16.9.09

do que aconteceu

.:Conheço bem essa garota que engravidou aos 17 do primeiro namorado, e foi assim que ela aprendeu que tabelinha não funciona, não importa o quão boa em contas fosse ela. Ela aprendeu também que há alguns rapazes que são covardes e fracos, e se for pra engravidar, que não seja de um desses. Decidiu pelo aborto, essa garota. Fez em casa, sozinha, sentindo mais frio na ponta dos pés do que qualquer outra coisa. Com remédios que um amigo comprou pra ela, mas fez questão de por uma margem de lucro em cima. O método cuidou de interromper a gravidez, mas não de expeli-la de dentro dela, então foi preciso recorrer a médicos e hospitais. Foi assim que ela aprendeu que médicos e enfermeiras não necessariamente abrem mão de suas  opiniões pessoais e moralismos, nem que seja pra ajudar alguém ou simplesmente não piorar a situação. Depois de 3 semanas, 11 médicos, umas 30 enfermeiras, 3 hospitais e 2 técnicos de ultrassom, algumas broncas, muitos olhares, maus tratos e silêncios, muita omissão também, ela descobriu que precisava submeter-se a uma curetagem com urgência. Foi assim que ela aprendeu que nem tudo se resolve, e que a permanência de um feto abortado macerando pode levar a infecções, perda do útero e até à morte. Ela aprendeu também que muita gente acha que há certo equilíbrio em você abortar e nunca mais poder engravidar na vida. Na noite anterior à curetagem, o médico que veio tentar tirar parte do resíduo de dentro dela pediu-lhe que pusesse os óculos "pra ver o que ela tinha feito".
Ela pôs os óculos, mas nada era nítido, dentro ou fora dela. Durante a curetagem, as enfermeiras falavam sobre os problemas de engravidar na adolescência, como se essa garota já não os conhecesse. Logo depois do procedimento, deixaram-na sozinha numa sala escura, um pouco grogue e delirante por causa da anestesia; e uns bons minutos se passaram antes que a levassem pro quarto. Quando finalmente ela saiu do hospital, era como se nada tivesse acontecido. Aquele nada pastoso e insosso que emana da crueldade dos desconhecidos e das pessoas muito seguras de sua lição de vida. Aquele nada, que desconforta, que esvazia, que tira a graça de tudo aquilo que se move.

.:São exatos 8 anos desde aquela sala escura do hospital. Caso não fosse menor de idade, na época, apenas agora eu poderia ter certeza de que não posso mais ser denunciada e processada como criminosa, ou algo parecido, depois de tudo o que aconteceu. Então é um post simbólico, do ponto de vista de um crime que prescreve.  Mas é muito mais também. Posto que é um discurso que se situa, que tenta atravessar esse Outro, sempre hipotético e estatístico, que é a mulher que aborta: isto é a minha história sendo contada. Com todos os recursos linguísticos e emocionais de que disponho, que eu mesma elaborei ao longo do tempo, com a ajuda de algumas pessoas (e a elas, minha profunda gratidão e amor). E, afinal, oito anos foi o tempo necessário pra eu tomar fôlego o bastante pra mandar todos esses médicos e demais profissionais tomarem no cu. Em especial o daquela noite, a ele desejo, sem nenhuma suavidade no coração, que a vida seja tão mais cinza, áspera, congelante, intratável quanto numerosas forem as mulheres que você quis fazer "ver o que fizeram", doutor.
.:E, com tranquilidade, eu sigo.


.:Confissão não prova arrependimento, às vezes é celebração. 
                                                                                 Carlos Drummond de Andrade:.

47 pessoas pararam por aqui:

thiago fernandes disse...

Parabéns pela coragem de mandar tomarem no cu. Eles merecem

Ricardo Cabral disse...

Tocado, profundamente tocado com o depoimento.

Tenho sempre que repetir que ser a favor do aborto não implica em desejar que as pessoas abortem ou que ele seja tratado como um método contraceptivo qualquer, mesmo porque o aborto não costuma ser experiência banal, inclusive para aquelas que vivem em países onde o procedimento é legal.

E se houve algum crime no que foi relatado aqui, ele corresponde ao julgamento moral e à punição que vários dos "11 médicos, umas 30 enfermeiras ... e 2 técnicos de ultrassom" te deram. Eles não têm esse direito.

Emil disse...

Bravo. Mais um pulmão mandando tomar no cu aqui.

Massa disse...

Deixo aqui meu apoio. Quem sabe de você é você. Parabéns.

Débora disse...

Visito seu blog religiosamente, todos os dias passo por aqui. Confesso que o ultimo texto foi o 1º que me deu vontade de lhe escrever e lhe dar os parabéns. Não pelo aborto, não pelo incentivo que TALVEZ esse texto transmita. E nem que essa fosse a sua intenção. O fato é que o texto vai além do crime, vai mais além do que possamos questionar. A situação na qual você se encontrava e onde muitas outras mulheres se encontram está mais além do que ser intitulada como uma criminosa. O crime já havia acontecido, imagino como estava a sua cabeça nessas 3 semanas. Você não pediu consolo, você não pediu carinho, você queria apenas um tratamento médico, e foi só por isso que você foi até aquele hospital. E eu fiquei indignada com jeito que fora tratada. E é só por isso que eu também estou aqui para mandar aqueles médicos e enfermeiras à merda. E que se você deve alguma coisa para Deus eles também devem e talvez devam muito mais.

Pedro Zambarda disse...

É engraçado o choque humano que uma história sincera pode provocar.

Parabéns pela coragem de expor isso. São essas pequenas coisas que me estimulam a continuar escrevendo. São essas coisas que carregam mensagens.

Diego Goes disse...

Nossa... Texto incrivel, Aline. Se dói na alma ao ler, imagina ao sentir isso na pele.


Adoro cada vez mais a sua escrita.

Guilherme Ko. Freitag disse...

"Aquele nada pastoso e insosso que emana da crueldade dos desconhecidos e das pessoas muito seguras de sua lição de vida."

A crueldade e a mente pequena de quem distribui sua sabedoria quando mal sabem limpar o próprio rabo. E perdem a oportunidade de fazer momentos de angústia dos outros um pouco menos sofridos. Tudo isso para terem o prazer de posar no altar dos justos e corretos, como se isso fossem.

Abs!

Raiza disse...

Adorei o post.Tocante.Parabéns pela coragem.Pela coragem de não ter tido um filho que você não queria,pela coragem de estar contando isso aqui agora e pela coragem de mandar esses "Profissionais da saúde" tomarem no cu,que é o que eles merecem.
Gostei particularmente da frase final,que mostra que a mulher pode sim viver bem depois de ter feito um aborto,e não se consumindo em culpa como querem fazer crer os anti-escolha.
É isso.
Abraço.

Iara disse...

Parabéns pela coragem, Aline, mais uma vez.

Posso tentar entender, embora não concorde em absoluto, que uma pessoa seja contra o aborto, porque eu mesma já fui. Mas não consigo aceitar a idéia de que um profissional de saúde queira agir como juiz/ executor, julgando e condenando um paciente numa situação tão delicada. O pior é que usem argumentos religiosos pra isso, porque o cristianismo que eles defendem é o mesmo do cara que proibiu o apedrejamento perguntando se entre as pessoas com a pedra na mão havia algum santo.

Digo isso sem nenhum sentimento religioso, porque sou agnóstica. E também reforço que não condeno o aborto. Mas não suporto os que são capazes de ter tanta piedade pelo ser humano em potencial, idealizado, e nenhuma pelo ser humano real e seus conflitos reais. Como diz o Gil vêem "tanto espírito no feto e nenhum no marginal".

Não sei se estou viajando, mas acho que ouvi que, na mesma época que o governo federal sugeriu um debate sobre a discriminalização do aborto, o Ministério da Saúde publicou uma portaria orientando profissionais a não destratarem mulheres que procurarem ajuda por conta de consequências de um aborto. Sei que isso na prática não deve mudar muita coisa porque 1. já devia ser a postura deles, sem necessidade de orientção oficial nenhuma, 2. a lei brasileira prevê o aborto em algumas ocasiões e, mesmo nessas, é muito difícil encontrar profissionais que aceitem realizá-lo. Mas acho um avanço, sabe? Em passos de tartaruga, mais é.

Se em tantos países essa é uma questão de saúde pública, não é utópico sonhar com o dia em que você, velhinha, vai relatar essa história para jovens, que horrorizadas e incrédulas, pensaram: "como as coisas era cruelmente surreais antigamente..."

aline disse...

Àqueles que vem até aqui, no meu blog, num post pessoal e delicado como esse, pra dizer palavras de conforto, de carinho, de apoio, de compreensão, de humanidade, eu não tenho palavras pra agradecer. A linguagem ordinária não dá conta mesmo. De expressar o que significa esse afago que recebo, mesmo de desconhecidos. Então esse meu obrigado vem no limiar da dificuldade de expressão, vem na falta de palavra melhor que signifique esse alívio real, caloroso que eu sinto por vocês, neste momento.

Muito obrigada.
Aline

GCDA disse...

eu não tenho uma opinião formada sobre o aborto, mas digo com convicção que o que o crime foi o que os profissionais da saude fizeram, pois independente de ter sido um aborto ou não, era algo que colocava tua vida em risco e o simples fato de que um profissional da saúde não quis prestar assistencia medica numa hora dessas caracteriza o tal crime, o crime de não prestar auxilio a quem precisa...

admiro tua coragem ao fazer o que fez e saiba que por coisas assim é que somos o que somos

parabens pelo blog

Andrea disse...

olá, cheguei aqui atraves de um link no twitter. Achei seu texto lindissimo e muito corajoso. Tambem escolhi abortar em um determinado momento da vida, mas tive a sorte de ter encontrado um médico humamo que me tratou com muito carinho. Mas senti os olhares maldosos e cheios de pré conceitos nos hospitais e laboratórios de exames.
Existe um site onde vc pode deixar seu depoimento e ajudar outras mulheres. Eu deixei o meu e já tive a oportunidade de conversar com algumas mulheres que precisavam apenas disso, conversar a respeito.

http://www.womenonweb.org/

Tica disse...

nem sei o que dizer. queria mesmo te dar um abraço.

"eu aborto, tu abortas, somos todas clandestinas"

Hugo Albuquerque disse...

Aline,

É a primeira vez que visito o seu blog e, seguramente, este é um dos textos mais tocantes que eu já li sobre a questão do aborto - além dele ter me feito considerar cada vez mais o valor desta nossa blogosfera, seja para falarmos sobre política ou dividirmos nossas esperanças, aflições e, quiçá, nossas pequenas vitórias de cada dia.

E a questão da prescrição é curiosa; a velha sociedade burguesa fundou um Estado igualmente burguês que já nasceu identificando e tutelando certos valores que de cuja transgressão resultaria em punição - pois é, assim surge o Direito Penal, esse bisonho ramo jurídico que completará 200 anos no ano que vem.

Mesmo sob a perspectiva da doutrina liberal, onde temos a figura do crime como o desrespeito a um valor fundante e estruturante da sociedade civil - na verdade, do capitalismo -, a questão do aborto não poderia assim ser entendida - como a questão do uso de entorpecentes, por exemplo -, trata-se de um resquício de épocas anteriores absorvido pelo Direito Penal, o que, no entanto, apenas ilustra as contradições do punitivismo penalista.

Aqui, assim como na religião católica, o perdão é possível, mas aqui vem com o tempo, às custas de muito sofrimento - e, se o tempo é a massa em movimento mesmo, por que não podemos muda-lo, fazendo com que as pessoas deixem de ser punidas pelo mal que os outros lhe fizeram?

abraços

disse...

Profundo o post, parabéns por ter superado! :)

Anonymous disse...

Passei por uma experiência parecida, mas por sorte não tive nenhuma complicação. Apenas fiz um ultrasom preventivo. E o médico disse que o útero estava dilatado, blablablá, e perguntou se eu tinha estado grávida recentemente. Não tive coragem e respondi que não. Ele me olhou com uma cara meio feia, mas não disse nada. Isso já me deixou furiosa, a cara feia, a indireta. O papel dele era me dar o resultado do exame, ponto final. Nem meu médico ele era! Imagino o que você sentiu ao ser tão destratada. Qualquer relato sobre esse assunto me sensibiliza bastante. O aborto tem que ser legalizado e já! Não usei como método contraceptivo, não foi uma experiência boa, mas hoje vivo bem com isso, não me arrependo de nada e acho que eu estava no meu mais absoluto direito. (O CORPO É MEU, não é do Estado, muito menos dos médicos e enfermeiras que se acham os donos da verdade, acham que tem direito de ficar julgando. Merecem todos tomar no cu mesmo!). Tomei remédio em casa, sabendo que se ocorresse alguma complicação eu teria que correr pro hospital, correndo o risco de ser hostilizada. No meu caso meu namorado deu um super apoio e ficou o tempo todo do meu lado. Foi muito importante e nessa hora ele demonstrou que gosta de mim e que me respeita. Isso sim é atitude de homem, e não esses ratos que correm da própria responsabilidade! Só não assino com meu nome porque as únicas pessoas que sabem são meu namorado e uma tia dele super gente boa que nos deu apoio, informações e conseguiu o remédio pra gente. Sei lá, meu e-mail tá junto, vai que dá zebra e alguém descobre, né? Como vou saber a reação da minha e da família dele? É melhor evitar. O Brasil ainda tem muito o que avançar nessa questão. Se o aborto fosse legalizado HOJE e as mulheres que optassem por ele ainda iam sofrer toda a hostilização de sempre.

Danielle Pereira disse...

Foi engraçado... pois não costumo olhar com muita atenção o perfil dos blogueiros...
Mas, pela primeira vez, um "mal súbito", ou melhor, um "bem súbito" me levou a saber "quem são?".

Me deliciei com uma apresentação simples, mas genial, de duas pessoas criativas e que, na minha opinião, me passaram aquele sentimendo de: "Puxa! Eles parecem tão vivos!"... sabe quando, só por algumas palavras, ou pela forma como elas são ditas, você meio que compreende a pessoa e começa a se interessar...

Não sei se estou divagando.... só sei que me afeiçoei aos autores somente pela apresentação.
Ao abrir o texto que me foi indicado pelo @vaipensandoai, confesso que um outro sentimento, também não tão comum quanto o anterior, me acometeu...

Fiquei abobada!
Gente viva, que, parece, vive intensamente, falando de vida...

Foi, simplesmente, o texto mais sensível e, ao mesmo tempo, dilacerante que já li sobre aborto.

Peço desculpas pela encheção de linguiça.
Mas não creio que possa complementar nada ao que já foi dito, tanto pela GENIAL autora, quanto pelos ótimos comentários acima.

Me impressionei também ao ver a grande quantidade de leitores que, como eu, aprovam e, mais do que isso, foram profundamente tocados por esse depoimento.

Em se tratando de aborto e tabus da sociedade brasileira, é uma imensa alegria constatar que há pessoas de visão e consciência neste país.

Ainda estou abobada e escrevo sem coerência.

Obrigada por compartilhar este momento!
E obrigada por me desnortear... estou fora de órbita por conta de suas palavras. Mas, felizmente, mais consciente.

Meu muito obrigada!
Danielle

Camila Furchi disse...

Parabéns pela coragem, Aline!
Existem muitas mulheres que lutam pra o que vc passou nao se passe mais na vida de nenhuma outra mulher. Vc sabe que os maus tratos, humilhações e omissões acontecem até mesmo nos casos em que abortar não é crime (estupro e risco de morte da mãe). Estamos todas em luta, e depoimentos corajosos como o teu, alimentam a gente de esperança de que mais e mais mulheres lutem por garantir o direito ao seu corpo! Viva a luta cotidiana, viva a resistencia organizada!! e oxalá vc inspire coragem em outras mulheres!!!!

Anonymous disse...

Ah, e nem falei do desespero quando me vi grávida, aos 18 anos. Tinha acabado de entrar pra faculdade. Posso dizer que foi o pior sentimento que já vivenciei. Gravidez DEFINITAVAMENTE não estava nos meus planos e eu não tinha a mínima condição psicológica de ter um filho. Nem tinha uma relação madura o suficiente para a chegada de um filho. Acredito que o direito de escolha é meu. O namorado apoiando ou não, eu não ia mudar de decisão. Acho que foi depois disso que me voltei mais do que nunca para as questões feministas. O aborto foi em 2007 e pra mim foi uma decisão mais que acertada.

lu disse...

É impressionante como esse post é tão estritamente pessoal quanto politicamente relevante. lindo, tocante, forte, claro, eloquente.

no brasil, acredito que não há questão maior nem mais urgente pro feminismo do que essa, de descriminalizar o aborto. o seu post faz isso tão bem, de trazer para o âmbito da realidade pessoal o que é essa criminalização e o que ela significa no cotidiano, o impacto dela, a cultura que a sustenta, que não tem mais nada a ser dito, mesmo.
beijos, e obrigada.

Haline disse...

Oi Aline, post lindo pq sua percepção das coisas não foi destruida por gente como esses médicos. E triste pq a gente sabe que isso tudo é bem comum. Há pouco tempo uma amiga minha tinha marcado pra fazer uma aborto e a clinica foi descoberta um dia antes. Realmente o azar dos azares. E foi tão angustiante pq classe média num lembra muito q é proibido né? Todo mundo faz e pronto. Só que dai ela ficou morrendo de medo pq eles estavam descobrindo várias a tals. E eu achei até umas fotos de clinicas fora daqui, em países em que já está liberado. E fiquei pensando que isso é mais que urgente, como disse a Lu. bjo em vc

Marcia disse...

Olá,
cheguei aqui por um post no twitter, comecei a ler sem nem saber o assunto.

Gostei muito do seu texto, e vou divulga-lo tambem, pq um depoimento costuma tocar mais do que as estatísticas que mostram as milhares de mulheres que morrem todo ano em decorrência de aborto mal feito.

Mortes que poderiam ser evitadas com a descriminalizacao do aborto, e memsmo sem esta, com atendimento imparcial no sistema de saude.

Anonymous disse...

História realmente triste, só não mais triste que a atitude cruel dos médicos, enfermeiras e demais profissionais que a destrataram.

Só acho estranha a maneira como as pessoas exaltam a liberdade de dispor do próprio corpo e autodeterminação de cada um em relação às práticas abortivas, esquecendo-se, todavia do fato de o ser vivo cuja existência é fulminada neste processo também possuir exatamente estes MESMOS DIREITOS.

Ninguém além de você mesmo deveria ser obrigado a suportar as consequências das suas ações (por mais infortunas que sejam), muito menos quando a consequência em questão é a morte e o sentenciado é um ser tão completamente inocente e indefeso quanto um nascituro.

E não entendam esse meu comentário como religioso, porque nem em Deus eu acredito. Apenas creio num princípio básico que tem acompanhado a humanidade desde o momento em que se tornou civilizada, segundo o qual "nenhum ser humano tem o direito de tirar a vida de outro".

Ângela F. disse...

quanta crueldade que fizeram a vc, que coisa mais triste, mais horrível. que bom que há espaço em você para a elaboração e o desabafo. quando fiz aborto, fui bem tratada pq, como lembrou Haline, segui a cartilha da vida classe média e fui na clínica da zona sul carioca. há algum tempo, o assunto aborto veio à tona em uma discussão do forum das motherns, e contei minha experiência. há uma enorme intolerância e desconforto com o fato de eu ser uma mãe feliz hoje. fui condenada publicamente como egoísta, assassina e sei lá mais o que, todas as acusações baseadas na idéia de que eu - nem nenhuma mulher - tem nenhum direito a essa escolha: ser mãe quando quiser ser mãe. só não sigo muito tranquila porque me angustio com as muitas meninas e mulheres que passam pelo que você passou com *profissionais de saúde* filhos da puta, que são submetidas a procedimentos arriscadíssimos, que são tratadas como criminosas, e que tem o direito ao seu corpo negado.

Anonymous disse...

todo dia eu entrando no seu blog pra ver se tinha algo novo. daí eu aqui morrendo de medo de ir fazer um exame de gravidez e ao entrar no seu blog, me deparo com esse texto. só queria mesmo poder te abraçar e ser abraçada por quem entende o desespero.


até seria [MUITO] bom falar com vc. mas eu REALMENTE não posso colocar meu endereço/nome aqui.

iaiá disse...

sou kardecista, não por imposição familiar, mas por escolha própria, meus pais são ateus. ao ficar grávida aos 23 anos, do namorado,depois péssimo marido, tb cogitei o aborto, e como cogitei, e de novo, me separando deste, engravidei, com tudo dando errado ao mesmo tempo ( destino?) e cogitei novamente. não tive coragem.
estou contando minha parte pra não ser nada hipócrita ao comentar o seu tocante desabafo.
ser mãe é a tarefa mais difícil que tenho, e é ótimo e muitas vezes um saco. exatamente por isso acho que ninguém devia ser pai ou mãe sem estar preparado pra isso. eu não estva e até hoje não sei se estou, passados tantos anos.
apesar de ser espírita, não tenho absoluta certeza de que tudo ali esteja certo, todas religiões padecem dos vícios humanos. quem sou eu ou outro para condenar alguém? me deixa muito triste e enojada que tenham feito isso com vc.
acho que vc teve muita coragem ao optar pelo aborto, e de novo, ao contar aqui, não acho que minha escolha pessoal religiosa tenha q ser imposta a ninguém. pessoas que dizem religiosas deveriam acolher e ajudar, só. sem condenar nada nem ninguém. atire a primeira pedra quem seja santo. não conheço nenhum. imagino seu drama aos 17 anos optar por não levar adiante a gravidez e sozinha. não concordo com espíritas que lutam contra a legalização do aborto. não conheço nenhuma mulher que o use como método anticonceptivo, ao contrário, ele é a última escolha, e imagino, a mais dolorida. por isso junto com vc mando todo mundo que te julgou TNC
e obrigada por dividir algo tão doído com quem te lê, e espero que julgamentos cessem.
e que um dia quem optar por interromper uma gravidez indesejada possa fazê-lo sem sofrer mais ainda e sem correr risco de morrer. beijos carinhosos.

Iaiá.

aline disse...

De novo, obrigada. Às pessoas que entram aqui com a cabeça aberta e sem intenção de julgar, as que contam histórias suas, as que se solidarizam, anônimas ou não, conhecidas ou não. Estou lendo cada comentário com cuidado, e não tenho como responder individualmente, neste caso. A essas pessoas, eu agradeço sinceramente.

Aline

yaso disse...

Só posso te falar parabéns pela coragem e força. Continue sempre de cabeça erguida, tenha a certeza de que foi a escolha que você pôde fazer aos 17 anos.

Srta.T disse...

Querida, que texto. Me encheu os olhos d'água. Já passei por aflição semelhante, mas não estava grávida. E como sofri até descobrir. Tive o apoio dos meus pais, que disseram que concordariam com o que eu decidisse.
Enfim, um abraço apertado, demorado. E um beijo grande.

Luisa disse...

Apesar de não ser uma regra geral, grandes sofrimentos ajudam a nos converter em grandes pessoas, Aline. Você é uma pessoa com um grau de compreensão e empatia gigantescos.
Un beijo enorme.

Julia disse...

Aline,

Parabéns por ter superado esse seu trauma (pelo menos até o ponto de vir dividi-lo com a gente). Eu sempre fui neurótica com gravidez - tomo pílula desde que comecei a namorar, aos 15, sempre usei camisinha e mesmo assim passava medo (agora pus um DIU, melhor decisão da minha vida). Mas tive várias amigas na escola, muitas mesmo, que passaram por situações parecidas com a sua. Teve até uma que caiu/se jogou da escada (e de fato abortou).
Aqui na França eles têm um programa de aborto voluntário (tipo aquele que a gente vê em Juno, não lembro o nome certo). Não conheço ninguém que tenha usado, mas a julgar pelo ótimo tratamento que sempre recebi dos profissionais da saúde pública daqui imagino que seja todo um outro mundo.

Abraço e muito obrigada.

Désir La Vie disse...

Puta que pariu, Aline

Arrepiou os pêlos do corpo todo.

Olha, no início do texto não me tinha caído a ficha aqui, mas já estava me identificando DEMAIS!

Também tive uma história parecida com a sua, mas já era uma segunda gravidez(estava com disturbios hormonais e a pílula não reagiu como esperado), e aos 18 anos recém completos. Era meu primeiro namorado depois do desastre de uma gravidez aos 15 anos...Dá pra imaginar o quanto surtei, né?

Só que meu namorado da época foi homem o suficiente pra me acompanhar e me apoiar, mesmo contra sua vontade, pois queria o filho. Inclusive foi ele quem comprou a medicação e com o seu próprio dinheiro.

Ele ficou ao meu lado o tempo todo, e também dormiu comigo no dia X. Inventamos uma lenga-lenga pros pais e funcionou, passamos a noite juntos. Só que na hora H senti tanto medo, e tão massacrada pelo moralismo - sim, porque já tinha avisado uma boa parcela da família - que não consegui tomar a 'medicação'; passei a chorar e chorar e chorar, e assim foi, até ela nascer. Não queria a criança, mas fui até o fim, ou quase, pois rejeitei-a até o fim, isso sim.

Sinto muita dor pelo passado. Mas hoje ela está no mundo, e sinto muito mais dor ainda por não ter conseguido dar 'aquilo' que ela realmente merecia.
Toda vez em que me sinto sozinha penso nela.

Obrigada por ter me proporcionado o resgate dessa lembrança; dolorido, mas importante na minha trajetória como pessoa...


Beijos e abraços fortes!
Acho que consigo visualizá-la sozinha, apavorada, com 17 anos, apenas...

clara disse...

obrigada por dividir isso. parabéns pela força! é isso aí!

Elaine Dantas disse...

Aline,

Sempre te estimei muito, agora mais ainda pela sua coragem. Fomos adolescentes na mesma época, estudamos na mesma escola, participamos do mesmo grupo teatral e tínhamos o mesmo papel na peça que ensaiávamos. Mesmo com essa proximidade eu nunca havia imaginado que você tinha enfrentado sozinha essa situação tão sofrida. Você tão perto de mim vivendo essa angústia tão grande, precisando de apoio, conforto e eu nada captei...

Não vejo o aborto como uma opção na minha vida pessoal, mas você tem o meu total respeito por essa sua difícil decisão. Falta humanidade naqueles que julgam sem antes se colocarem no lugar de quem teve uma experiência REAL. Junto-me ao coro de todos que mandaram tomar no cu aqueles que te julgaram.

Aline, a você o meu mais confortador abraço.

Elaine Dantas

Anonymous disse...

Drummond é fhoda né.
Lindo texto, tocante e corajoso como todos aí disseram. vc é linda menina.
um abraço afetuoso
madoka

Nefelibata disse...

Lamento uma coisa.

Não poder ver a cara do médico ouvindo você o mandar tomar no cu. Pena, viu. Mas felizmente, isso está longe do mais importante.

Abraço!

dolores disse...

vc inspira muita força. e muito brilho também. parabéns pelo post, pelo o que vc aparenta ser.

Anonymous disse...

Não acho que os médicos agiram errado. É preciso ter consciência dos nossos próprios atos, e que os mesmos terão consequências. A saúde no Brasil é precária, existe uma fila enorme de pessoas aguardando um procedimento cirúrgico. A vida não é rosa, muito menos uma festa. Acho que as pessoas crescem com o sofrimento. Percebi essa evolução nesse post, que só foi possível com essa experiência, mesmo que desagradável.

aline disse...

Prestenção, dono do IP 189.62.180. A diferença entre vc e o médico é que ele eu mando tomar no cu pelo o que disse 8 anos atrás, vc eu to mandando tomar no cu pelo que disse 50 minutos atrás.

Cai fora, babaca. Volta pro lodo de onde vc veio.

Sydma disse...

Cara Aline,

Conheço seu blog há poucas semanas e fiquei profundamente sensibilizada pelo seu texto. Que
a hipocrisia que ele relata seja devidamente socada no rabo destes pseudovirtuosos que te agrediram com tanta frieza. Ao cu( deles) com essa merda.

Abraço,

Sydma

Danilo Albergaria disse...

Mais um grande texto, escrito literalmente com sangue.

Grande abraço, Aline.

Anonymous disse...

Tereza Melo disse:
Aline, obrigada pelo texto sensível e corajoso.
Já leio seu blog faz tempo e fiquei emocionada com esse post.
"Quando finalmente ela saiu do hospital, era como se nada tivesse acontecido. Aquele nada pastoso e insosso que emana da crueldade dos desconhecidos e das pessoas muito seguras de sua lição de vida. Aquele nada, que desconforta, que esvazia, que tira a graça de tudo aquilo que se move".Eu já me senti assim e o meu caso nem era aborto.Acredito que muitas pessoas já se sentiram assim ao procurar profissionais de saúde.As pessoas às vezes são cruéis em nome de princípios, colocam os seus princípios acima do ser humano. E sim, existe muito preconceito entre os profissionais de saúde.Acho que ser ou não a favor do aborto diz respeito a cada mulher.
Esse texto merece ampla divulgação.
Beijo carinhoso
Tereza

Luísa Alves disse...

Dorei o blog! Achei por acaso no Twitter. Parabéns pelas luzes em você.

aline disse...

mais uma vez, obrigada a cada pessoa que veio aqui pra dizer palavras de carinho e conforto. muito obrigada mesmo.

Mariana disse...

Bom, eu não consigo nem comentar, você escreve coisas que realmente me emocionam, e esse em especial pegou na veia. 8 anos se passaram, nada foi feito desde então. Garotas ainda passam por isso, médicos ainda olham de cara feia. Desrespeito e intolerância, por parte daqueles que deveriam te acolher em momentos difíceis. Médicos deveriam cumprir seus papéis, e deveriam deixar a moral para os indivíduos. Eles brincam de deus, tem ações de tal.

Silvana Terume disse...

Querida, um grande, forte e demorado abraço...
Sinto saudade...
O que mais falar?

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