iradas, um clima de "traição" ao movimento, como quem diz "esperava isso de qualquer um, menos de vocês!". Creio que parte da agressividade com que foram tratadas associa-se ao lugar alcançado pelos blogs de vcs.

Ok, vá lá que o que eu acabei de dizer explique um pouco as coisas. Mas se isso corresponde aos fatos, só posso acrescentar uma frase mais do que clichê: "explica, mas não justifica". Sem falar que não me recordo de ter lido qualquer tipo de agressão da parte de qualquer uma das duas, nem mesmo no calor das discussões sobre o lingerieday, onde receberam tantos adjetivos desagradáveis, para dizer o mínimo.

Se tem uma coisa de sobra na blogosfera é o debate na base da agressão pessoal, onde as ideias ficam largadas no canto. É por isso que sempre visito o "Jusqu'ici tout va bien" e vou ao "é bom pra quem gosta". Na casa virtual de vocês ocorre justamente o oposto.

Bjs

João Ricardo disse...

Conheci o seu blog e o da Lu hoje, por outros blogs e coisas do tipo, lendo sobre esse #lingerieday que só fiquei sabendo depois. Normalmente não tenho paciencia pra ler esses textos imensos de discussão, em parte por culpa minha, e em parte por que muitos não dizem absolutamente nada, ou pelo menos, nada original e que nao tenha sido repetido mil vezes na discussão inteira.

Por isso, fui apenas dar uma rápida olhada no texto, já com uma das mãos no "Ctrl+W" para fechar se não me interessasse, mas fui obrigado a continuar no blog e ler o post até o fim. Porque vocês duas simplesmente escrevem muito bem! E óbvio, não apenas no sentido letrado, de quem argumenta e convence melhor, mas principalmente, no que têm pra escrever. Pensamentos realmente inteligentes e reflexivos, e não uma grande repetição do senso comum. Resumindo, originalidade.

Sério, parabéns.

Não passei a te seguir no twitter antes ou depois do evento, mas com certeza vou voltar no blog outras vezes.


Ps: Colei o mesmo comentário no blog da Lu, por pura preguiça de escrever a mesma coisa com outras palavras.

aline disse...

Ricardo,

A ausência deles aqui foi muito eloquente pra mim. Entendi que não há interesse no debate, só no posicionamento e na agressão. Isso, pra mim, descaracteriza a situação toda, e os coloca no pedestal. Por mim, agora, dane-se. Não faz mais diferença mesmo.

Quanto ao script, e a expectativa, vou dizer o que disse à Iara: quem tem de arcar com as expectativas são essas pessoas, e não eu. Eu não tenho nada que ver com isso, não é justa essa pressão toda, porque as pessoas estão me cobrando que eu seja coerente com o que elas acham que eu sou, que é um desdobramento superficial do que elas são. Eu não estou sendo incoerente ao aderir à campanha. é que eles não se deram ao trabalho de perceber isso.

Eu não tenho interesse em ofender as pessoas, ainda que a opinião que tenho delas não seja positiva ou elogiosa. Mas aí, vai de cada um mesmo. Eu lamento que o debate tenha perdido espaço para a hostilidade gratuita, mesmo. Era um debate bom. Aqui, no meu blog, lidei com ele da maneira mais atenta e cuidadosa, respondi a cada um dos comentários, exaustivamente até. Acho que não deixei nenhuma indagação ou "acusação" em aberto. Mais do que isso, não me cabe.

Eu gostaria de agradecer muito sua delicadeza e apoio. Muito mesmo. Que bom conversar com vc.

beijos

aline disse...

hahaha João, que legal seu comentário. Eu fiquei imaginando um cara com o dedo pronto pra fechar a página. Que bom saber que meu texto tem essa pegada toda! ahahahahah

A escrita desses dois textos era uma questão crucial pra mim, de reivindicação da minha voz, da minha capacidade deliberativa mesmo. E também eles são um modo de esclarecer e redefinr as coisas, já que chegamos numa situação extrema em que vínculos foram quebrados. São dosi textos importantes pra mim, embora não sejam meus preferidos no meu blog.

Agradeço sua visita, os elogios e o apoio. Seja sempre bem-vindo aqui.

beijo

Daniele disse...

Oi, Aline, eu gostaria de ser original, mas o João Ricardo, aí em cima, roubou de mim todas as palavras, na ordem exata em que foram escritas por ele. Fiquei encantada com a sua verve para a escrita, a sua retórica e as suas ideias originais. Você é de fato brilhante. E se há algo de bom trazido por essa celeuma toda, pra mim foi a descoberta do seu blog, do qual me tornarei assídua. Parabéns.
P.S.: Acho esse discurso da "objetificação" um tanto antigo e simplista. Até porque Hegel bem nos ensinou - e isso já faz muito tempo - que a relação entre sujeito e objeto (senhor e escravo...) é bem mais complexa do que as aparências possam indicar. Toda relação é sempre dialética e os papéis não se trocam apenas quando mudamos de posição: num mesmo lugar, somos ao mesmo tempo objetos e sujeitos. Obviamente sua foto (veja bem: a sua foto) foi objeto do olhar de outras pessoas, e - concordo - é muito reducionismo igualar isso à uma "objetificacão" da sua pessoa. Afinal, você foi um sujeito (autônomo, o que nesse caso soa reduntante) que escolheu estar ali, naquela posição. Linda foto, por sinal. Acho que uma distorção de certo tipo de feminismo - porque existem vários - é essa paranóia com a exibição do corpo feminino.

aline disse...

Oi Daniele

Que fofa você! Obrigada mesmo.

Adorei seu comentário, acho q vc, de maneira muito clara e concisa disse tudo o que eu estou tentando dizer. Confundir a objetificação da foto com a da pessoa é simplista, é cair no reducionismo que se pretende combater.

Olha, do lado de cá, eu tbm posso dizer que a celeuma foi válida por todas as pessoas bacanas e interessantes que eu encontrei. Espero que vc volte mais vezes mesmo, que fique sempre à vontade pra ler e comentar aqui.

Beijos!!

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