12.8.09

do corpo obeso


Quando tomei conhecimento do projeto Adipositivity, lembro que passei muito tempo clicando nas fotos e admirando, e com frequência eu volto ao site para descobrir o que de novo apareceu por lá, e é sempre bom, porque o site é bem cuidado e atualizado. Meu entusiasmo e contentamente com essas mulheres obesas em cenas eróticas e lindamente retratadas tem menos a ver com a promoção de formas e corpos geralmente desprestigiados do que com a atitude delas em exporem-se nuas ou semi-nuas. Gosto de pensar que elas tiveram a vontade de posar e o prazer de olhar a si mesmas através da percepção de um artista, que elas experimentaram o próprio corpo de uma maneira tão diferente daquela que costumamos atribuir às mulheres gordas.

Eu acredito, e depois das últimas semanas esse pensamento se reforçou, que há grande generalização e confusão (e alguma vitimação) no que concerne as mulheres fora do padrão estético vigente, ou melhor, as mulheres que estão fora das medidas e faixa de peso valorizada atualmente. Sim, pois é preciso lembrar que o padrão estético não apenas dita as formas que um corpo feminino deve ter, mas também valoriza especificamente uma cor de pele, certos traços do rosto, textura e cor dos cabelos. A mulher bonita padrão não é apenas magra: é branca, tem cabelos lisos, traços ocidentais. Então a obesidade é somente uma das várias possíveis características não-preferenciais na mulher; e contudo, em torno dela, mantém-se um mercado que gera produtos, discursos, tratamentos, certezas e movimenta muito dinheiro.
Existem queixas bastante conhecidas sobre a inadequação aos padrões estéticos (por exemplo, não gostar de ter o cabelo crespo), a ponto de estar pressuposta uma ligação entre possuir qualquer uma dessas características "não-desejáveis" e uma certa insatisfação. Porém nenhuma mulher é mais infeliz e miserável do que a gorda, no imaginário corrente. A gorda é quase sempre mencionada como uma mulher sozinha, mal amada, amedrontada e/ou irritadiça, vulnerável ao olhar do outro, é necessariamente uma mulher feia. Ser gorda é de tal maneira assustador, hoje em dia, que as palavras gorda/engordar são consideradas ofensivas e mesmo preconceituosas (assim como magra/emagrecer são elogiosas), sua enunciação e associação a um corpo podem ser o bastante para constranger e incomodar. É claro pra mim que esse potencial devastador da palavra e do conceito deve sua existência, em parte, à cristalização e aceitação generalizada desse estereótipo segundo o qual seu peso determina seu destino, e se você é mulher e gorda, há menos amor e aceitação para você no mundo.


Eu não quero absolutamente minimizar ou dar a entender que não existe discriminação contra gordos, sobretudo gordas. Acontece, sim, e pode ser muito traumático. Apelidos desagradáveis, olhares debochados, exclusão de círculos sociais. E essa discriminação, também me parece claro, tem a ver com a valorização de um tipo de corpo, de um tipo de beleza, uma única possibilidade de aparência, que reforça de um jeito ou de outro uma imagem negativa e repulsiva do corpo obeso. E contudo ouso dizer que há uma confusão entre o que é de fato ofensivo e discriminatório e o que é expressão de gosto ou mera descrição. Eu não acho necessariamente agressivo dizer que alguém é gorda, assim como dizer que é magra não me parece ser necessariamente agradável. Deveriam ser neutras, essas palavras. Os corpos são variados, são mutáveis, e as palavras usadas para descrever a aparência de alguém deveriam ser tomadas nesse movimento de caracterização e não de qualificação. Isso vale pra quem as profere com a intenção de insultar tanto quanto pra quem sempre as escuta como um insulto: "você é gorda" não deveria ser uma frase com potencial agressivo (como frases do tipo "você é uma baleia/rolha de poço, etc"), mas às vezes, lamentavelmente, é. Da mesma forma, dizer que "mulher gorda não me atrai fisicamente" ou que "não é bonita", não constitui um preconceito, nem uma expressão machista. Por mais que se questione os motivos que levam uma pessoa a não se sentir atraída ou interessada por um gordo, por mais que se diga que esse alguém foi moldado pela televisão e revistas, que essa postura é superficial, ela ainda tem o direito de formular uma opinião baseada em seu senso estético, se é de estética que estamos falando. Repito: se é de estética que estamos falando. Ninguém deve ser discriminado no trabalho, numa conversa, na rua, onde quer que seja, por conta do seu corpo, não deve ser tratado de maneira degradante, nem ser exposto e ridicularizado, não deve ter sua inteligência e sensibilidade desconsideradas porque pesa mais do que os outros acham que deve pesar. Mas todos temos preferências, todos somos capazes de olhar para as coisas e para as pessoas e pensa-las como feias ou bonitas, agradáveis ou desagradáveis aos olhos, atraentes e desejáveis ou não. A subjetividade disso, assim como sua determinação social, não está em questão: sabemos que cada um tem lá suas inclinações, suas paixões, e os motivos que me levam a achar fulana mais bonita do que beltrana são irrelevantes no momento em que meu interesse é o deleite da apreciação visual ou do contato físico.

Sou muito a favor da promoção de várias formas e graças, de olhares como esse do projeto Adipositivity, sobretudo porque eu vejo beleza na diversidade, eu também vejo beleza naquilo que não é exatamente o padrão ou ideal. E sei, com absoluta convicção, que não sou a única. E que na prática, o desejo e o interesse das pessoas por outras pessoas se dá de maneira muito mais complexa. Essa luta tende a tornar o mundo mais interessante e as vidas mais leves, porque nessa diversidade, as pessoas aprendem a lidar melhor com seus próprios corpos. Acho de extrema importância não manter com o corpo uma relação de ressentimento ou frustração, sobretudo se ele passa ao largo do corpo ideal. Mas enfim, funciona em ciclo. Então há quem se exponha antes e aponte esse espaço de manobra que outros não veem.

Evidentemente, o site Adipositivity não causa em todos a mesma reação que as fotos sensuais de uma "gostosa". Não sei também se se trata disso, já que tanta gente considera ofensivo e objetificante alguém (geralmente um homem) olhar, apreciar e excitar-se com uma foto de mulher despida. De todo jeito, sei que essas fotos atraem um público diferente, e que não serão apreciadas da mesma maneira nem com a mesma adesão de um ensaio erótico padrão. E não acho que as fotos do Adipositivity possam promover qualquer espécie de reeducação estética ou expansão de preferências assim, a curto prazo. Certamente o site tem potencial para isso, nessa apropriação da linguagem fotográfica erotizante, porém não mais do que as pessoas que porventura visitam o site, gostam das fotos e compartilham dessa sensibilidade, desse olhar sobre os corpos obesos. Eis a razão de eu me encantar com o projeto mais pelas mulheres que dele participam do que por sua capacidade de transformação: porque essas mulheres, que são pessoas, com vida, história, experiências, planos, elas existem no mundo real, aqui onde eu escrevo e alguém me lê, elas estão sujeitas aos mesmos critérios e opiniões do olhar do outro, mas mostram-se assim mesmo, à revelia do que a obesidade implica na nossa sociedade. Em nenhuma das fotos os rostos aparecem, pois a questão é justamente a evidência do corpo, que também é constitutivo das identidades (muito mais do que geralmente se imagina), a evidência daquilo que lhes é particular e do que é comum a todos os corpos, e que pode ser apreciado sem que nenhuma das qualidades intelectuais seja sequer considerada. E esse movimento, que eu considero profundamente afirmativo, usa como antídoto à grande exposição e valorização de corpos ideais o próprio conceito de expor-se, e obter disso fruição: a delas, a nossa. A delas principalmente, espero.


Já confundiram essa minha fala sobre aceitação de si, do próprio corpo, como extensão do discurso dos livros de auto-ajuda. Devo confessar que meu contato com esse tipo de literatura é muito restrito, mas tenho pra mim que o problema com esse tipo de livro é que ele pressupõe, em todas as pessoas, as mesmas angústias e os mesmos objetivos, ele resolve a vida, propõe fórmulas fáceis para ser feliz e bem sucedido. Para a literatura de auto-ajuda, a felicidade é uma questão de método e de status, de construir uma imagem de si que se projete positivamente e inflencie os outros, é uma questão de jogar direito o jogo, de adequar-se ao mundo da maneira mais proveitosa, e nunca de transformá-lo. É muito importante não confundir a aceitação de si mesmo, e sobretudo a vontade de ser mais feliz, com a superficialidade e a homogeneidade da auto-ajuda. Porque essa confusão desemboca em outra, a de que a lucidez traz necessariamente desconforto e infelicidade, e de que essa zona de desconforto é absoluta, instransponível e desejável para aqueles que se querem conscientes e politizados. Nem toda felicidade é fruto de alienação, nem toda infelicidade é sinal de lucidez, eu penso. As pessoas mais interessantes que eu conheci aproximavam-se daquela frase de Guimarães Rosa: eram felizes e infelizes, misturadamente.

31 pessoas pararam por aqui:

Rafa disse...

Adorei o post, em especial a parte que fala dos livros de auto-ajuda

"Para a literatura de auto-ajuda,... é uma questão de jogar direito o jogo, de adequar-se ao mundo da maneira mais proveitosa, e nunca de transformá-lo.

Genial. Parabéns =)

Srta.T disse...

Menina, que genial. O projeto também, mas me refiro ao seu texto. É tão complicado encontrar quem veja e perceba as coisas dessa forma, falando sobre a estética por si só, e não como exclusivo meio de opressão e controle das pessoas. Me questiono sempre se algumas críticas contra o "sistema" às vezes não passam de reflexos de problemas de auto-aceitação. E quando isso é dito, rapidamente a conversa se desvirtua para a auto-ajuda, geralmente nessa forma rasa e idiotizante que você citou. É uma pena, pegar uma discussão rica dessas e colocar em um pires. Ainda bem que tem gente que consegue sair desse lugar-comum e arrasar, tipo você. =)

Beijo!

L. disse...

curti todo. Interessante que apontaste que estética (variável de acordo com a pessoa e o contexto cultural de onde parte a apreciação) é diferente de status de pessoa.
Mas o último parágrafo já teria valido o post.
O reconhecimento da ambigüidade é que permite ver as pessoas em sua crueza, nós e os outros.

aline disse...

Srta T - Exato, existe essa dimensão aí. Da dificuldade de aceitação. E que fica submersa, pq é confundida com o "mal-amada", e não é isso mesmo. Existe, sim, um padrão de beleza que se impõe, que é normativo, mas para além do qual há espaço, vida, oxigênio. E não é bobo, eu penso, tentar encontrar isso aí. Aliás, considero muito mais válido tentar lidar melhor com o proprio corpo do que esconder-se atrás de um escudo, uma crítica feroz a exposição erótica feminina. Eu já disse uma vez, que reclamar demais é uma maneira de se acomodar. E eu acho isso de verdade.

Adorei vc vir aqui comentar, gostar do texto. Vc sabe que é uma das minhas interlocutoras mais queridas, né?

:******

aline disse...

Rafa, L. - eu queria ter feito um post inteiro só pra coisa da auto-ajuda. Porque é uma questão mesmo. De como a tentativa de ser feliz soa cafona e ridicula pra gente. Como se alguem que quer ser feliz quisesse de imediato esquecer dos problemas do mundo, como se nutrisse uma fantasia de ser feliz em tempo integral. Pior, como se as pessoas infelizes fossem mais vivas, ou mais lúcidas, do que as que não são infelizes. Enfim, não me segurei até um segundo post, pq tudo está muito ligado, pra mim. Que bom que vcs gostaram dessa parte, acho que é minha preferida tbm.

L. - "estética (variável de acordo com a pessoa e o contexto cultural de onde parte a apreciação) é diferente de status de pessoa." Sim, sim, isso mesmo. Porque uma pessoa é sempre maior do que isso. Adorei o jeito que vc sintetizou.

abraços aos dois, e obrigada :)

@Carlos_wt disse...

Adorei o post. Gosto muito de ler textos como esse escritos por pessoas como você, capazes de pensar "fora do frame". Aqui aplicado em sentido literal, inclusive. Parabéns!

lu disse...

putz, esse é o post mais perfeito do mundo. eu comecei a escrever sobre isso, e diante de percepções tão distantes da minha não vi nem por onde começar; mas eu queria dizer tudo o que está dito aqui, e que aqui foi dito com mais clareza e sensibilidade do que eu jamais seria capaz. Parafraseando o gravata, eu quero bater uma pra cada linha desse texto! quero imprimi-lo em outdoors e espalhar pela cidade. tá lindo demais, demais, aline; já vi belos textos sobre o assunto antes, mas esse está de longe melhor que qualquer outro. nunca vi texto sobre essa questão que a abordasse em toda a sua complexidade com tanta riqueza e sensibilidade.
"Nem toda felicidade é fruto de alienação, nem toda infelicidade é sinal de lucidez".
"nenhuma mulher é mais infeliz e miserável do que a gorda, no imaginário corrente (...) esse potencial devastador da palavra e do conceito deve sua existência, em parte, à cristalização e aceitação generalizada desse estereótipo..." cara, que post mais perfeito.

porque essa questão do preconceito que se tem contra gordos - e especialmente contra gordAs - precisa ser abordada com delicadeza pra que não se trave uma batalha contra o senso estético. o problema não é haver pessoas que são bonitas e pessoas que são feias, e seu texto é capaz de tomar esse cuidado e discernir e apontar isso com uma clareza impressionante. e isso dá a esse texto uma universalidade. Eu sinto que é frequente um ranço, que aparece por exemplo em expressões como "mulheres reais" (?!), que retratam as magras como umas neuróticas que não comem e se matam na academia pra se conformar a um padrão, em resposta ao preconceito que retrata as gordas como umas preguiçosas doentes e relapsas sem vontade... sabe? e você expôs tudo nesse texto.


E é importante que isso tudo tenha sido escrito, também, porque com o lance do lingerieday nos acusaram, inclusive, direta e indiretamente, de querer o "extermínio das gordas", e nos colocaram imediatamente na posição de "gostosas burras". e isso levanta essa questão da aceitação da gordura feminina e de uma pressão para que nos livremos dela, nos nossos corpos e nas retratações dele, que ainda não tinha sido abordado, nem aqui no AATB nem lá no meu blog. É claro que tudo o que significa isso é muita coisa pra abordar em um post só, mas acredito que esse post seu está o mais completo possível, o mais claro possível, e dá conta do recado, mesmo, da questão estética, da vitimização e da aceitação da gordura. uma garota que estudou comigo quase morreu por parar de comer, e ela sempre foi muito magra, naturalmente; eu conheço algumas magras anoréxicas que vivem infelizes e oprimidas por esse modo doentio com o qual nossa cultura lida com a gordura feminina, e conheço gordas que vivem bem (o que é mais raro, mas existem - como vc bem disse, "eu também vejo beleza naquilo que não é exatamente o padrão ou ideal. E sei, com absoluta convicção, que não sou a única") e são felizes apesar dessa opressão, e dessa imposição de que felicidade é coisa que existe *para as magras*. "Eu não quero absolutamente minimizar ou dar a entender que não existe discriminação contra gordos, sobretudo gordas. Acontece, sim, e pode ser muito traumático." - traumático é uma palavra tão legal, aqui. é mesmo traumático, e não é um processo unilateral, que elege suas vítimas de acordo com o seu peso. o buraco é mais embaixo, e você conseguiu cavar fundo o suficiente pra dar conta de uma questão tão banalizada quanto complexa. Lindo, lindo, lindo o texto.

aline disse...

puxa, obrigada! :)

L. disse...

Aline,
lembrava de ter escrito algo sobre felicidade, já:
http://reflexoesteatinas.blogspot.com/2008/08/receita-de-felicidade-com-uma-pitada-de_11.html
Mas acho que prefiro aquele teu parágrafo.
Bjs e abs,
L.

Haline disse...

Ai, que legal esse post Aline. É tão importante a aceitação e saber usar as "ferramentas" que se tem. Primeiro de tudo, eu acho que a avaliação imediata vem sempre acompanhada sim de uma imposição estética enorme. Mas me diz, quem nunca ficou com alguém que efetivamente não achou bonito de cara? O que aconteceu depois? O ser humano é tão mais abrangente que esse conjunto de coisas e eu tenho medo de quem passa a vida parado achando que nunca poderá ser amado, desejado, enfim, por não fazer parte desse padrão. O primeiro cara que me apaixonei, eu achava antes com uma puta cara de bobo. Qdo conheci melhor, comecei a achar ele foda e tudo mais. Saber trabalhar com a sexualidade é outro ponto. Qto mais se tem vergonha do corpo ou de qq outra coisa, o exercício da sensualidade fica prejudicado mesmo. Adorei o ensaio. É sensual. Se não provocar tesão em ninguém, não importa, é simplesmente o exercício da sensualidade daquelas modelos. As revistas masculinas tambem não causam tesão na maioria das mulheres e, no entanto, são caras saradissimo e tals. E encarar os fatos como são tb é tão esclarecido. Qdo eu tinha uns 12 anos, uma amiga da minha mãe tava contando dela com o namorado (eu sempre participava de todas as conversas) que era bem gordo, bem gordo mesmo. (parecia o Ricardo Amaral) Dai ela contou que ele não caia em cima dela durante a transa ou pós sexo pq machucaria. Ela era bem pequena e bem magra. Achei tão legal ela contar isso, que o cara se preocupava com isso, não tem um padrão pro sexo, a gente precisa descobrir como é pra gente. Mas as pessoas fixam nisso e evitam falar coisas óbvias, viram proibidas. Como enfatizar o lance do peso. Ue, o que tem isso? O cara não é gordo, então tem essa problemática ai, e dai? Se ela fosse gorda tb talvez aguentasse o peso dele, o que me leva a crer q a problemática então era dos dois né? Ela é frágil demais e não aguenta o peso do cara. Se fosse um gdão, fortão, saradão? Daria no mesmo, ela não aguentaria. Todas as mulheres que conheci e eram acima do peso e bem resolvidas com a sexualidade, na maior parte dos casos, chegavam a uma aceitação tão gde que eram mais bem resolvidas que outras que não estavam acima do peso. Era um exercicio de aceitação. Enfim, acho q falei demais. rs

aline disse...

Ah Lu, que fofa vc é. Que bom que vc gostou, significa muito pra mim ouvir um elogio desses de vc.

O que me angustia, e que fica claro pra mim quando leio e converso com vc, é essa impressão de que muita gente considera que os corpos femininos existem principalmente (quando não exclusivamente) a partir do padrão estético vigente. Como se o corpo obeso fosse sempre um corpo a ser revertido e recuperado, o corpo magro, um corpo a ser mantido, como se as mulheres existissem nessa chave aí, onde ser gorda é ser feia e desprezada e ser magra é ser bonita e valorizada (mas apenas fisicamente, pq ser gostosa também é ser burra). E, exato, é preciso tomar cuidado pra não travar uma batalha contra o senso estético, com a enunciação da opinião sobre a beleza ou a feiúra de algo/ alguém. Esse ressentimento com o proprio corpo, eu ja vi acontecer muito, as vezes se expressa como fúria contra o padrão estético, contra as mulheres que nele se encaixam ou contra aqueles que acham bonitas as mulheres que se encaixam no padrão. Complicado, isso, e venenoso. Porque legitima, ainda que do avesso, aquilo que se quer destruir.

Sobre o LD, sim, a gente tbm ganhou essa pecha aí. E engraçado pq eu acordei gorda e inteligente, naquele dia, e fui dormir sendo uma gostosa burra. Pq esses estereótipos e contradições estão aí, dando rasantes sobre nossa cabeça.

Enfim, estou feliz de ver o que vc achou, de saber q esse texto é bonito e interessante pra vc. Pq vc está na gênese dele, com certeza.

aline disse...

L., eu vou ler e comento lá. Mas obrigada, de novo. :***

Haline - é, eu acho que nada é definitivo, que ao longo da vida as coisas se mostram muito mais fluídas e polivalentes, e o peso com certeza não é aquilo que te define, nem que determina seu destino ou a natureza das relações que vc vai estabelecer. Eua cho fundamental, mesmo, enxergar que o quanto vc come, o quanto vc se exercita, o quanto vc pesa e o quanto vc é feliz não são coisas conectadas necessariamente, não formam um sistema fechadinho e determinante de quem vc é.

:******

kelly disse...

vc tirou o link da Mary W. do blogroll? não precisa responder.

aline disse...

kelly, eu vou fazer melhor do que não te responder, vou te dar várias respostas e vc escolhe a que gostar mais:

- o link tirou férias e foi viajar;

- o link fugiu na calada da noite;

- o link se aposentou e foi morar em bariloche;

- o link achou que meu blogroll não valia mais a pena e saiu correndo;

- o link tá lá sim, olha direito;

- eu tirei ele de lá.

ladyrasta disse...

Sabe que me aconteceu uma coisa engraçada né? Num período de 1 ano e meio por questões que não vêm ao caso agora, saí de manequim 36 pro 44 (agora estou no 42,ufa!. Sabe o que me espantou? Que eu comecei a ser mais paquerada, ao invés de ser menos... Até fiz post (na verdade um meme) sobre isso, pra ver se as meninas que estão com alta estima baixa começam a pensar diferente...

Adorei o post, beijos!

aline disse...

Ah, acontece, ainda mais a gente, que gosta de mulher mais cheinha mesmo. E enfim, é justamente isso que eu to dizendo, que ser gordinha, e mesmo gorda, não significa nada a princípio, não quer dizer que vc é feia, que vc não será amada nem poderá amar. E todas essas coisas, que são tão fundamentais, parece que perdem a força e que ficam bregas qdo a gente fala isso. Mas enfim, é o que eu penso.

que bom q vc gostou, obrigada.
beijos

Daniela disse...

Eu invariavelmente me irrito quando as pessoas dizem que crianças são qq-desses-clichês-que-se-diz-por-aí porque alô? eu trabalho com crianças.

Mais que isso. Sou uma professora negra, gorda, nordestina e de cabelo black então todo tipo de coisa eu ouço.

Mas umas das coisas mais legais é quando eles cochicham entre si algo sobre o meu peso e eu digo: tá. fulana. Sua...sua...sua...mineira (tenho muitos alunos mineiros)!! Eu te chamar de mineira te ofende? - não. Porque é só um fato né? Eu sou gorda, é um fato. Não usem como xingamente, não tem cabimento isso.

A cara deles é tudo. Porque desconstrói essa coisas, de achar que ser gordo é algo inerentemente ruim.

Eu queria tanto que você escrevesse aquele blog sobre obesidade. Eu não seria capaz, acho, de escrever publicamente sobre isso, nem é algo que eu tenha muito elaborado, a minha obesidade digo, quando comparada à minha negritude, por exemplo... mas eu acho tanto que você seria.

Eu acho que esse comentário ficou confuso...enfim! :)

Daniela disse...

Tive que voltar e dizer.

Que esse último parágrafo é das coisas mais brilhantes que li em MUITO tempo.

Parabéns, moça. Sempre

aline disse...

Ah, brigada, Dani.

Beijos

PS - eu não tenho paciencia pra fazer outro blog, vou entuxando tudo aqui mesmo ;)

Diego Goes disse...

Que texto perfeito, Aline.

Gosto de caras gordinhos. E, por incrível que pareça, eu sofro uma espécie de preconceito por isso. Uns dizem que sou louco por gostar dos mais cheinhos; outros me acusam de doente (sim, já ouvi isso); alguns falam que é falta de opção.
E eu fico triste por existir pessoas que pensam assim. =(

Já disse mas repito: o texto está absurdamente soberbo.

aline disse...

Ah Diego, que prazer ler seu comentário! Aliás,a cho que é a primeira vez q vc comenta aqui, invés de ler quietinho, né?

Eu não me surpreendo nada com essa discriminação que vc diz que sofre. Porque eu sei que ela existe, também. As pessoas podem achar estranho ou engraçado alguém amar um gordo, e não apesar de ele ser gordo, mas amar um gordo, sendo gordo, ou se sentir atraído de alguém porque é gordo. A obesidade muitas vezes é algo que se tolera quando a pessoa é interessante e talz. Então quem gosta de gordos e gordinhos parece freak. Mas sei lá, meu desejo maior e primeiro é que os gordos se sintam melhor em sua própria pele, que não sejam assediados. Porque a cabeça do preconceituoso, bem, eu não sei como lidar com ela, eu não falo a mesma língua, não uso os mesmo óculos. Então o diálogo com quem discrimina ou ridiculariza é encurtado mesmo. O que eu gosto, é conversar com pessoas como vc, que mostram que de fato eu não sou a única a amar as pessoas em sua diversidade, e não apesar dela.

beijos, e obrigada.

Désir La Vie disse...

Sensacional o Adipositivity. Fotos belíssimas e altamente sensuais.

Mas preciso dizer que o final do post ficou animal demais. Pena a confusão que fizeram(sobre auto-ajuda, blé), mas talvez não tenham conseguido captar a profundidade e complexidade da coisa em si. Porque não é questão estética, meramente...

Refletindo na sua última frase:
A lucidez, por vezes, me sufoca, no entanto, me trás uma felicidade verdadeira, o que, antes de alcançá-la, não me era possível.

Beijos pra vc.

aline disse...

Oi Vanessa

O Adipositivity é um site incrível. Incrível mesmo, na beleza dos textos, das fotos, da proposta toda. Adoro demais.

Sobre a auto-ajuda, eu acho que essa crítica dialoga com uma politização radical, polarizada, amarga, ressentida até. Que enxerga tudo como "coletivo" ou "individual". A busca da felicidade entra nisso aí como sinal de superficialidade, e é engraçado, pq eu não conheço ninguém que não procure ser feliz. E em alguns casos, como esse que eu discuto, os indivíduos se tornam mais fortes e mais capazes de influenciar seu meio. Há uma zona em que indíviduo e coletivo se misturam, se determinam, e nessa zona a gente faz o melhor que puder. Mas há quem não enxergue, quem considere isso como fuga, como negação, como futilidade, como insuficiente. Uma pena, mas até essa manifestação da individualidade eu respeito. Mas: assim como a individualidade exacerbada pode ser egoísta e despolitizante, a exigência inflexível de uma atuação em nome da coletividade pode ser muito opressora também, é preciso cuidado e sensibilidade.

O conhecimento, ou a lucidez, pode ser pesado, sufocante, claro. Há sempre um momento de desconforto, de desconstrução, de reajuste dos parâmetros. Perceber a gravidade dos problemas do mundo dá vertigem. Mas eu insisto que a reclamação interminável, a infelicidade e a tristeza podem ser paralisantes. Eu acho que isso é questão de maturidade emocional, sabe? É preciso ser consciente o bastante pra reconhecer o problema, e esperançoso o bastante pra poder lutar contra ele. Senão, vc se acomoda, vc se fixa no lugar do injustiçado, do denunciante, do vigilante, vc começa a exigir sacrifícios. Ruim isso. Mas, de novo, ruim pra quem vive assim, pra quem vê o mundo e a vida sempre da beira do abismo. Minha vida não é essa mesmo. Escolha minha, etc etc.

beijos

Désir La Vie disse...

Lendo sua resposta, identifiquei ilustres personas: Clarice Lispector, Foucault, Sartre

Sobre:
'Assim como a individualidade exacerbada pode ser egoísta e despolitizante, a exigência inflexível de uma atuação em nome da coletividade pode ser muito opressora também, é preciso cuidado e sensibilidade.'

Sim, o radicalismo nunca é bom, seja numa perspectiva individual, seja numa coletiva...Ô duro é a tal sensibilidade; mas a gente se esforça.

Adoro a maneira quase-poética como escreve, Aline.

Beijos

aline disse...

Nossa, exato. Vc pescou gente que eu leio sim, que amo. Na verdade, eu estava com Camus em mente, porque tenho lido coisas dele. Sobre o homem revoltado, sobre o amor à vida. Vc foi no ponto, Vanessa :)

Essa sensibilidade, ela não vem de leitura exatamente, sabe, acho que é de outra natureza isso. Lidar com a alteridade, respeita-la (ou seja, não subestima-la), perceber os limites, seus e do outro, inventar-se a partir dessa alteridade também, isso é coisa de gente madura. E exige esforço, claro. Sempre.

Obrigada, de novo. Essa minha escrita, veja só, é um desdobramento de como eu vejo e sinto as coisas.

:*****

Margot Abirato disse...

Oi Aline, que prazer vir aqui te ler, honestamente. Descubri-te pelo Pequeno Livro do Exílio e acho que, finalmente, venho comentar. Não venho adicionar nada ao que já dissestes tão bem, mas somente, talvez, levantar a questão de que, hoje em dia e ao meu ver, essa obsessão estética pela magreza ou gordura vem, em grande parte, do mulherio. Como já disse algumas vezes, o infame "vc deu uma engordadinha" ou o "vc perdeu uns quilinhos" vem, em sua grande massacradora maioria, do coro feminino. E aqui é que não entendo, como aquelas que se sentem mais vitimizadas por esse padrão imposto são, ao mesmo tempo, as que mais policiam e as que mais corroboram esse tal padrão. Em papéis de vítima e polícia, ao mesmo tempo, e mudando de papel conforme mais ou menos gordas e magras se sintam. REconheço em mim mesma uma certa obsessão pessoal pela boa forma, talvez herança de um passado atlético, talvez massacre do inconsciente pelo padrão imposto, mas tento sempre me policiar para não sucumbir à apreciação da próxima através de minha herança ou de meu inconsciente. No entanto, à grande maioria das mulheres, é irresistível não comentar, não apontar, e não fazer chacota das formas alheias. Ando assim, um pouco frustrada com o público feminino em geral, para quem há, na grande maioria dos casos, muito mais necessidade de justificativa quanto aos quilos, às escolhas, à maternidade, à não maternidade, à vida. Valeu e beijocas,

aline disse...

Oi Margot

Seja bem vinda!
Eu percebo isso tbm, de algumas mulheres fazerem tanta ou mais pressão quanto ao corpo. Não sei dizer se é uma questão de maioria, porque a maioria das pessoas que eu conheço é um recorte muito específico, mas que no meu círculo social isso acontece, é fato. De elas se submeterem a si mesmas e as outras a critérios estéticos inflexiveis, pq entram nessa lógica.
Só não pode haver confusão entre quem se obriga a ser magra pq tem medo da opinião alheia e quem é magra mesmo, ou gosta de se manter magra. Estar de acordo com o padrão de beçeza não significa necessariamente achar que eles são O certo, ou a única possibilidade de aparência. Eu acho legal ter chego um ponto em que ser magra, mãe, dona de casa, vaidosa não significa necessariamente uma submissão, pode ser - e muitas vezes é - uma escolha.

abraço

Carlos disse...

Muito interessante a iniciativa desse site e melhor ainda é o seu texto. Além de td q vc disse (q não discordei de uma linha), há tb situações paralelas ao tema, como por exemplo quem prefere mulheres tipo estas q estão fora do padrão das capas de revista.

Como homem, falo por experiência própria. Desde simplesmente elogiar uma gordinha até ter um relacionamento com uma, td isso é visto com certa estranheza por alguns homens. Como se o fato de ser atraente ou sexy ou simplesmente ser uma boa companheira tivesse a ver com o peso. Isso td me lembrou um texto q li no pinkythekinky: vc se sentir atraido por mulheres photoshopadas/lipoaspiradas, q não existem na realidade, é o certo; enquanto q se vc gostar de mulheres obesas ou mais velhas (q existem na realidade) é considerado uma peversão.

Vou ficando por aqui pq já falei demais. Mais uma vez parabéns pelo blog e pela sensibilidade em tratar temas como este. =]

aline disse...

Carlos

Esse site Adipositivity é belíssimo.

Esse estranhamento não acontece apenas da parte dos homens não. Eu lembro que há um tempo atrás aquele ator bonitão que fez 007 apareceu numas fotos com a mulher dele, na praia e ela é gorda, sabe? É linda, alta, tem um corpão. E nas revistas, nos portais online, era só esculhambação, de homens e mulheres. Li até alguem dizer q o cara deveria esconder a mulher (!!). O ator deu até uma declaração de que amava o corpo da mulher dele, etc etc, e então ele virou tipo um ícone do homem perfeito. ahahhaha brincadeira (mas não muito)
Eu não sei se existe um "certo" pra atração, se tem cara que gosta das mulheres que aparecem na revistas, mesmo depois de todo tratamento de imagem, o que pode acontecer é o cara nunca encontrar uma mulher que ache bonita na vida real. E viver nesse descompasso.
Mas as mulheres dentro do padrão, bonitas, as magras, as gostosonas, elas também são reais, elas trabalham, estudam, vão no mercado e no dentista tbm, estão por aí, junto com todas as outras. Gostar desse tipo de mulher, dessa aparência eu acho que não tem nada de mais. Pode ser limitante gostar só de um tipo de beleza, mas errado, em si, eu não acho não. Agora, considerar gosto por gordas perversão é demais, o fim da picada mesmo.

muito obrigada pela visita e pelo comentário

:*

Iara disse...

Atrasada por conta das férias, mas o post ficou incrível. E vou ter que me conter, porque se tomar coragem e recomeçar um blog, este tema é um dos que quero abordar. Nossa, como rende pano pra manga, né?

Meu número é 44. Costumo brincar que é mais difícil pra uma mulher do meu tamanho comprar um jeans do que arrajar um namorado. Por que pra moda, 44 é imenso, mas para os homens em geral ainda é dentro do padrão "gostosa".

O fato é que estou quase usando 46 e não estou feliz com isso. Mas o problema é mais a dificuldade de comprar roupas do que qualquer outra coisa, sabe? Porque eu ganhei 10 quilos nos últimos 2 anos e acho que eu fico melhor mais magra, mas isso não é um problemão, um drama, uma questão de auto-estima. Eu acho que eu sou bonita assim, aliás acho que nunca estive tão bonita, mas fazer exercícios e comer um pouco menos de porcaria vai me deixar mais disposta e saudável e, de quebra, perder alguns quilos. E minha relação com tudo isso, com meu corpo, com a comida, é tão tranqüila, tão saudável, tão na paz, e vai continuar sendo se eu passar para o tamanho 46 ou voltar ao 40 .

Nossa, eu queria escrever um caminhão de coisas sobre isso...

aline disse...

O assunto é interessante demais, rende muito.

Comprar roupa é muito difícil sim, tem que achar uma loja boa e é super mais caro. Felizmente tbm é um mercado que se expande, então eu acho que a tendência é melhorar, mas até lá, é sufoco, não tem jeito. Mas eu acho válido se sentir bonita, e ter uma relação tranquila, como vc disse.

Eu prezo muito esse assunto, vc sabe né? Vale aquele e-mail que te mandei.

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