7.9.09

da sexualização das meninas

.: Há este livro chamado Senhorita Else, escrito por Arthur Schnitzler e publicado em 1924. Não é um romance, exatamente, pois sua forma condensada o aproxima mais da novela. Trata-se de um relato, em primeira pessoa, de uma jovem, Else, que está numa espécie de hotel (ou colônia de férias, já não me lembro dos detalhes), onde se reúne a alta burguesia austríaca, e recebe uma carta de seus pais com um pedido e algumas instruções. Seu pai está falido e precisa de dinheiro, e cabe a ela recorrer a um homem rico, conhecido de seu pai. Else obedece, procura o homem, e ele impõe uma condição: que ela se mostre nua para ele. Estou prestes a contar o final: ela aceita, porque se vê completamente sem saída, com o futuro da família nas mãos, e entre o êxtase, a raiva, o desespero, ela vai salão de festas, onde estão todos - inclusive seu "salvador" - , vestida apenas com um casaco de peles, e despe-se. Escândalo, susto, horror, etc. O desfecho é completamente reticente, ela toma um remédio para dormir, que é como planejara cometer suicídio logo após sua exibição, e não sabemos, afinal, se ela de fato morre, ou desmaia, ou apenas delira.

.: Eu fiquei pensando nesse livro quando surgiu, na caixa de comentários do post anterior, o assunto sobre a sexualização das crianças hoje. É uma queixa bem recorrente essa. De que as meninas querem vestir-se e maquiar-se cada vez mais cedo, de que agem como adultas, e preocupam-se com a aparência de maneira quase obssessiva. Sem deixar de reconhecer esse fenômeno, eu disse que a ideia de adolescência é muito recente e que até poucas décadas atrás as meninas tornavam-se mulheres aptas a casar e ter filhos praticamente na época da primeira menstruação. Foi assim com as bisas e avós de muita gente; e mesmo minha mãe, que tem seus 50 anos hoje, não passou por essa fase tão consolidada da adolescência, embora na época dela já houvesse um cuidado maior com a "preservação" da fase da juventude e sua dissociação da vida adulta.
Eu gosto muito desse livro que mencionei, e comecei o post com ele porque justamente ele apresenta o registro de uma dupla moralidade da burguesia, dos espaços recôndidos onde escondia-se a sexualidade, a erotização, etc, já que ela tinha que existir assim, secretamente. A carta que os pais de Else escrevem contém todos os indícios de que eles sabiam que tipo de coisa seria imposta à filha, é uma carta cheia de ambiguidades entre o ato de pedir dinheiro emprestado e submeter-se a algum assédio sexual como "seu futuro não será prejudicado"... "não é vergonha nenhuma"... "apenas o reestabelecimento financeiro da família te proporcionará um bom casamento"... Há todo esse código de conduta que rege os detalhes das taras e adultérios, e é perverso o modo como Else é oferecida a um homem, como ela é apresentada às regras de um jogo que, afinal, não está disposta a jogar.

Por isso eu sou inclinada a pensar que essa sexualização das crianças não é exatamente um fenômeno inédito ou novo, que data de 10, 15 anos; apenas, ele está acontecendo dentro de parâmetros diferentes. As meninas "de família", até muito recentemente, eram criadas para serem mães e esposas, e o fato de sexo ser um tabu não significava que elas não tinham de lidar com essa instância também. Imagino, no entanto, que a descoberta e o exercício da sexualidade devia ser bem mais difícil e complicado para as mulheres das gerações passadas, posto que ele acontecia muitas vezes dentro dessa dupla moralidade: o sexo limpinho e reprodutivo com as esposas, o sexo libertino e sujo com as amantes.

.: No que concerne a influência da propaganda na formação das crianças e de sua participação na sexualização precoce das meninas, ocorre-me que esse processo é ambíguo, ou pelo menos relativo. Porque há, de fato, um estímulo para que as meninas sejam vaidosas, que usem modelos de sapatos e roupas adultas, maquiagem, acessórios e até peças de lingerie. O documentário Criança, a alma do negócio, que a Vanessa mencionou, demonstra isso muito bem, eu acho. De como as meninas foram trocando as brincadeiras com casinha e bonecas-bebês pela Barbie. Eu considero essa imagem muito adequada para ilustrar essa nova projeção. E no entanto, eu não acho que a Barbie seja um modelo perfeito de mulher sexualizada. Como eu disse pra Vanessa, ela existe num contexto de consumismo, de moda, de beleza física padrão, que eventualmente se torna o tipo de mulher que protagoniza novelas e filmes. Essa mulher bonita, fashion, descolada, vaidosa e desejada não é, absolutamente, liberada sexualmente. Nem desprendida do machismo mais comum e esparramado que existe. As Helenas das novelas globais são sempre mulheres em busca de um grande amor, do homem perfeito que as ame e respeite, são aquelas que casam no último capítulo, que se tornam mães, avós, e encarnam o papel da leoa defendendo a cria. O toque de modernidade geralmente fica por conta da inserção de uma carreira profissional (que já não é pouca coisa), mas que no entanto está sempre submetida às questões da feminilidade. Toda a roupagem moderna da Barbie, ou das mulheres e heroínas nos meios de comunicação em massa, não elimina a vocação caseira e casamenteira das mulheres. E por isso eu acho que essa sexualização de que tanto falamos não é assim, dada e absoluta. Porque a associação entre ser mulher e ser romântica ainda norteia boa parte das mensagens, seja nos comerciais ou na ficção.
Então embora as meninas sintam-se e queiram comportar-se como mulheres adultas, mesmo que o romance esteja em seu horizonte e que elas brinquem com a ideia de um suposto olhar masculino sobre si mesmas, isso não significa que a sexualização ou erotização delas se dá completamente, ou da maneira que nós tememos e tentamos evitar. Muito menos que são estimuladas a qualquer comportamento promíscuo ou socialmente repudiado porque em nenhum momento os valores sociais, em grande parte conservadores, deixaram de conduzir as novelas e publicidades. Nem mesmo as adultas hoje conseguem lidar tranquilamente com sua própria sexualidade, posto que com frequência nós corremos o risco de sermos estigmatizadas como vulgares, piriguetes e etcs. Ainda vigora a ideia de que comportar-se livre e espontaneamente na cama pode te trazer inconveniências e arrependimentos, ainda há quem ache que o sexo é algo que nós fazemos para agradar os homens. Então, repito, se nem as adultas conseguem lidar facilmente com sua própria sexualidade, se ela ainda é super vigiada, normatizada e controlada, se a erotização ainda é objeto de debates que pretendem descobrir o que as mulheres "podem" e "não podem" fazer, como é possível que as meninas, sob os mesmos estímulos e avisos, passem por um processo de sexualização que conduza a um comportamento desregrado, leviano, fácil ou espontâneo?

.: Não estou dizendo que acho ok usar salto alto e sutian aos 9 anos. Não é isso mesmo. Mas o que a gente chama de sexualização, sei lá, eu acho que é outra coisa também. Que envolve tabus e travas que ainda persistem, e que por isso é mais complicada, inconstante, ramificada, mais ligada à aparência, a um narcisismo meio estranho, que é tão do nosso tempo. E a gente tem mais é que pensar sobre o assunto, etc.

9 pessoas pararam por aqui:

Désir La Vie disse...

A., você é tão lúcida que me dá arrepios...No mais-bom-sentido que você possa imaginar. Amo te ler.

Achei sensacional o livro que você mencionou.
De fato, dois lados da mesmíssima moral burguesa.
Vou procurar pra ler....Urgentemente!

Ó, acho assim...Como bem sabemos, as brincadeiras/brinquedos infantis projetam o futuro pra criança. (Vou exemplificar o que penso através das meninas, embora não haja diferença com os meninos. Claro, há sim, mas depois de já sexualizados)

Antes, como você bem disse, as meninas carregavam bebês, hoje, trocam roupas fashion de bonecas Barbies, entre outras coisitas...

Concordo com você, também não acredito que a Barbie seja exemplo de liberação sexual, não é isso. Acredito, somente, que o lúdico aí se dá quase que exclusivamente no corpo. E é um corpo adulto. E num corpo adulto feminino(e masculino) pressupõe também a sexualidade.

Não sou pudica, peloamor, longe disso, mas acho que há uma grande diferença entre um corpo nu por si e a representação que é dada para o corpo nu. A Barbie já vem com namorado/marido e algumas até com filhos, e isso é um prêt-à-porter. A criança não matura para imaginar e criar, já é dado. É como se ela tivesse que seguir aquilo e começando agora.

Também não acredito que somente os brinquedos sejam os vilões, imagens também exercem forte influência, e elas estão por todos os lados, sejam nos outdoors ou qualquer outro meio de comunicação.

A., também não acho que essa precocidade sexual das crianças acarretem em comportamentos desregrados ou levianos. Penso que o mundo do mercado lança as crianças ao universo sexual, somente - Já os 'guias morais' estão por todos os lados; mas uma coisa não aniquila a outra.

Pra finalizar, vou colocar uma citação de um texto publicado na Folha de hoje(06/09), de autoria da psicanalista Maria Rita Kehl. Não sei se você assina a Folha, caso assine, dá pra ler na íntegra, mesmo online.

'A falta de objeto que caracteriza a atração erótica parece ter sido ofuscada pela onipresença de imagens sexuais nos outdoors, na televisão, nas lojas, nas revistas -por onde olhe, o sujeito se depara com o sexual desvelado que se oferece e o convida'

Vale pra qualquer um que tenha olhos, inclusive as crianças!

aline disse...

Obrigada, Van. De verdade.

O livro é muito bom, recomendo fortemente.

Eu vejo uma diferença bem marcada entre o olhar sobre o amadurecimentos dos meninos e o das meninas. Porque ouve-se muito menos queixas sobre a sexualização deles. E tampouco considera-se que brincadeiras que estimulem sua virilidade, sua agressividade, sua habilidade física são sexualizantes. Ao passo que a menina que carrega nas cores da "feminilidade" (como a vaidade, o sex appeal, etc) é considerada sexualizada. E minha hipótese é que isso decorre do fato de nós considerarmos erotizante praticamente toda imagem de mulher que se aproxime do estereótipo de mulher bonita, como a Barbie.
Eu vejo também essa confusão entre um corpo adulto e um corpo infantil, vejo essa mistura de estações, e o que eu queria dizer no post é que a sexualização não é um processo tranquilo, bem sucedido, seja pras adultas, seja pras meninas. Pelo contrário, é problemático, é carregado de complexos, culpas, etc. O artigo da Maria Rita Khel menciona isso, o esvaziamento, o tédio e a compulsão que os jovens sentem em relação ao sexo. E me parece que o problema (não pra Khel, mas de modo geral) é mais a disposição para o sexo, a voracidade, o fato de ele ser tão presente na vida dos jovens, e não o fato de ele ser problemático, de ser tedioso, de comprometer outras instâncias da vida. Há um limite considerado saudável para o gosto do jovem pelo sexo, e esse limite é diferente para os meninos e para as meninas.
"não acho que essa precocidade sexual das crianças acarretem em comportamentos desregrados ou levianos. Penso que o mundo do mercado lança as crianças ao universo sexual, somente - Já os 'guias morais' estão por todos os lados; mas uma coisa não aniquila a outra." - é, uma coisa não anula a outra. Elas se complementam, e pra mim levam a essa indefinição, por exemplo, do que uma mulher "pode" e "não pode" fazer. Porque embora haja mais liberdade sexual, embora o sexo socialmente seja mais aceito e festejado, ainda existe uma carga moralista pesada sobre os corpos e comportamentos. E sobre as mulheres, mais do que sobre os homens, recaem esses moralismos sufocantes. Há quem pense que uma solução esteja no abrandamento do sexo, em sua retirada dos meios de comunicação, do interesses das pessoas. Vc encontra fácil fácil posts que orientam as mulheres a reterem-se nos exo, para se preservar. Eu não acho que o controle e a retenção da sexualidade sejam solução pra nada, acho que por isso nós já passamos e ficou claro que não dá certo. Pra mim é uma questão de quebrar os tabus e minimizar os moralismos, mesmo.

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Jaded disse...

Adorei seu texto! Você conseguiu sintetizar tudo que sempre digo quando se trata de sexualidade feminina e infância. Parabéns!

aline disse...

Puxa, obrigada.... rs

Suzana Elvas disse...

Aline, tô correndo e muito me interessa comentar mais profundamente esse seu post. Mas só pra você ver: minha filha magricela, que adora uma boneca e é menina até a raiz dos cabelos (sem esmaltes, sem maquiagem, sem salto, sem mulherzices) JÁ precisa de sutiã. Pasmei eu, pasme você. E a irmã de oito idem. E eu vou comprar não porque isso me incomode, mas porque os bicos dos seios já aparecem sob a camiseta. E eu tenho vontade de vomitar quando pego desconhecidos mirando fixamente o peito das duas.

aline disse...

Ah sim, mas aí não é porque a menina quer usar a peça pra imitar o corpo da mulher adulta, é outro caso. O corpo delas mudando, e tal. Tanto que poderia ser um top, uma regata mais discretinha, e etc.
Há esse perigo da pedofilia. Não tinha como falar disso no post sem deixar o texto imenso. É claro que é um problema, o pior e mais nocivo deles, no que tange a tal da sexualização das crianças. Mas também é claro pra mim que a erotização não vem delas, não é algo q elas provocam, é algo de que elas são vítimas. O pedófilo deseja a criança sexualmente com ou sem adereços que a tornam adulta, independente do contexto. Ele a vê de maneira sexualizada, excitante, convidativa.
Uma vez descobriram uma comunidade secreta do orkut, e os caras listavam perfis e albuns de crianças, e eram fotos "normais", de crianças vestidas e se comportando como crianças. Brincando, rindo, posando com os pais, etc. De bebês a pré-adolescentes. Algumas pessoas mandaram mensagens pra algumas dessas crianças, pedindo pra elas protegerem as fotos, mudarem o perfil. Eu acho que toda proteção é válida. Mas, ao mesmo tempo, sei que a proteção do corpo delas não impede esse olhar predador. O que me angustia, etc.

Suzana Elvas disse...

Aline, ainda correndo;

Não é a questão de querer ou não o sutiã. Eu precisei de sutiã aos 12 anos; minha irmã aos 13. Perguntei à minha mãe e ela disse que começou a usar o sutiã aos 13. E eu já li não sei quantos artigos (e conversei isso com a pediatra das meninas) em como a sexualização precoce das meninas faz com que o corpo delas comece, cada vez mais cedo, a sofrer a transformação da adolescência, em comparação há décadas atrás.

estadodearte disse...

Excelente post. Cada vez que eu venho aqui é uma surpresa. =)

Nunca pensei que brincadeiras de menino também fossem sexualizantes. Nunca parei pra pensar nem nunca tive esse insight. Mas faz todo sentido do mundo. Foi o que mais me chamou a atenção no texto.

Em geral, quando a gente fala do problema da sexualização precoce, se fala de meninas basicamente. Pros meninos isso não é problema algum.

aline disse...

Suzana, ahn, ok, entendi.

Rafael, obrigada, mesmo. Pois é, todo o problema da sexualização costuma ficar às voltas do comportamento das meninas. Acho que isso já é bem eloquente sobre os valores que estão implicados aí. Sobre os meninos há o questionamento sobre violência, sobre agressividade, sobre falta de limites, são de outra ordem as questões educacionais e comportamentais que se referem a eles. E mesmo quando se pensa que os meninos são muito expostos à sexualidade, é sempre num movimento que critica a sexualidade das mulheres adultas, como fica claro em episódios tipo a professora que foi demitida. É ela, mais do que qq outro, que promove a sexualização: serve de mau exemplo pras meninas e de objeto pros meninos.
Ali Kamel deveria fazer um livro: "Não somos machistas".
ahahahahaha

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