19.8.09

da complexidade


Não foi pouca minha consternação quando eu me deparei com essa ilustração aí. Apesar de defender a legalização do aborto há mais de 8 anos, e por isso ter já lidado com diversa gama de contra-argumentos, ironias, refutações, hostilidades até, creio que nunca tinha visto uma manifestação tão cínica. Tão mal-intencionada. A imagem faz esse paralelismo entre o aborto e a escravidão, e reduz todo o argumento pro-escolha a essa máxima "não gosta, não participe", como se para lutar contra uma violência bastasse não participar dela, como se a brutalidade da escravidão pudesse ser revertida à medida que os senhores abdicam de ser senhores. Eu sei bem que o movimento pro-escolha, ou pro-direito a possibilidade de abortar, ou pro-aborto, diz muito mais. Ele propõe outro jeito de pensar e tratar a maternidade, a autonomia da mulher sobre seu próprio corpo e destino, ele instaura a noção de direitos reprodutivos. É absolutamente emancipatório poder interromper uma gravidez sem sofrer a contrapartida acusatória e linchadora habitual, e essa hostilidade, receio, será mais difícil de superar do que a resistência em se aprovar a lei. E tal emancipação não se aplica apenas às mulheres que abortam, ela tem um alcance maior mesmo. De reposicionamento, de mudança efetiva de mentalidade. A legalização do aborto, ao lado de lutas contra homofobia e racismo, cosntituem hoje os temas que te alinham mais à esquerda ou à direita politicamente. Não é pouco. E por isso o incômodo com essa ilustração: porque eu sei que o movimento pro-aborto é muito mais complexo, libertário e interessante do que essa ideia aí. E sei que meus amigos sabem. Mas eu realmente não sei se fica claro quando digo que o aborto será permitido, e não compulsório. Detestaria se essa minha fala tomasse, para um número grande de pessoas, contornos de alienação e estupidez, como quer fazer parecer o cartaz.

De maneira análoga, há uma insinuação insistente de que "meu" feminismo (seja lá o que for isso) segue à risca essa cartilha: "não gosta, não faça", no melhor estilo quixotesco, como se eu simplesmente ignorasse práticas que, ao longo do tempo e ainda hoje, oprimem e subjugam pessoas. E me parece nítido que os pressupostos, objetivos, métodos e inquietações não são de mesma ordem entre aquelas que mantém blogs e lutam por causas feministas. Para mim, que não sou absolutamente uma expert no assunto, feminismo é sobretudo uma questão de emancipação feminina. E ela é tão mais difícil e complexa quanto variadas são as situações e as vidas. Acredito que o feminismo deve atuar, assim como o movimento pro-aborto, no sentido da reconfiguração, da mudança de mentalidades a partir do aprofundamento das questões de gênero, sexualidade, identidade, sujeição, autonomia. Coisas que tornam a vida efetivamente melhor, e o reconhecimento dessa dimensão prática, dessa melhora da qualidade de vida das mulheres, não deve nos escapar. Isso, bem entendido, eu não estou tirando da cachola, nem de blogs ou portais de notícias. Vem praticamente de um livro que eu comprei por indicação dela, e que é tão bom e apaixonante que eu decidi transcrever uns trechos pra fazer esse post.

"Se alguém "é" uma mulher, isso certamente não é tudo o que esse alguém é; o termo não logra ser exaustivo, não porque os traços predefinidos de gênero da "pessoa" transcendam a parafernália específica de seu gênero, mas porque o gênero nem sempre se constitui de maneira coerente ou consistente nos diferentes contextos históricos, e porque o gênero estabelece intersecções com modalidades raciais, classistas, étnicas, sexuais e regionais de identidades discursivamente constituídas. Resulta que se tornou impossível separar a noção de "gênero" das intersecções políticas e culturais em que invariavelmente ela é produzida e mantida.
...
A presunção política de haver uma base universal para o feminismo, a ser encontrada numa identidade supostamente existente em diferentes culturas, acompanha frequentemente a ideia de que a opressão das mulheres possui uma forma singular, discernível da estrutura universal ou hegemônica da dominação patriarcal ou masculina. ... A urgência do feminismo no sentido de conferir status universal ao patriarcado, com vistas a fortalecer aparência de representatividade das reivindicações do feminismo, motivou ocasionalmente um atalho na direção de uma universalidade categórica ou fictícia da estrutura de dominação, tida como responsável pela produção da experiência comum de subjugação das mulheres.
Embora afirmar a existência de um patriarcado universal não tenha mais a credibilidade ostentada no passado, a noção de uma concepção genericamente compartilhada das "mulheres", corolário dessa perspectiva, tem se mostrado muito mais difícil de superar. É verdade, houve muitos debates: existiriam traços comuns entre as "mulheres", preexistentes à sua opressão, ou estariam as "mulheres" ligadas em virtude somente de sua opressão? ... Existe uma região do "especificamente feminino", diferenciada do masculino como tal e reconhecível em sua diferença por uma universalidade indistinta e consequentemente presumida das "mulheres"? A noção binária de masculino/feminino constitui não só a estrutura exclusiva em que essa especificidade pode ser reconhecida, mas de todo modo a "especificidade" do feminino é mais uma vez totalmente descontextualizada, analítica e politicamente separada da constituição de classe, raça, etnia e outros eixos de relações de poder, os quais tanto constituem a "identidade" como tornam equívoca a noção singular de identidade."

Problemas de Gênero
(2008), da Judith Butler.[Grifos meus]

Esses parágrafos, extraídos logo das primeiras páginas, apontam já para uma formulação de problema e abertura de perspectivas bem diferentes daquelas que vemos abundantemente no feminismo da blogosfera. Sem tocar em um décimo da profundidade e do interesse desse livro, eu diria que já é alguma coisa se a gente reconhece que a unidade "as mulheres" não existe, ou pelo menos é completamente artificial e contingente, que essa generalização tende a empobrecer a crítica e circunscrever o feminismo numa posição contraditória, onde ele justamente reforça categorias de gênero, as quais deveria tentar flexibilizar. Tantas vezes eu disse que sou maior do que uma foto no avatar ou a campanha do lingerieday, que cada adesão à campanha tinha capacidade de ressignificação, justamente por isso, porque minha identidade não se restringe ao meu gênero e mesmo no que o concerne, ele não é uma categoria absoluta, natural, perfeitamente definida. E estranho muito, hoje, ainda haver quem defenda ferrenhamente a sobrepujança unilateral da coletividade sobre os indivíduos, como se essas duas instâncias fossem também absolutas e dissociadas. Estranho que, em nome de uma maior liberdade para as mulheres, alguém defenda o apequenamento do indivíduo, a conformidade a uma norma de conduta, ainda que nova e supostamente adequada à emancipação e dignidade feminina. Não soa contraditório?
Esse coletivo em nome do qual eu deveria agir, ocupada de um bem maior que é a emancipação das mulheres, bom, esse coletivo não existe tal como está sendo apresentado, não é paupável, tangível, não é uma entidade que eu posso consultar para obter o aval, ou cujas características e necessidades sejam tão bem delimitadas que eu saiba, natural e intuitivamente, por ser mulher, o que é certo fazer. Esse coletivo, esse conjunto abstrato de todas as mulheres que sofrem com as injustiças e horrores do machismo e para as quais eu desejo emancipação, ironicamente, acaba cerceando a minha própria, eu mesma devo medir meus atos e cuidar para que minha emancipação não se fundamente no princípio de liberdade de escolha e atuação, eu devo ser emancipada apenas até onde as mulheres, coletivamente, são, e se há mulheres que se sentem reduzidas numa cerimônia de casamento ou na exposição de uma lingerie, então eu não posso fazer nem este nem aquele, por responsabilidade e militância. Ou então: "posso" até fazer, desde que ciente de que confirmo, com isso, a força do patriarcado. Porque eu, como indivíduo, não posso/não devo/ não consigo promover nenhum tipo de mudança, sobretudo se nos "detalhes", nas coisas pequenas ou pontuais da minha vida corriqueira, eu não for subversiva. E talvez eu devesse aguardar instruções do coletivo feminino para saber a data a partir da qual todas (ou uma maioria satisfatória) passarão a agir da mesma forma subversiva e ressignificar as práticas que nos oprimem - ou, do contrário, se basta que eu individualmente blogue e promova campanhas de boicote a cada um desses elementos inequivocadamente opressores do statu quo: lingerieday, casamento, dia internacional da mulher...


Eu, na superficialidade do meu contato com as teorias feministas, penso que a luta maior não deveria valer-se da estratégia do boicote, seja do vestido branco da noiva, da cerimônia de casamento em si, da erotização banalizada (seja lá o que isso for) em revistas e mídias afins; ou seja, eu ainda acho que o feminismo deve ser - e de fato é - muito mais problematizador do que essa recusa imediata dos símbolos e atos que eventualmente ligam-se a situações de opressão ou degradação. Os pressupostos dessa recusa estão calcados naquela ideia estanque de "mulher" e "submissão feminina", eles rotulam todas as situações possíveis e declaram que há coisas que indiscutivelmente são negativas, não importa a relação que a própria mulher tenha com o evento. Na caixa de comentários do post anterior eu comentei com a Vanessa que "assim como a individualidade exacerbada pode ser egoísta e despolitizante, a exigência inflexível de uma atuação em nome da coletividade pode ser muito opressora também, é preciso cuidado e sensibilidade".

Eu mantenho uma relação despretenciosa de flerte com a filosofia, mas o campo em que me sinto à vontade mesmo é o da literatura e por vezes do cinema. Cheguei, assim, nos poemas de Adélia Prado e nos filmes de Sofia Coppola, obras tão diferentes entre si mas que dão conta de ilustrar isso que eu to querendo dizer. Sofia é mestre em fazer filmes cujas protagonistas são mulheres às voltas com os contextos de suas vidas e escolhas. E é sempre uma relação problemática, instável, delicada. Estou pensando em The Virgin Suicides, Lost in Translation e Marie Antoinette. E está tudo lá: o passado mais remoto, o passado recente, a modernidade: os pais, o namorado, a adolescência, o baile, o casamento, a família, o marido, os filhos, o amante, o divórcio, a solidão, a paixão: a política, a aristocracia francesa pré-revolução, a realeza, a burguesia norte-americana da década de 70, o casal descolado na Tókio do século XXI. Em alguns casos, o contexto engole as personagens. The virgin suicides me deixou inebriada. Acompanhei apreensiva a resistência das meninas, enquanto se tornavam reféns do medo dos pais sobre sua sexualidade. Condição que elas recusam com o suicídio. Porque era tudo ou nada pra elas, não dava pra esperar passar o tempo. O filme prepara a gente pro final, e mostra como ficou insustentável pra elas. E ainda assim, é aterrador. Os discos queimando na lareira me tocaram mais do que o namorado desaparecido depois de uma noite de sexo. Aí a Marie Antoinette, que era rainha e construiu um ambiente íntimo e confortável pra ela, enquanto no meio da corte ela era um bibelô que paria herdeiros e gastava fortunas com futilidades. Completamente incômoda a situação. E a gente já sabia o fim da Marie: ela acaba decapitada. Só Lost in translation fica em aberto. Mesmo depois de colocar na frente da mocinha a projeção do casamento dela, do quanto ele poderia se tornar uma convivência tolerada por dois desconhecidos. O cara já manja isso faz tempo, e ela tá começando a perceber. E eles se descobrem. Eu torci demais pra ela fazer a louca e ir embora com ele, ou pra ele ficar com ela no Japão, que era onde eles estavam felizes. Mas Sofia não simplifica nada. Eu tive que me contentar com um sussurro que eu não ouvi e fiquei sem saber se foi um conselho, uma promessa, uma despedida, um segredo, um encontro. E aquele sorriso dela. De quem vai tocar a vida.
Só de leve é possível aproximar essas personagens, porque as variáveis são muitas. E ainda que se diga que elas todas estão numa situação desfavorável, desconfortável, que estão infelizes, é preciso reconhecer que é mais complexo também. Que a vida delas, as reações, os desejos, as especificidades tornam as personagens muito singulares, ambíguas e belas. E que elas tentam achar rotas de fuga e resistência, e nessas rotas coisas acontecem: elas tocam, mais ou menos intensamente, possibilidades de uma vida mais plena, mais feliz, mais real. Nenhuma protagonista de Sofia Coppola se reduz à sua própria condição, tampouco representa as mulheres do mundo inteiro. Se uma personagem não dá conta dessa representatividade, como poderíamos nós, no mundo real, tão mais complexas e inesgotáveis, servir a essa metonímia da parte e do todo?

Eu ia falar da Adelia Prado, mas a esta altura o post ficou imenso. Volto a ela, um dia desses. Chamo-a apenas para encerrar o texto:

Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Excerto de Com licença poética, 1976

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lu disse...

essa simplificação aí, de contar com uma categoria de "mulheres" que não é problematizada e cuja veracidade continua se assumindo por mais que ninguém nunca dê uma definição de "mulher" aceita por todas as que participam dela, aparece ligada com essa outra simplificação, outra abstração boba, de que todas as mulheres são vítimas inocentes, e os homens, monstros misóginos. fica essa polarização homens x mulheres, opressores x subjugadas, os que mandam e as que obedecem, e se perde, nessa esfera do apontar o dedo, a tentativa, muito mais complexa e enriquecedora e eficiente, de descrever e entender como se dá o processo de sujeição e assim fornecer um caminho pra lidar com isso, promovendo mudanças e uma melhoria de qualidade de vida.
"Os homens não me intimidam", acabei de ler no texto que estava estudando essa manhã. achei bonito isso; o feminismo que tem a expectativa de que eles intimidem já deu a largada em descompasso. já não pode ser reconhecido por uma boa parte de mulheres.
amei o poema da adélia prado, fico relendo e me emociono mais com ele a cada leitura.
:*

aline disse...

Eu lembro de um post que escrevi um tempo atrás, sobre a escrita feminina, em que eu falava isso: do quanto me irritava a categorização da literatura a partir do gênero de quem escrevia, e da intenção de encontrar em toda "literatura feminina" traços em comum, que apontassem pra uma linguagem particularmente feminina. É mais fácil perceber essa redução, eu acho, num caso desses de análise literária.
Curioso que na vida real, na análise das experiências, das coisas mais banais às mais graves, essa generalização aconteça e sirva como um escudo. As mulheres gostam disso, as mulheres desgostam daquilo, isso machuca as mulheres, aquilo favorece as mulheres, na verdade, tapa o sol com a peneira. Seria mais fácil, eu acho, lutar contra o machismo se fosse uma questão de não fazer ou dizer tal e qual coisa. Não sei se me faço entender... Mas a ideia de que as mulheres podem ser reunidas num grupo, apenas por serem mulheres, e que com isso suas especificidades, seus problemas e necessidades podem ser vistos e defendidos, isso pra mim é mais prejudicial do que qualquer convenção do patriarcado.
Eu prefiro a dissolução dessa noção estanque e a manutenção de todo o cerimonial de casamento católico, por exemplo, do que o contrário. As convenções se esvaziam, os símbolos se ressignificam com mais facilidade do que as categorias de conhecimento de mundo. E eu penso nas caricaturas. Que mesmo a caricatura masculina de "cafajeste insensível" não dá conta da pluralidade dos homens, é como se fosse um aspecto da vida deles, que se construiu a partir da noção de relacionamento heterossexual. A caricatura da mulher subjugada, essa sim, parece abarcar o que nós somos.

Eu amei a frase "os homens não me intimidam".

:****

Iara disse...

Oi! Volto aqui depois de 10 dias de férias, bem curtidos e bem viajados, longe do computador. E fico muito feliz de saber que você ainda está por aqui.

O post ficou longo, sim, mas excelente. Toca num ponto muito importante, o da ausência de uma unidade. Não existe esse grupo homogênio "mulheres", né? A gente pode imaginar que, como seres humanos, há um mínimo de dignidade e autonomia ao qual todas e todos deveriam ter direito, mas ele não comporta, de jeito nenhum, o específico, o particular. Já vi blogs por aí em que meninas contam que se recusaram a apreder tarefas domésticas porque eram pressionadas a fazerem por serem mulheres. E eu compreendo, mas na minha casa, eu, meu irmão, meus pais, todo mundo sempre fez de tudo, sem distinção de gênero, então nunca tive necessidade de me negar a fazer pra afirmar nada. E, puxa, adoro cozinha pra um galera e lavo toda a louça depois, feliz da vida. Não me sinto oprimida, poxa! Quer dizer, a realidade da opressão é diferente entre pessoas da mesma geração, da mesma cidade, como querer colocar todo mundo na mesma situação?

aline disse...

Iara, que lindo seu comentário.

Eu gosto muito de pensar nisso, de que não há uma unidade, de que nós somos pessoas, e que nossa condição é determinada por muito mais variáveis além do gênero. Essa pergunta que está na citação: será que as mulheres estão unidas exclusivamente pela sua opressão? Eu acredito que não, senão não há possibilidade de vida pra nós.
Legal o jeito que vc foi educada, mesmo. é o tipo de coisa que eu vou querer fazer, quando e se tiver filhos. Adoro cozinhar também. Mas lavar louça, hahahaha só arrastada.

"Não me sinto oprimida, poxa! Quer dizer, a realidade da opressão é diferente entre pessoas da mesma geração, da mesma cidade, como querer colocar todo mundo na mesma situação?" - É exatamente isso. Concordo com vc, totalmente.

:******

ps. 1 - seja bem vinda de volta \o/
ps. 2 - é, ainda estamos por aqui ;)

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