21.9.09

do senso de ironia

Cada geração se depara, mais cedo ou mais tarde, com a necessidade de adaptação e aquisição de capacidades indispensáveis para a sobrevivência. Ou, vá lá, pelo menos pra harmonia da vida em grupo. Agora que as redes sociais estão bombando, é importante que a gente saiba como se comportar dentro delas. E foi assim que o senso de ironia acabou de entrar pra lista de sensos fundamentais, ao lado do senso comum, do bom senso (também conhecido como simancol), do senso estético e do senso de direção: a partir de agora, colega, sem ele, você tá na roça e vai carpinar sozinho.
É que as pessoas, meu deus, as pessoas estão falando sem parar. Blogs, twitters, tumblrs, readers – e todos os desdobramentos: caixa de comentários, feeds, retuitadas, trending topics, tumblaridade, likes, follows, unfollows, compartilhamento, notas. Some-se a essa avalanche de comunicabilidade que nós somos pós-modernos, ou qualquer coisa que indique que tudo aquilo que já foi grave, gravíssimo, é ainda grave, gravíssimo mas permanece irresoluto e virou piada. As pessoas estão dizendo e repetindo tout et n'importe quoi, meu deus, as pessoas estão fazendo piadas. Boas e ruins, quero dizer. E tem gente que sai atirando indiscriminadamente pra todo lado como uma matracalhadora e criticando qualquer manifestaçãozinha de humor, sarcasmo, ironia ou non sense (esse coitado ainda não entrou pra academia brasileira de sensos, permanece banido até segunda ordem).
Enfim, eu não sei dos outros, mas a ironia urge defender. Ela não pode morrer à mingua, surrada por aqueles que tomam tudo ao pé da letra e acham que toda frase é uma sentença. A ironia é gente boa. Prestando atenção, vê-se que ela diverte a gente quando eleva o que é rasteiro e rebaixa o que é elevado. Ela troca os termos e os valores de uma equação, ela brinca com as expectativas, ela permite que a gente se vingue de injustiças e perversidades, ainda que seja uma vingancinha boba, amarelenta, passageira. Ainda que trocentas pessoas repitam uma ironia, ela não se torna grande coisa. Mas também não é porque uma ironia se populariza que ela deixa de ser bacana. Entender uma ironia é a alfabetização do momento, então, como eu disse, urge aprender. Eis minhas cinco dicas de como captar uma ironia.


dica

1 – Não acredite que aquela celebridade instantânea realmente alcançou a posteridade e amor incondicional de todo mundo. Assim como você, a gente sabe que nada é mais efêmero do que a condição de celebridade. A graça está justo nesse pedestal absolutamente imerecido.

2 – O mesmo vale pros grandes assuntos intelequituais. Gente que inventa ideias, assim, genuinamente, acho que tem umas 10 no mundo. E elas não estão no twitter. O que as demais pessoas (na definição do Jota Quest: você, eu e todo mundo cantar junto) fazem é negar, repetir, adaptar, distorcer, reformular, simplificar, universalizar, transferir, recortar, colar, colorir, esticar, puxar. As tais ideias, bem entendido. Então se é pra começar um longo debate, que não seja por causa de um detalhe numa frase que fulaninho tuitou. Fulaninho, coitado, devia estar sendo irônico e não merece pagar por isso.

3 – As pessoas que dizem querer salvar o mundo se dividem em dois grupos: o dos chatos idealistas e o dos irônicos interessantes. Os chatos passarão a vida inteira implicando com aqueles que não agem segundo suas certezas. Não seja um chato idealista. Os irônicos são aqueles que mostrarão nossas contradições e insignificância. Eles não salvam nada nem ninguém, os irônicos, mas eles talvez mudem alguma coisa. Só não me perguntem o quê.

4 – Aqui deveria haver mais uma diquinha pra fechar o número 5, mas nada me ocorre. Pule esse item, por obséquio.

5 – Se você não tem certeza se está diante de uma ironia, imagine-a sendo cantarolada pelo Chacrinha ou cartunizada pelo Ziraldo. Riu? Sorriu, ao menos? Então é só uma ironia.

16 pessoas pararam por aqui:

Ollie disse...

Adorei! O seu post complementa os itens 5, 6 e 7 daquele que eu escrevi. :)
Realmente tornou-se necessidade básica que as crianças e jovens aprendam a captar e a expressar o senso de ironia através dos textos. Uma deficiência séria na educação formal de crianças e jovens e que só ficou aparente para mim depois que passei a me relacionar com outras pessoas nas redes sociais.
Incrível como tem gente que não entende direito as sentenças e interpreta tudo ao pé da letra. É uma espécie de fundamentalismo sem fundamento religioso, porém igualmente perigoso.
Triste que isso seja tão frequente. :\

Ollie disse...

Ahaha... "fundamentalismo sem fundamento" Parece até letra de música dos Engenheiros do Hawaii. :)

aline disse...

Ah, que legal q vc gostou. Eu li seu texto rindo muito, adorei ele inteiro. Desde aquela pendenga sobre o politicamente correto q eu pensava nisso, do quanto uma idiotice qualquer vira assunto pra comentário e bla bla bla :D

As vezes pode até ser perigoso, mas na grande maioria das vezes, é absolutamente chato. Pentelho.

"Fundamentalismo sem fundamento" - hahahahahhaah, se o Gessinger te descobre, vc vira musa dele!

bjos

Désir La Vie disse...

Eu amei demais essa charge!

Olha, um exemplo para isso, mesmo não pertencendo ao mundo virtual, é o Stephen Colbert, do Comedy Central's (o marido aqui é viciado nele). O cara personifica um reacionário de direita norte-americana, e ele realmente apavora.
Se você não tiver o tal 'senso de ironia', você simplesmente não consegue ouvir as merdas que ele diz - apesar que tem toda uma postura gestual que compensa, e fica evidente que o palhaço é ele mesmo; mas as merdas que ele diz são de matar.
O mais engraçado, segundo o que maridón me disse esses dias, é que estava tento uma pesquisa de uma universidade estadunidense que dizia que quanto mais reacionário-conservador fosse a pessoa, mais ela acreditava que o Colbert era uma figura verdadeira/legítima...
E super tem a ver.

Mas enfim, divaguei demais.

Beijos!

aline disse...

hahahaha

divagou nada. é por aí mesmo, eu acho. quem não sabe ler ironia não percebe a diferença entre o mais conservador e o mais crítico do conservadorismo. machado de assis tbm pode se rlido assim, como uma voz reacionária. e, francamente. a última coisa que machadão é, é reaça. mas enfim, acontece. toda hora, aliás.

beijos querida

Rafael disse...

(recomendado pela Luisa)
Viva a ironia. Pé da letra é um pé no saco!
Adorei o blog!

aline disse...

obrigada, seja bem vindo! \o/

Marcus disse...

Estou sem tempo de comentar, só queria dizer que adorei o texto, e que, mesmo sem uma conexão de internet decente, estou tentando acompanhar o seu blog, que está ótimo, mas demanda um tempo de leitura mais demorada e mais reflexão.

lu disse...

hahaahahahhahhaaha
meu, que post de-li-ci-o-so! ri e degustei cada palavra do começo ao fim. tão gostoso que li e reli o item 2 e cada um dos outros algumas vezes só pra saborear melhor.
aline! aline! aline!

li ontem o post da ollie, que tá uma pérola, também; pra quem ainda não leu, vale a pena clicar no nome dela aí em cima e dar uma olhada :)

:**************

aline disse...

\o/
eu ia estender as dicas pra blogosfera, mas deu preguiça...

hahahahahahhahahahah

:***

Mariê disse...

Há tempos tem me parecido que as pessoas levam as coisas a sério demais. O pior chato é o que se leva demasiadamente a sério.
Ótimo post, como sempre.
Beijo

Pat Siciliano disse...

Olá! Adorei o blog. E concordo com você: sem a ironia, a vida SUCKS DEEP!!!

aline disse...

Mariê, fecho contigo. Sem leveza, não vale a pena andar por aqui.
Obrigada pela sua gentileza, como sempre.

:******

Alice... Romeu. Olá. Que legal que gostou, fique à vontade! \o/

Suzana Elvas disse...

É por isso que hoje meu ídolo é o Sheldon...
:)

Suzana Elvas disse...

Ollie, seu blog é ÓÓÓÓtimo!!!!!!
"Sarah Lacy te despreza" - hahahahahahahaha!
Amei. Fiquei fã. Mas não comentei porque... não tem comentários?

Ops! Sorry, Aline.

aline disse...

Marcus, não sei como eu deixei seu comentário escapar! Desculpe. Muito obrigada pela visita, pelo carinho! Eu percebi que vc andou desconectado pelo tuiter e pelo seu blog. Espero que esteja tudo bem, etc. :)

Suzana,
O Sheldon é rei aqui em casa. Todo mundo ama.

Não precisa pedir desculpas por mandar recado pra Ollie não. O blog dela é demais mesmo, não tá no meu blogroll à toa. E ela mesma é demais, inteligente, engraçada, interessante. Já disse tudo isso pra ela. Morro de orgulho de saber que ela passa por aqui, vez em quando, e lê o que eu escrevo.
Sobre a caixa de comentários dela, creio que ela desabilitou porque comentaristas às vezes podem ser muito chatos. Eu ainda acho que a maioria vale a pena, mas parece que ela não. ;)

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