1.8.09

da culpa inexistente

À Ana Carolina Moreno.

Eu li seu texto, li os comentários. Não gosto e não concordo com ele e, ao mesmo tempo, não gosto e não concordo com os comentários ofensivos que você recebeu. Ingenuidade minha dizer que os comentários foram escritos num tom agressivo correspondente ao seu post e não imaginar que algumas pessoas seriam maliciosas no, digamos, debate.
Então para que eu não tenha que me justificar a cada momento, eu o faço de uma vez. Repudio todas as manifestações ofensivas ao seu texto, todas as pessoas que foram até seu post dizer que você, ou qualquer mulher que não adira ao #lingerieday é "feia, gorda e mal comida". Essa é uma caricatura tão batida quanto a figura do "cérebro masculino" que você descreveu, com a diferença de que você certamente foi mais sutil, mais irônica, enquanto os comentaristas foram explícitos e toscos mesmo. Não concordo com as ideias do seu texto, como creio já ter esclarecido, e não gosto dele justamente porque o acho provocativo e redutor. Penso que a estratégia de sua crítica é ruim, desvia o interesse da relevância do que você diz para a avacalhação indireta: são apenas uns masturbadores. Tanto desvia, que os comentários agressivos que visavam responder a essa provocação se tornaram o principal assunto a respeito do texto que você escreveu, o que é uma pena, porque uma crítica ao #lingerieday poderia perfeitamente servir para uma discussão interessante e tranquila.
A "culpa" pela grosseria dos comentadores, evidentemente, não é sua. Mas também eu nunca falei em "culpa". Essa palavra é católica demais pro meu gosto, e francamente, eu não frequento nenhuma instituição católica para viver com essa "lógica" da culpa na minha cabeça. Sendo assim, Ana Carolina, eu realmente sinto muito se alguém te fez crer que eu aprovo que você seja ofendida, que eu penso que você mereceu os insultos ("merecimento" também é palavra que eu não usei). Sinceras desculpas se isso chegou até você e se porventura te aborreceu (como teria me aborrecido). Não aprovo nenhuma das ofensas, não as considero merecidas. Não é da minha índole.

No mais, um abraço, Cynthia Semíramis, que defende o respeito nas caixas de comentários:


Apenas não na sua: [clique para ampliar]



Mas eu já sabia, desde que você inventou um sentido "não pejorativo" para "ser um objeto", que nossos conceitos de insulto não são condizentes mesmo.

12 pessoas pararam por aqui:

lu disse...

é curioso que nós nunca elegemos como interlocutores nos nossos blogs pessoas que dizem que "se você X então você é feia/ gorda/ mal-comida"; e há ainda outras pessoas com quem, com esse episódio, ficou claro que não há interlocução possível. porque também o conceito de diálogo, dentre outros, não é o mesmo.
enfim. adorei o post, a clareza. acho que com os nossos posts e comentários, e com esse post agora, está evidente, pra quem quiser e puder ver.
bjim!

aline disse...

sim, vc tem razão. o episódio rearranjou as coisas, e de repente um comentário desse nível é aprovado na caixa de comentários de uma blogueira tão ponderada quanto ela.
acho que as funções de blog e de twitter confundiram-se, e por algum motivo que me escapa, os blogs foram eleitos como espaço dos textos-ponto-final, enquanto no twitter a guerrinha de nervos continuou e provocações foram confundidas com argumentos. Para mim o blog é por excelência o espaço do debate, e eu tranquilizo-me pensando que aqui e lá, no seu blog, o espaço manteve a pluralidade de pensamentos.
Eu não sou de dar pontos finais, a caixa continua aberta para quem quiser. Mas penso sinceramente que nada de novo ou relevante poderá surgir.
Nem aquele bom e velho pedido de desculpas.
:**

Flávio de Sousa disse...

O ponto que eu quero destacar aqui é mais outro: o de acharmos que podemos orientar nossas ações (e seus resultados) à revelia do mundo de fora. Você pouco se lixa para sr. Morroida (idem pra mim), mas a meninada toda que carece de 1/10 do seu discernimento se tornou mais convicta e conformada com esse paradigma de coisificação da mulher em parte graças à sua colaboração. Se você "acredita" (rs) na complexidade, entenderá que isso indiretamente pode influir na sua vida.

Você pode dizer: "Eu não me importo se a meninada acha X ou Y do mundo." Posso dizer também que "não me importo se a zélite paulistana acha os nordestinos imprestáveis". Como uma amiga minha disse-me para não me importar com o desprezo e diminuição dos quais sou alvo por ser ateu. Não bastasse ser filho de nordestinos e pobre.

É, pois, uma opção individual (essa sim a ironia de todo o meu discurso) querer tomar consciência não só da própria individualidade (algo que você provou com seus textos), como da integralidade, do fazer parte de um todo, de se ver nele indissociável. E, por que não?, de assumir uma parcela de responsabilidade pelo rumo das coisas.

Obrigado pela atenção!

Um beijo,

F.

Flávio de Sousa disse...

Boa noite!

Eu não lembro bem como cheguei ao seu blog; sei que foi pelo Twitter, pulando de contato em contato. Desde que fiz um, tenho descoberto muitos blogs legais, o seu se juntando a essa lista. Parabéns! (Não pela lista, mas pelo blog legal.)

Eu acompanhei meio que à margem essa coisa toda do dia da roupa íntima. Algumas pessoas que você cita neste e no post anterior (sim, eu li o post anterior) são contatos que eu sigo -- aliás, que são seguidos por muitos né -- e então acabei participando passivamente do imbróglio. Também li o texto da Ana Moreno (que também não me apeteceu); obviamente, li o do professor Túlio.

E ainda me coçava a pulga atrás da orelha. Você esclareceu algumas coisas importantes.

Talvez o golpe de misericórdia da libertação feminina seja mesmo esse descolamento entre a fruição e a objetificação do corpo da mulher. Não que isso aconteça (ou venha a acontecer) como uma inflexão. Lembremos do concurso da Garota Laje (é isso?), que virou trending topic ("Você está indignada?"), em que a moça derrotada se sentiu ferida pela banca julgadora a ter considerado "menos bonita" que outra (muito embora ela reafirmasse a todo instante "não estar nem aí" -- e a gente "acreditava"). A reação indignada da moça, e seus argumentos, deixou mostrar certa preocupação em ser um objeto "satisfatório" aos padrões lá estabelecidos. Isto é, as expectativas dela eram as expectativas da banca (do agente machista).

Ou, como Marx diria, o pensamento da classe dominante é o pensamento da classe dominada.

Não acho que tenha sido seu caso. Você transpareceu ter plena consciência das implicações e fins dos seus atos, como outras (não todas) tiveram idem. E decidiu participar levando em conta outros fatores e valores, bem alheios aos dos idealizadores da campanha.

Pra não chover no molhado: X (a campanha, gestada por uma mente machista -- é o que eu acho) depende de Y (a adesão do objeto, você), mas Y (você, enquanto ser consciente e senhora de seu próprio destino, portanto sujeito) pode não depender de X. E assim escolher satisfazer apenas a suas expectativas ou do seu grupo.

Aqui acaba minha concordância.

Ao longo dos seus textos, você reiteradamente enfatiza a importância do significado individual que pode ser representado por um dado ato (no caso, posar de roupas íntimas). E sua "autonomia" para recusar, ou desprezar, o sequestro desse ato para representar outra coisa qualquer (como, por ex., a dominação de homens sobre mulheres numa sociedade de gêneros).

Ledo engano. Permita-me defender o ponto de vista de que as ações racionais com relação a fins, unitariamente, não mudam toda uma esfera de ação (fundada em outros valores que não os seus), e que não podemos virar as costas para esse todo e declararmos nossa independência dele por um gesto de vontade unilateral.

Assim, o que os outros pensam de nós infelizmente conta. Não falo aqui no sentido vulgar da expressão -- "ain, o que será que vão pensar dos meus sapatos!?!?"; quero dizer que, por mais que você tenha satisfeito suas próprias expectativas (ou de seu grupo) com sua atitude, colateralmente você ajudou a reforçar todo aquele imaginário da mulher-objeto.

Não que você deva se sentir "culpada" por isso. (rs!) Eu também sou avesso a sentimentos judaico-cristãos. E não quero repetir a falácia do "você é culpada por seu estupro" (só podia ser coisa judaico-cristão mesmo!). Também não digo que você deva, simplesmente por ter nascido mulher, "aderir à causa" da libertação feminina. E se martirizar por isso.

Eu próprio não posso deixar de procurar um emprego na iniciativa privada porque existe luta de classes. Eu preciso pagar minhas contas. Você precisa fruir seu corpo.

Flávio de Sousa disse...

PS: Postei um comentário num post relacionado do blog da sua amiga lá. Se ela não me fizer censura prévia, é o 207 do texto de 23/07. Por favor, leia!

Gente, eu preciso de um emprego!

Beijos.

Priscilla disse...

Acompanho alguns blogs e fico bem feliz que tenha gente menos radical na blogosfera como vocês (Lu e Aline). Gostei muito deste blog e vou ler sempre.

aline disse...

Flávio

Eu agradeço sua visita, o elogio e a atenção que vc dispensou aos posts e à escrita do comentário. Quanto a sua discordância, eu ouso sugerir que você dê uma passada nos comentários anteriores aqui, e/ou os do É bom pra quem gosta. Porque a gente já teve que lidar com isso que vc fala.

Ah, o nome da minha amiga é Lu, e ela não tem inclinações censuradoras não. Seu comentário está lá, devidamente.

Beijos

aline disse...

Priscila, eu tbm fico feliz em saber que tem gente que é menos radical. Seja muito bem vinda.

Beijo

Haline disse...

Aline, ce é uma fofa e eu to com saudade dos seus outros textos. Promete que esse é o último do #lingerieday ? Quremos vc de volta do mundo da lingerie vai. rs bjobjo

aline disse...

hahahahha

pode apostar isso. nem se o papa fizer um post eu me pronuncio de novo. :D

:**

Felipe disse...

Aline,

Parabéns pelo blog! Não conhecia o espaço.
O #lingerieday é uma manifestação bem vinda!
Essa "caixa" de ideais platônicos de feministas e machistas só levam a conclusões estúpidas sobre a "guerra dos sexos".
É engraçado mas nos dois "pensamentos" eu vejo a figura de Ivan Ilich, no sentido de vida pronta, permeada de ideais e valores comprados e nunca algo verdadeiro.
O homem têm sim tesão e vontade de "comer" uma bela mulher, isso é fato, é instintivo é o ID de Freud. Assim como muitas mulheres têm vontade de ser "comida", esse desejo também supera qualquer consideração superegoica...
Portanto, iniciativas como a da mudança de avatares é muito mais um diálogo de desejos do que um manifesto machista, é uma brincadeira gostosa que só a mulher realmente feminina pode entender...

aline disse...

Oi Felipe, eu não tinha visto seu comentário. Concordo com vc, eu não preciso ficar justificando pra esse grande coletivo de feministas da bloguosfera um ato que foi individual, meu, meu e meu.

:***

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